Quem sou eu

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Gosto de compartilhar pensamentos e vivências, porque ao retirá-los de mim posso enxergá-los melhor.

sábado, 29 de junho de 2013

Ser

              O Decálogo em versão Logoterapêutica

1° mandamento: Manterás a relação com a transcendência.
2° mandamento: Conservarás tua receptividade aos valores.
3° mandamento: Periodicamente recolher-te-ás para dialogar com a tua consciência.
4° mandamento: Perdoarás aos teus pais os erros que cometeram contra ti.
5° mandamento: Afirmarás incondicionalmente o sentido da vida.
6° mandamento: Consentirás que a tua satisfação seja o efeito secundário de um ato de amor.
7° mandamento: Só tomarás para ti e assumirás o que te for destinado.
8° mandamento: Não multiplicarás o sofrimento entre as pessoas no mundo.
9° mandamento: Respeitarás e preservarás a unidade da família.
10° mandamento: Não aspirarás a ter, mas a ser.

                                                         ('00')

        Enquanto eu copiava este decálogo, absolutamente transcendental, uma nova borboleta tentava pousar em meu jardim. Ela está ferida e quer colo, quer ser cuidada e desde alguns meses acredita que eu possa ajudá-la, por isso me cobra, exige e pede que o faça. Estamos num impasse e desde então discutimos abertamente, sem metáforas, por mais que eu tente usá-las. Ela é direta e pouco poética, manipuladora e chantagista, escorpianina, não que eu acredite em horóscopos. Quer ser a minha filha, quer me chamar de mãe, quer fazer parte da minha vida.

        Que excelente oportunidade, alguém me diria, já que eu não tenho filhos. Muito cômodo da minha parte permitir que a filha de alguém entregue gratuitamente seu coraçãozinho de 15 anos a mim e me faça sua heroína. Situação altamente tentadora e profundamente diabólica para quem não tiver a clareza do décimo mandamento.

        "Ter" filhos não me garante "ser" mãe, mas eu posso "ser" mãe sem "ter" filhos, pois a maternidade está em mim, hoje eu sei e não a nego, nem tenho medo de assumi-la. Meu Anjo conduziu-me pela mão a este saber, me ajudou a enxergar e manifestar minha maternidade, mesmo que não seja a maternidade biológica. Agora sinto-me preparada para administrar situações como estas, que pelo visto se repetirão em minha vida pelo universo adolescente em que me encontro diariamente. 

        Acredito que estas situações são frutos do meu trabalho interior, da minha vontade de mudar, porque desde que comecei a trabalhar em meu jardim eu desejei que as borboletas aparecessem, e elas estão aparecendo. Desde que a grande borboleta azul pousou em meu jardim, ela criou um campo energético que atrai as outras amarelas, brancas, rosas e coloridas, que aos poucos se acomodam nas minhas flores. Agora eu preciso aprender a deixá-las à vontade, ensiná-las a desfrutar das flores por si mesmas, ensiná-las a voar pelo jardim sem medo. Minha presença precisa ser doce para que aos poucos elas se aproximem. Uma presença sem sentimentos de posse, apenas presença de paz e de confiança. Porque, mesmo que elas ainda não saibam ou não aceitem, elas apenas desejam um jardim que às acolha por um tempo para que sintam faltam do lar e voltem mais maduras, mais gratas e mais serenas. E eu, não mereço a dor da ilusão de que elas venham para ficar, pois de alguma forma minha essência está no "ser" e não no "ter".

       

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Não sou poeta

       
         Nem sempre tenho o que dizer. Estes são dias assim, em que viver está acima do dizer, porque a palavra se encontra cozinhando no forno das  vivências e, qualquer reflexão, comentário ou observação, cairia no vazio, porque palavra cozida é palavra vivida.

        Nego-me a afirmar que só escrevo quando não estou bem ou quando minha alma dói. Sei que os poetas são seres que vivem no fio da navalha entre a loucura e a razão, por isso sofrem, por isso escrevem, para sublimar suas dores, para espiritualizar seus rancores, desamores e dissabores. Mas eu não sou poeta, não tenho a habilidade de manipular a palavra em formas geométricas. Sou pobremente linear. 

        Contar minhas mazelas, sequelas e quirelas do dia a dia, a quem por curiosidade passe por aqui e leia, me alivia das ansiedades, adversidades e contrariedades, daquilo que em minha idade devo administrar. Por isso, não me preocupo com a forma ou a rima, nada que combina com poema ou poesia. Apenas desafogo, desabafo, libero o laço que me prende ao meu sofrer, que sem querer me desvia do saber de que tudo o que passamos nos faz crescer. 

        Por fim clico e publico, depois releio, com certo receio, de não saber se pelo meio das teias das palavras eu encontre alguém diferente daquela que frente a frente vejo no espelho dos sentimentos alheios que teimo em narrar. 

        E de escrita em escrita, se enumeram as histórias que por vezes inglórias permanecerão sem serem lidas, comentadas ou mantidas na memória de alguém. Mas isto não me importa, pois desta horta colho novos pensamentos com os quais me alimento e parto do desalento.


terça-feira, 25 de junho de 2013

Lembranças

    
        Lá fora chove. De minha cama escuto a chuva e percebo ao redor o silêncio da casa, casa que deixarei em breve, não tão breve como uma semana ou um mês, mas breve. Pela primeira vez, de tantas outras, a deixarei para morar na minha casa. Algo me diz que será para sempre. Quanto tempo dura o para sempre?

        Não terei mais que conviver com as paredes mofadas, com o acabamento antigo, com os canos estourados, com as teias de aranhas no teto, com um único banheiro... e pela primeira vez percebo que vou sofrer, que não será tão fácil como das outras vezes. Não me refiro a um sofrimento negativo, mas a um sofrimento saudável, como quando um filho vai para a faculdade ou se casa. 

        Pela primeira vez eu levarei lembranças boas daqui. Lembranças do silêncio que me acalmou todas as vezes que cheguei do trabalho. Lembranças da visão das árvores e dos pássaros que tenho da minha cama. Lembranças de cada planta que cultivei, do gramado que plantei, das frutas que colhi, dos espaços que criei e nem consegui usufruir. Lembranças de cada reforma que fiz. Lembranças dos meus cachorros felizes me esperando para ganhar um agrado. Lembranças do meu poço. Lembranças da minha rede e até das formigas que comeram a minha roseira. Lembranças dos vizinhos que aprenderam a me respeitar como a dona da casa. Lembranças de andar toda rota, de chinelos e meia pela rua. Tantas lembranças boas, de conquistas, de crescimento pessoal. Eu sentirei saudades. Sim, eu sentirei saudades. Como é bom sentir saudades. Saudades é a expressão máxima de que se amou.

        São sete anos, um ciclo todo de vida, de renascimento, reestruturação e re-significação. Sete anos. O número místico por excelência, o céu e a terra juntos. O divino e o humano. Diante deste carinho do mistério, eu me dobro e me calo.





sábado, 22 de junho de 2013

Logoterapia



       "O homem vence principalmente nas suas derrotas: em face do absurdo reencontra o sentido, no seu fracasso redescobre a sua responsabilidade, na morte triunfa definitivamente sobre sua cisão". (Logoterapia) Biografia de Viktor E. Frankl

        Creio que mais ou menos há um mês iniciei um processo que denominei desapego, como pretendo me mudar para um espaço menor, decidi separar alguns objetos para vender ou doar. Comecei pelos meus livros, separei vários e fui até um sebo, mas não os vendi. Achei ofensiva a oferta dada por tantos anos de estudos e saberes, então, como sempre faço, preferi doá-los. Separei-os carinhosamente por área e pensei nas pessoas a quem pudesse presentear. Reli alguns e outros li, pois por algum motivo não os havia lido ainda, apesar de tê-los faz anos.

        Este processo revirou novamente meu quarto que já estava arrumado após pintura das paredes e janela. Tudo está de pernas para o ar, porque agora tenho que liberar os espaços internos dos móveis, pois quando eu me mudar, certamente terei móveis menores. Nestas releituras e leituras me deparei com o título: "Psicologia Espiritual" de Elisabeth Lukas, psicoterapeuta da linha de Viktor E. Frankl, criador da Logoterapia. E entendi que este era o momento certo de sua leitura.

        A ânsia por relatar todos os aspectos levantados em minhas reflexões, da sua leitura, quase me paralisa. Há uma agitação interior que exige ordenar e concatenar as ideais para se sejam compreendidas por quem as ler. Mas o foco principal encontra-se no que a Logoterapia propõe: a busca do sentido.

        Passei muitos anos de minha vida relacionando fatos e memórias passadas na busca de compreender meu "eu atual". Consegui, fosse sozinha, fosse acompanhada por um terapeuta, relacionar minhas dificuldades atuais com fatos do passado, mas nada disso mudou minha maneira de ser, ou amenizou meu sofrimento de maneira efetiva. Disse esta semana à minha terapeuta: "Eu já analisei os mesmos fatos dezenas de vezes, por vários ângulos e cada hora encontro algo diferente. Até quando me manterei nesta dinâmica?" Neste livro descobri que ao revolver nossas memórias e fixar nos sofrimentos, nos momentos ruins, em meu caso, no abandono materno, criamos um novo sulco de memórias que se fixam em demasiado e permanece com muito mais intensidade do que outras memórias. Isto foi comprovado por alguns testes, os quais seriam cansativos explicar aqui. Também lhe disse: "Por mais que eu analise, não encontro em minha história o momento onde fui desejada, minha concepção aconteceu em situações adversas, etc, etc". Ela nada respondeu, apenas insistiu em que já sofri demais e que se minha índole não fosse boa eu teria surtado e feito muito mal ao mundo. 

        Muitos são os fatos que desencadearam estas reflexões, mas como sou extremamente simbólica, aponto um como marco. Tenho uma amiga a quem estimo como um anjo de guarda. Nesta semana lhe fiz uma pergunta sobre um determinado comportamento que havíamos desenvolvido, eu sempre lhe desejava boa noite antes de dormir, fosse pelo celular, fosse pelo facebook. Ela havia me pedido para fazê-lo. Isto pode soar como algo natural, mas para mim esse gesto tomou a dimensão de cuidado para com seus sentimentos e aos poucos se tornou vital para mim. Também aos poucos, por forças das circunstâncias perdemos esse hábito. Esta semana lhe perguntei: "Por que você me pediu isto?" Ela olhou de lado, respirou fundo e respondeu: "Porque eu achava que era importante pra você".

        Eu nunca esperava aquela resposta. Acho que dentro de mim eu queria ouvir: "Porque me fazia bem, porque eu queria me sentir cuidada por você...". E ela disse: "Porque eu achava que era importante pra você". Esta frase ficou ressoando em minha mente vários dias: "Porque eu achava que era importante pra você". Na minha concepção se ela tivesse respondido o que eu esperava, eu confirmaria seu amor por mim, mas ela respondeu: "Porque eu achava que era importante pra você".

        Passou-me pela  cabeça que ela havia iniciado uma dinâmica cuidadosa porque tinha pena de mim ou coisa parecida, mas aos poucos algumas lembranças foram se intensificando e o que poderia ter desencadeado um rol de pensamentos opressivos e destrutivos, foram se transfigurando no mais terno gesto de amor. Ela fez porque lhe pareceu importante para mim, e era importante, foi importante. Foi vital. E eu sei que também foi importante para ela.

        Este fato desencadeou uma série de sentimentos e pensamentos sobre minha postura em relação ao outro e do outro em relação à mim. Eu também faço muitas coisas pensando que seja algo importante para ele(a), às vezes acerto e outras erro. E nesta mesma linha de raciocínio passo a pensar que "o que me fizeram" foi pensando que seria importante para mim. Se minha mãe exigiu de mim maturidade antes da hora é porque de alguma forma sabia que não poderia cuidar de mim sempre, queria que eu aprendesse a me cuidar e quanto melhor eu fizer isso hoje, mais feliz eu serei e consequentemente honrarei a educação que ela me deu e ela também poderá ser feliz.

        Se eu não duvido que minha amiga me ame então como posso duvidar que minha mãe me ama?

        Recebi por facebook uma mensagem lindíssima de outra amiga que acompanha meu blog, preocupada com minhas dores e conflitos, compartilhando suas experiências, suas respostas aos desafios e me encorajando a descobrir um novo sentido. Havíamos dividido o mesmo ideal de vida por alguns anos e nunca nos preocupamos em conhecer nossas dores e conflitos, agora, mesmo tão distante algo maior nos une e compartilhamos nossas vidas. Estas duas pessoas e vários outros fatos desta semana me conduzem à novas paisagens e à conscientização de que pode ter acontecido comigo o que nos é tão comum acontecer: a criação de um sulco de memória enganoso que me permitiu viver até agora, mas que não faz mais sentido algum. Há memórias suficientemente boas e cheias de significado que podem sobrepor as outras, porque eu sou livre e posso decidir a cada dia que resposta dar.

        Se eu quero ser amorosa, afetuosa e gentil, não é a atitude do outro para comigo que vai definir o que serei, mas sim a minha atitude amorosa, afetuosa e gentil.  Elisabeth Lukas relata o caso de uma paciente que a procurou por não conseguir se dar bem com o filho do marido, vou transcrever uma parte do diálogo: (Elisabeth) "Disse-lhe: "O que irradia de uma pessoa, suas palavras, suas ações, é determinado por ela mesma e por mais ninguém. A mesma coisa vale para a senhora também. A senhora e unicamente a senhora determinou quanta amabilidade e quanto ódio irradia da sua pessoa. Não o determina o seu amigo, nem o filho do seu amigo e muito menos os filhos do filho." "Mas se me tratam com ódio, não posso ser amável", objetou a senhora. "Pode sim", insisti, "com certeza pode. A senhora possui sem limitações a possibilidade de um comportamento amável. Ainda que cem pessoas lhe mostrassem ódio, a senhora teria a possibilidade de ser cem vezes amável e cordial. Agora, se a senhora quer isso, se a senhora escolhe isso, é uma outra questão. Se é racional, se é certo retribuir cordialidade ao ódio é ainda uma outra questão. Só chamo a atenção para a liberdade que é sua. Uma liberdade grandiosa, poderosa, a de decidir, independentemente de tudo o que vem a seu encontro, o que irradia da sua pessoa".

        Uma varinha de condão na mão de uma criança pode ser deliciosamente salvífico...por isso continuo meu processo de desapego, desapego de tudo o que não corresponde às boas memórias.
         

       

        

O homem Viktor Frankl e a logoterapia

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Minha paixão


    Hoje acordei melhor, aliás, prefiro o verbo em espanhol, me despertei melhor. O verbo despertar me expressa melhor porque despertar é abrir os olhos, sair de uma realidade para entrar em outra, é sair do sonho ou do pesadelo.
 
    A minha vida é cheia de dúvidas e perguntas, por isto tenho a sensação de que viverei uns 95 anos, porque aos poucos, as dicas e as respostas aparecem, num ciclo dialético evolutivo, dentro da mesma vida, o que confesso dar uma canseira danada e, por vezes, a sensação de que nada vivi além deste ciclo de perguntar e em algum momento encontrar a resposta.

        Uma amiga me disse ontem: "Não é para tudo que temos uma resposta racional", mas eu sou feroz, tenho fome, tenho necessidade da resposta, é intrínseco a mim, é o meu método de reler, de reinventar, de re-significar. Pela maneira fênix como me levantei depois de me deitar cinzas, e pelas diversas vezes em que me peguei sorrindo sozinha recordando imagens, palavras e cheiros, quero acreditar que iniciei um processo diferente. Eu creio estar me curando de uma paixão, pois é, paixonite aguda do miocárdio, era só o que me faltava.

       Eu não admitiria esta palavra a dois meses atrás nem por brincadeira, mas graças ao meu constante ciclo dialético, eu assumo e reconheço, porque só uma pessoa apaixonada pode sentir o que eu sentia.

        A primeira vez que me apaixonei eu tinha oito anos, e foi pelo neto da minha vizinha. Eu mal podia respirar perto dele. Era um encantamento absurdo. Meu pai não gostava dele, mas minha mãe deixou que namorássemos escondido, sem dar beijinhos, coisa que não obedecíamos, claro. Evidente que um namoro aos oito anos não iria para frente. Mas aos catorze tentamos novamente, era só eu ouvir sua voz que me desestruturava. Nesta época meu pai já havia falecido e agora quem não gostava dele era a minha mãe, então o namoro não foi para frente. Aos dezesseis nós voltamos, eu sempre apaixonada, apesar de haver namorado outros garotos. Desta vez não deu certo, ele não aceitava muito bem meu envolvimento com o grupo de jovens, então me deixou e eu quase morri de tanto chorar. Ele foi o único homem até hoje por quem me apaixonei. Gostei muito do meu ex-marido e aos poucos estou amando meu namorado, mas paixão...

        A segunda vez que me apaixonei foi por uma causa, por um ideal, o de ser missionária. Eu sonhava com minha vida na missão, atendendo à comunidade, enfrentando desafios, trabalhando pelo próximo e me consagrando por um ideal. Apaixonada eu abandonei tudo e no auge da minha juventude fui. Me machuquei horrores, hoje respeito todas as crenças e ações solidárias, mas paixão por uma...

        Esta é a terceira vez que me apaixono, agora por uma criança, que eu desejei que fosse minha. Que eu sonhei dar colo e por para dormir, que eu sonhei levar no parque, no cinema e protegê-la de perigos. E que num piscar de olhos se transformou numa linda jovem que deseja voar, que quer aprender a dormir sozinha porque já não tem mais medo do escuro, porque quer andar com as próprias pernas e decidir aonde ir.

        É evidente que estou sofrendo por mim, pois por ela não há motivos para sofrer. Ela é uma vencedora, conquista a cada dia novos lugares neste mundo, faz boas escolhas, sempre se preocupa em ser uma pessoa justa ao ponto de se importar mais com os outros do que consigo mesma. Eu sofro por mim, por haver me apaixonado por quem não pode pertencer a uma única pessoa, o mundo a necessita.

        Hoje minha terapeuta me disse que as pessoas passam por nossa vida para nos ensinar algo. Pouco a pouco, enquanto a paixão passa para dar pleno lugar ao amor, eu começo a perceber em minha prática diária o que ela me ensinou. Minha menina me ensinou a revelar minha ternura, a sorrir, a acolher fraternalmente, a ser menos distante afetivamente, a permitir que o outro se aproxime, a perceber que o patético pode ser poético, a chorar de emoção, a não deixar a sobrancelhas franzir, a pedir um abraço. E eu quero que ela sinta orgulho de mim, que ao me encontrar reconheça a minha menina interior que ela ajudou a aflorar. Quero que ela veja quantos estão se beneficiando desse meu novo jeito de ser e que seu lugar estará sempre guardado, limpinho de poeira, ensolarado, esperando por ela.



   

terça-feira, 18 de junho de 2013

Climatério

Sou uma sombra. Venho de outras eras!
Do cosmopolitismo das moneras...
Polipo de recônditas reentrâncias.
(...)
Então, do meu espírito, em segredo,
Se escapa, dentre as tênebras, muito alto,
Na síntese acrobática de um salto
O espectro angulosíssimo do medo!
(...)
                                                      Larva do cáos telúrico, procedo
                                                      Da escuridão do cósmico segredo,
                                                      Da substância de todas as substâncias!
                                                      (...)
                                                      E eu, roído pelos medos,
                                                      Batia com o pentágono dos dedos
                                                      Sobre um fundo hipotético de chagas.
                                                      (...)
                                                      Diabólica, dinâmica, daninha,
                                                      Oprimia meu cérebro indefeso,
                                                      Com a força onerosíssima de um peso
                                                      Que eu não sabia mesmo de onde vinha.
                                                      (...)
                                                      O vulcão da bioquímica fogueira
                                                      Destrui-me todo o orgânico fastígio...
                                                      Dá-me asas, pois, para o último remígio,
                                                      Dai-me alma, pois, para a hora derradeira!
                                                      (...)
                                                      Os meus átomos se ufanam
                                                      De pertencer-te, ó Dor, ancoradouro 
                                                      Dos desgraçados...
                                                      (...)
                                                      Chorei bilhões de vezes, com a canseira
                                                      De inexorabilíssimos trabalhos!

                                                                                                    (Augusto dos Anjos)

        Dos vários poetas que estudei na faculdade, recordo-me de Augusto dos Anjos. Chamou-me a atenção tal poeta por haver ele escrito apenas uma obra: "Eu". Recordo-me de minha amadíssima professora nos explicar que seu livro ficara esquecido por um bom tempo e, que depois, como é comum acontecer, fora encontrado e valorizado. Tantos poetas escreveram e escrevem sobre o Eu, mas Augusto dos Santos de alguma maneira escrevera o que nenhum outro escreveu. Sua visão bioquímica da vida me reporta a mim.

        Disse-me a doutora: "Você está no climatério". Oras, o que é o climatério senão uma fase de transição entre a vida fértil e a infértil? Aceitar que minha capacidade biológica de gerar está acabando, que ninguém sentará em meu colo, se alimentará de meu leite, dormirá em meus braços e me procurará quando estiver com medo do escuro. Aceitar que as escolhas que fiz sempre foram as mais corretas e não me torturar. Conseguir olhar o filho de outrem e não desejar que fosse meu e saber ocupar o lugar correto na vida dos filhos dos outros para não me confundir nem confundi-los.

        Tarefa árdua para mim, "Eu, filho do carbono e do amoníaco", como dizia o poeta, assumindo toda a carga da minha decisão, toda a responsabilidade das minhas escolhas. Onde está a receita? Quais e quantos de cada elemento bioquímico meu terá que reagir para conviver bem com esta realidade? 

        Passo a pensar que este seja o foco maior deste turbilhão, desta centrífuga na qual me encontro. Uma avalanche de hormônios decidindo qual ficará no comando daqui para a frente e qual terá que ceder.  Numa ponta da balança da vida estou eu despedindo-me de minha fertilidade e na outra está você descobrindo e começando a pensar na tua. E cá estamos nós neste jogo da busca do equilíbrio.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Ostracismo

"El mundo es eso, reveló: un montón de gente, un mar de fueguitos. No hay dos fuegos iguales. Cada persona brilla con luz propia entre todas las demás. Hay fuegos grandes y fuegos chicos y fuegos de todos los colores. Hay gente de fuego sereno que ni se entera del viento y, hay gente de fuego loco que llena el aire de chispas. Algunos fuegos, fuegos bobos, no alumbran ni queman, pero otros, otros arden la vida con tanta ganas que no se puede mirarlos, ni palpadear y quien se acerca se enciende".(Eduardo Galeano - Es tiempo de vivir sin miedo)

                                                                     ('00')

    Pode parecer egoísmo diante de tantas manifestações eu aqui escrevendo de minhas sentimentalidades. As pessoas nas ruas clamando por justiça, por direito de ir e vir sem ter que pagar absurdos por isso e eu aqui, recitando meus devaneios. Mas hoje eu me dou este direito, passo a vez porque todos tem o direito e o dever de fazer história. Eu já fiz a minha, já contribui à nação, à sociedade com toda a minha juventude. Ninguém pode tirar isto de dentro de mim. 

        Quero curtir meu ostracismo, sim, me dei conta de que 2013 tem sido o ano do meu ostracismo, não se trata de alienação, mas de ficar quietinha para aguentar o grãozinho de areia inflamando minhas mucosas para se transformar em pérola. Ai...é uma dor pertinente, incessante. Em alguns momentos do dia consigo esquecer um pouco, mas qualquer movimento diferente me faz lembrar que há um grão de areia em minhas entranhas. Uma ostra leva três anos para produzir uma pérola. Qual será o meu tempo? Uma ostra em dez mil produz pérola. Creio que eu deva me sentir privilegiada por isso e desfrutar deste ostracismo.

        É por isso que é tão raro encontrar outras ostras que passaram pela mesma experiência e poder conversar, perguntar: "Como foi com você?" Esta tarde tive a alegria de ser identificada por outra ostra como eu, porque no fundo, nós nos encontramos. Conversamos olho a olho, e ela gentilmente me contou sobre sua pérola, me abraçou fraternalmente e disse que sabia o que eu sentia. E, me garantiu, que um dia vai passar.



domingo, 16 de junho de 2013

Não pensar

"O meu olhar é nítido como um girassol.                                 
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo..."
                                                                          (Alberto Caiero - O guardador de rebanhos)

                                                                ('00')
                                          
          Estranhas coincidências com este poema nesta noite, em três situações diferentes ele me aparece, insistente, me provocando a não pensar, em apenas ver, admirar com os sentidos e contemplar. Sentir, sentir, não pensar, exercício exigente para uma mente teimosa, viciada nas perguntas.

       "A pele é a ponte sensível do contato com o mundo e pode ser também um abismo. É o nosso órgão mais extenso, é o nosso código mais intenso, um lar de profundas memórias. O corpo sente, toca, fala, comunga. Vida incorporada, corpo da Vida." (Leloup, 2000, p.9)

         Nossa pele se complementa, se recepciona, se encaixa. Dormindo ao seu lado, abraçada, sinto como se seu corpo fosse extensão do meu, como se eu estivesse sozinha na cama, não no sentido de solitária, mas de completa, chego a me assustar. Seu abraço me acolhe como a uma criança nos braços do pai, sua malícia me torna mulher, suas brincadeiras me faz rir, seu café na cama faz-me sentir querida. O amanhã não importa, hoje é bom, agora é bom, este momento é bom.

       

        
 



sábado, 15 de junho de 2013

Garantias


        "Tem gente que tem uma luz que brilha para os outros, acho que umas estiveram num túnel e a única luz que tinham tava dentro delas. E aí, mesmo depois de ter escapado do tal túnel, elas ainda brilham pra todo mundo". (Trecho do filme Preciosa - uma história de esperança)

                                          ('00')

    
        Ontem a noite decidi fazer uma limpeza numas pastas de documentos: contas de água, de luz, recibos velhos, toda essa papelada amarelada que a sociedade nos ensina a guardar como garantia de nossos atos. Se eu não guardar a conta de luz paga, como comprovarei que não devo para a Eletropaulo? Mas por que tenho que comprovar se eu já paguei? Eles deveriam saber, eles também ficaram com um comprovante.

        Numa das pastas encontrei minha certidão de casamento - 15/06/2001 - eu não me lembrava desta data. Li o documento e comprovei que nada do que estava escrito garantiu nossos sentimentos. Ter aquele papel com timbres, carimbos e assinaturas não impediu que nosso suposto amor acabasse, nem as nossas fotografias, nem os presentes que trocamos, nem os bens que compramos. Nada garantiu ou contribuiu para que continuássemos juntos. Eu teria completado hoje 12 anos de casada. Teria. Verbo no condicional, sob condição de algo. E quais teriam sido as condições? O dia a dia me mostrou cada uma delas e eu não pude suportar.

        Durante uns três anos eu tinha vergonha de dizer a palavra divorciada, achava que separada era menos pior. Achava que separada era mais leve porque em algum momento poderia voltar, mas divorciada me dava a sensação de finitude, nunca mais. Sei que algumas pessoas se divorciam e depois se casam novamente, mas é outro casamento, não o mesmo. O divórcio coloca um ponto final. 

       Eu não queria voltar, é que para mim a palavra divorciada vinha acompanhada de um parêntesis: "fracassada". Com o tempo passei a perceber que tal pensamento era, no fundo, um preconceito de mim comigo mesma. Eu não via as outras pessoas assim, por que então eu me tratava assim? Excesso de auto-exigência.

        Hoje isso não me incomoda mais. Eu passei a existir depois do divórcio. Tive que conquistar crédito na praça, passar no estágio probatório, reformar uma casa, construir um jardim, abrir espaços para acolher minhas irmãs. Aprender a me distanciar o suficiente de minha mãe para ela não devorar meu cérebro, adquirir respeito profissional, conquistar o coração de outro homem e cuidar de uma menina como se cuidasse de mim mesma menina. 

        Eu sinto que algo novo está para acontecer, não sei o que é, e nem quero pensar no que seja. Só sei que todos estes acontecimentos foram para mim uma nova escola, sem diretor, foi o túnel que tive que passar no escuro, somente com a minha luz interior, que várias vezes quase apagou. Logo que me separei fui numa excursão com alunos ao Petar e uma das aventuras foi andar numa caverna com a lanterna apagada e em silêncio para conseguir ouvir os passos dos outros e não derrubá-los. Foi a metáfora do meu momento de vida. E este ano tem sido como aquele em que o estilingue é puxado para trás a fim de pegar impulso.







terça-feira, 11 de junho de 2013

O outono

"Mesmo que fazê-lo te fosse necessário e vital neste momento, você não o faria por não querer me magoar, então eu fiz. Agora deixemos fluir por respeito ao teu momento e acima de tudo para que você o perceba como um gesto de ternura". (LCP)
                 Escolha de Amigos por Oscar Wilde
                           
                               ('00')


                 Já lhes contei a história de como Deus escolheu meu anjo e que mesmo sendo ele um anjo novato, o Senhor lhe concedeu a árdua tarefa de me acompanhar. Agora vou lhes contar como meu Anjo foi ascendido a Arcanjo.
      
           Um dia, quando parecia que tudo estava de cabeça para baixo, o Senhor lhe chamou e perguntou: "Você está pronto para se tornar arcanjo?" Assustado, pois não esperava pela pergunta, o anjo respondeu: "Senhor, eu não tenho certeza, sou ainda tão jovem e a pouco recebi uma missão, como poderia eu saber se já estou pronto?" O Senhor, olhando profundamente em seus olhos o amou, Ele já sabia a resposta, mas como é um Deus que respeita a liberdade de suas criaturas, respondeu: "Pense a respeito e volte com a resposta, lembre-se de que aqui não existe tempo". O anjo saiu pensativo.

            Como já convivíamos a tempos, percebi que algo lhe inquietava. Então arrisquei perguntar: "O que você tem? Sinto como se você desejasse mais espaço e às vezes tenho a sensação de que tua alegria não é mais a mesma quando está comigo". Como anjos não estão acostumados a compartilhar seus questionamentos com meros mortais, recolheu-se deixando-me sem resposta.

           Alguns dias se passaram e eu, pobre mortal presa ao tempo, matutei cada minuto, cada hora destes dias. Até que quando eu menos esperava ele apareceu e resolveu explicar-me. "O Senhor quer ascender-me a arcanjo e me perguntou se estou pronto, mas eu não sei. Tenho vontade de dizer que sim, mas ao mesmo tempo...". Sentados um ao lado do outro eu podia sentir seu calor, sua respiração e seu perfume angelical. Meu coração doeu, dor física, no canto inferior direito. Percebi que sua resposta estava diretamente vinculada à minha presença em sua vida. Duas forças começaram a dançar ao redor de mim: uma dizendo que eu deveria liberá-lo para que recebesse sua ascensão e me acostumar com a sua raríssima presença; outra dizendo que eu deveria exigir-lhe que ficasse ao meu lado, que era meu anjo, que lhe precisava absurdamente.

        O chão parecia mover-se sob meus pés. Pensei que eu deveria ter uma conversinha com o Senhor e dizer-lhes umas poucas e boas. Por que justamente o meu anjo ele havia escolhido para ascender? Por que permitiu todo esse processo de confiança, galgado dia a dia, apurado pelo fogo das dificuldades fosse agora transformado em lembranças? Não me sobraria nada. O Senhor deveria escutar que isto não era justo, aliás, a maioria de nós, pobres diabos, não entendemos esta tal de justiça divina. Mas meu anjo me havia ensinado a respirar nos momentos difíceis e eu, muda, respirava e ouvia a melodia de sua voz narrando-me seus anseios em ascender, em assumir seu lugar no corpo celestial e carregar a espada da justiça. Sim, o Senhor lhe ascenderia a Arcanjo da Justiça Familiar.

          As vozes se confundiam em minha cabeça. Eu queria correr, correr até que tudo se apagasse de minha memória, mas isto não seria possível, pois a qualquer lugar que eu fosse, este sentimento me acompanharia. A razão prevaleceu: "Você deve dizer ao Senhor que está pronto e se tornar um arcanjo, é isto o que teu coração pede e você sabe que fará bem este papel. Não se preocupe comigo, eu ficarei bem". Desejava transmitir-lhe confiança, segurança, pois fora exatamente isso que ele me ensinara a sentir, mesmo que naquele momento estivesse difícil ou quase impossível fazê-lo.

        "Eu terei muitas obrigações", sussurrou. Eu sabia o que queria dizer. Um arcanjo não pode dar tanta atenção ao seu protegido como o anjo. Eu temia que aos poucos eu me tornasse apenas uma lembrança, apenas alguém de seu passado presa numa imagem estática. Nada e ninguém poderia me garantir o contrário, muitas forças ocultas lutavam para que isto acontecesse. Um terror gélido percorria minha espinha. Eu respirava fundo como me havia ensinado e buscava dentro de mim forças para não segurar-lhe contra meu peito e dizer não vá, fica comigo, a tua presença me faz eu me sentir viva.

        Eu não conseguia saber o que ele sentia, mas eu desejava que se sentisse capaz e livre para ascender. Então ele se foi  e se apresentou diante do Senhor para o treinamento dos arcanjos. Desde este dia, assim como outros difíceis, tenho depositado meus sentimentos no "baú das emoções". Retiro-as de mim e as coloco aqui para que eu possa olhá-las e compreendê-las. São emoções puras, na intensidade de suas sensações e que não podem nem devem ser consideradas pela lógica. Ao olhá-las é preciso cuidar para não se envolver. Eu sei que à medida que meu anjo tiver uma folga do treinamento, quererá olhar o baú, ele me motivou a abri-lo e desde que o fizera uma profusão de histórias tem acontecido, assim posso aliviar-me um pouco da enxurrada de pensamentos que povoam minha mente. Não sei se isso lhe fará bem, pois em algum momento poderá pensar que eu estou infeliz ou que me fizera sofrer. Não é este o caso, eu estou relendo, e portanto revivendo todas as minhas perdas, despedidas e ausências. Eu estou vivendo o outono.





segunda-feira, 10 de junho de 2013

Subversiva





     Será que passamos pelo mesmo tipo de situação várias vezes porque somos incapazes de aprender da primeira vez? Ou por saber o que acontecerá nos dá a falsa sensação de que estamos seguros? Ou por que alguns de nós deseja conhecer os vários lados da mesma montanha?

     Eu não acredito que estou novamente sofrendo pelo mesmo motivo, passam-se os anos e ainda caio na armadilha do crivo alheio, do dedo em riste, do covarde que me aponta o dedo. Com que facilidade algumas pessoas encontram motivos para catalogar-me. 

      Construi meus valores morais sob bases sólidas das experiências de vida, apesar de amar as teorias, minha vida se construiu na experimentação, eu vivi cada valor que construi, eu escolhi ser honesta, trabalhadora, sóbria e confiar nas pessoas, acima de tudo. Eu nunca serviria para ser investigadora, pois parto do princípio de que a pessoa está sempre falando a verdade. Tive oportunidades de tornar-me uma pessoa altamente destrutiva e, pode ser que se assim me tornasse as pessoas passariam a me tratar como vítima e teriam pena de mim, acredito que eu sofreria menos do que tenho sofrido.  Diriam: "Coitadinha, ela não teve uma família presente, vamos adotá-la em nossa família", ou "Judiação, ela é tão pobrezinha, vamos convidá-la a passear conosco", ou ainda "Tadinha, ela é revoltada com a escola, vamos ajudá-la com reforços". 

          Neste mundo infame, onde as pessoas covardes, fracas, inseguras e dominadoras atuam, não há espaço para pessoas como eu. Como tenho demorado para enxergar isso! Preciso olhar num espelho especial e separar as imagens monstruosas que os sem escrúpulos e covardes que passaram por minha vida modelaram.

        Eu quero fazer uma oblação, quero queimar seus nomes numa cuia e ofertá-los aos demônios para que sintam pelo menos uma vez o que significa ser lançada aos cães do preconceito, seja o da classe social, seja do tipo familiar, seja o da idade, seja o de gênero. Eu já sofri todos estes, por isto conheço exatamente a dor de quem os sofre.

        Quero retirá-los de dentro de mim como quem retira um câncer. São parasitas, pessoas que só enxergam a vida sob um único aspecto, que construiram suas vidas à partir de uma única escolha e como não tiveram a coragem de rever seus caminhos e refazê-los, se colocam gritando enlouquecidos, apontando raivosos aqueles que os amedrontam. Eu não sou catalogada porque não tenho bons valores, agora começo a ver, mas porque eu sou grande demais para estas pessoas, eu incomodo demais, porque ocupo muitos espaços, não porque eu me imponha forçosamente, mas porque posso ver sob vários aspectos. 

          Infelizmente, este é/era o meu calcanhar de Aquiles, e os cães farejam nossas fraquezas. Todas aquelas pessoas que me rotularam com o carimbo do "não serve" no fundo sempre me fizeram um grande favor, mesmo que eu leve tempo para perceber. Eu realmente não sirvo para elas, são pequenas, construiram suas vidas sob as bases alheias, aproveitaram-se dos frutos do outro e vivem um terror contínuo de perder. É mágico como posso mentalmente, enquanto escrevo, colocá-las enfileiradas, uma ao lado da outra e ver os mesmos aspectos, as mesmas posturas, as mesmas atitudes. E por que eu ainda me abato? O que ainda não aprendi? O que ainda não superei? O que ainda não enxerguei em mim? Diga-me "Espelho da Verdade", por que estas pessoas me fazem tão mal?

         Porque elas têm a capacidade de prender as mentes jovens e sonhadoras transformando-as as zumbis, eu realmente sei disso. São covardes demais para admitir suas fraquezas, para admitir que o novo, que a juventude está além de seus domínios. Elas querem moldar, colocar numa forma, de preferência para que se tornem iguais a si mesmas, numa atitude mesquinha de quem não teve coragem de dar um passo a frente por isso quer que o outro volte passo atrás. 

          Não sou mais jovem, mas tenho aspecto jovem, tenho alma jovem e isto não significa colocar uma mini-saia ou sair pulando e gritando num show de rock. Estou falando de atitudes perante a vida, de permitir-se viver experiências interiores, significativamente novas, experiências que abalam as velhas certezas, que ampliam os horizontes, que acolhem ao invés de rotular como "não serve". Me parece que em algum momento de suas vidas essas pessoas desejaram ser como eu e como são incapazes, então tentam me aniquilar. Eu nunca havia pensado assim, e ainda me é difícil pensá-lo. De certa forma, isto é prudente, porque senão eu me transformaria na arrogância pura, eu me transformaria nas pessoas que me pesam, me catalogam e despacham. 

           Olhando seriamente para o Espelho Sincero eu vejo todas as gosmas e nojeiras que colocaram em meu rosto. Toda podridão interior que tentaram lançar em mim e que eu passivamente, envolta num sentimento maldito de inferioridade, permiti. Devolvo suas nojeiras para que sintam o cheiro de si mesmas, não lhes será dado nem mais nem menos, porque eu sou uma pessoa justa, exatamente porque sei o quanto dói a injustiça. Devolvo sua podridão, devolvo seus medos, suas malícias, seus olhos sujos, envenenados pela própria imagem. 

      Não ficarei com mais nada que não seja meu, não tentarei entendê-las e justificá-las. Assumam-se, pois a conveniência sempre lhes fora agradável e segura. Curtam ao máximo os grilhões que construiram para quem lhes "serve". Eu me levanto a cada amanhecer sem saber como será, recebo de coração aberto e sangrando cada momento do dia, luto contra as minhas metades que se digladiam para ver qual prevalecerá.  

      Assumo minha natureza subversiva, minha juventude constante, minha mania de sonhar acordada, de escrever meus sentimentos como se fosse o diário de uma adolescente em crise constante. Eu sou assim, eu nasci para ser assim. As pessoas velhas e rançosas nunca compreenderão minha força e me condenarão subversiva. As pessoas velhas e inseguras apontarão minhas inconstâncias e questionamentos duais como falta de postura adulta. As pessoas velhas e possessivas, não porque amem, mas porque nunca perderam, por isto não aprenderam a perder e não aceitam perder, nunca compreenderão o apego espontâneo da alma, e me condenarão sob a acusação de manipuladora. 

      Ah...eu rio em suas fases, com o coração sangrando, mas isto não me apavora, eu conheço o sangue que jorra de minhas feridas, elas são minhas, não tenho medo nem nojo de tocá-las. Isto também incomoda as pessoas velhas que nunca se machucaram, que não conhecem as próprias feridas e, se por ventura às veem, logo gritam: "me ajudem, estou morrendo".

     Vou parar por aqui, para que eu não me exceda em meus juízos e me transforme nestas figuras amargas, inseguras e perigosas para as almas que lhes acompanham. Continuarei jovem para que cada vez mais jovens se apaixonem por mim, sintam que podem confiar, que não serão avaliados, medidos, pesados e catalogados por mim. Para que aprendam que a vida muda sempre e que é preciso abrir-se à ela, que nada é definitivo, muito menos as nossas certezas e que quanto mais vivemos em ângulos diferentes, mais perceptivos e acolhedores nos tornamos. Que muitas vezes somos exilados daqueles que amamos por pessoas que simplesmente não sabem como responder aos nossos questionamentos sobre o amor, porque nunca amaram além de suas fronteiras. Que fazer escolhas e mudar no meio do caminho não significa fraqueza, mas ser verdadeiro e honesto consigo mesmo, que amar alguém diferente na cor, na classe social, na idade não significa abandonar a nobreza familiar, mas que se tem um coração verdadeiro, capaz de amar o que é essencial no outro. Quero que sintam-me como uma rocha suficientemente forte para protegê-los e dócil o suficiente para deixá-los ir quando quiserem, mesmo que o meu coração se abra e sangre mil vezes.

        Que venham as histórias novas, porque o luto não deve durar mais do que sete dias.











domingo, 9 de junho de 2013

Os alpinistas

Dois alpinistas se encontraram na base de uma montanha e iniciaram uma conversa enquanto preparavam os equipamentos:

- É a primeira vez que você escala esta montanha?

- É sim - respondeu. - E você?

       - É a minha vigésima primeira. 

       - Vigésima primeira vez que escala a mesma montanha? Como pode ser isto? Por que uma pessoa escalaria vinte e uma vezes a mesma montanha?

         Sem importasse muito com a surpresa do colega, o alpinista respondeu:

        -Por que isto te espanta? Quantas vezes você escala uma montanha?

       - Eu escalo uma única vez uma montanha.

       - Uma única vez é o suficiente? Você chega no topo?

       - Evidente que chego, afinal esta é a finalidade de escalar uma montanha. Eu subo até o topo, depois desço e me programo para escalar a próxima.

        - Ah..., e o que você sente quando chega no topo?

        Intrigado com a pergunta, o alpinista respondeu:

        - O que todos sentem, provavelmente o mesmo que você.

        - Eu nunca cheguei no topo da montanha.

        - Como?! Você sobe a  mesma montanha a vinte e um anos e nunca chegou até seu topo?

        - Sim, mas me conte, o que você sente?

        Já pensando que o colega alpinista sofresse de algum problema mental, explicou:

        - Quando eu chego no topo de uma montanha, após subir demoradamente cada parte sua, correr o risco de cair e morrer, eu sinto um poder imenso. Toda aquela grandeza fica debaixo dos meus pés, eu me torno maior do que a montanha. 

        - E depois o que você faz com este sentimento?

       - Como o que eu faço? Eu fico com mais vontade de subir uma maior ainda, então desço, e descer é a parte mais chata, e me preparo para escalar outra.

        - Hummm...

        - E você? Como é escalar vinte e uma vezes a mesma montanha? Não é cansativo? Por que você não chega no topo?

      - Mesmo subindo tantas vezes a mesma montanha eu nunca subo a mesma montanha. Ela se torna diferente a cada lado, a cada estação do ano, a cada período do dia. Acho que vou morrer e nunca terminarei de conhecê-la. 

      Sem acreditar no que ouvia, o alpinista questionou:

      - Eu ainda não entendi qual a vantagem disso, ainda mais se você nem chega no topo.

      - Enquanto eu escalo, posso sentir a montanha ao meu lado, ela se torna minha parceira, minha amiga. Se eu chegar no topo ela ficará sob os meus pés e eu terei a falsa ilusão de que a subjuguei, a conquistei, a dominei e que apesar de toda a sua grandeza eu sou o mais forte. Nenhum alpinista conhece esta montanha mais do que eu porque para mim escalá-la e descobrir suas reentrâncias, suas formações e deformações, seus graus de dificuldades, é para mim uma autorização para amá-la. Chegar ao topo não tem a menor importância.


Saravá

Vozes - Mulheres

A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
ecoou lamentos
de uma infância perdida.

A voz de minha avó 
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

                                           A voz de minha mãe 
                                           ecoou baixinho revolta
                                           no fundo das cozinhas alheias
                                           debaixo das trouxas
                                           roupagens sujas dos brancos
                                           pelo caminho empoeirado
                                           rumo à favela.

                                           A minha voz ainda 
                                          ecoa versos perplexos
                                          com rimas de sangue 
                                                                          e
                                                                           fome.

                                           A voz de minha filha
                                           recolhe todas as nossas vozes
                                           recolhe em si
                                           as vozes mudas caladas
                                           engasgadas nas gargantas.
                                           A voz de minha filha
                                           recolhe em si
                                           a fala e o ato.
                                           O ontem - o hoje - e o agora.
                                           Na voz de minha filha
                                           se fará ouvir a ressonância
                                           o eco da vida-liberdade.

                                                                               (Conceição Evaristo)

        Hoje meus joelhos doem. Resisto em curvar-me outra vez, a mente já se curvou à lógica, mas o corpo resiste, quer se manter em pé diante da pele morena. Porque eu venho de um navio negreiro, venho do DNA de minha tataravó Leopoldina, escrava, negra, canela fina e dentes fortes. Minha pele é branca, mas os meus ossos são negros e nunca se quebraram apesar dos tombos. Meus ossos resistem e meus joelhos não querem se dobrar, por isso novamente canto, como cantei muitas e muitas vezes desde minha juventude à Negra Mariama para que me chame pra dançar e "saravá esperança até o sol raiar". 


sábado, 8 de junho de 2013

Vítima do Dualismo



Ser miserável dentre os miseráveis
- Carrego em minhas células sombrias
Antagonismos irreconciliáveis
E as mais opostas idiossincrasias!

  Muito mais cedo do que o imagináveis
  Ei-vos, minha alma, enfim, dada às bravias
                                                            Cóleras dos dualismos implacáveis
                                                            E à gula negra das antinomias!

                                                            Psiquê biforme, o Céu e o Inferno absorvo...
                                                            Criação a um tempo escura e cor-de-rosa,
                                                            Feita dos mais variáveis elementos,

                                                            Ceva-se em minha carne, como um corvo,
                                                            A simultaneidade ultramonstruosa
                                                           De todos os contrastes famulentos!

                                                                                                 (Augusto dos Anjos) 




sexta-feira, 7 de junho de 2013

As portas

"Uma vez eu sonhei que era uma borboleta, voando entre as flores e arbustos do jardim. Tudo era tão concreto e real que em momento nenhum do meu sonho suspeitei que a borboleta era eu ou que eu fosse a borboleta. Para todos os efeitos possíveis e imagináveis, eu era, eu agia e eu realmente me sentia uma borboleta, cumprindo o destino de uma borboleta qualquer. De repente, eu acordei e lá estava eu sendo a pessoa que eu sempre fui - ou que sempre imaginei ser.
Sei muito bem que entre um homem e uma borboleta há tantas diferenças fundamentais e insuperáveis que a transformação de um no outro é algo simplesmente impossível de acontecer no mundo real. É por isso que, desde então, eu nunca mais tive sossego quanto à minha verdadeira identidade. Pois não há nada que me permita saber, com toda certeza e rigor, sem nenhuma margem de dúvida, se eu sou verdadeiramente um homem, que um dia sonhou que era uma borboleta, ou se eu sou uma borboleta, sonhando que é um homem". (Chiang Tzu)

                                                                         < '00'>

        Sonhei que eu estava dentro de um jogo. Eu flutuava sobre um cenário em cujo centro havia um círculo pequeno com uma chave brilhante, e deste círculo saíam linhas que direcionam à seis portas. Eu estava só, diante de mim apareceu um grande dado que eu deveria jogar para saber em qual porta entrar. As portas não estavam trancadas, então não seria necessário pegar aquela chave no centro do círculo, ela era o objetivo do jogo. As regras consistiam simplesmente em entrar e conseguir sair de todas as portas na sequência em que o dado ditasse. Então eu o lancei pela primeira vez. 

      Número 1 - a porta da Mãe. Meu corpo baixou sozinho e me vi diante de uma porta. Estiquei a mão, lentamente a abri e entrei. Era uma sala apertada, com poucos móveis, teto baixo e pouco iluminada. Sentei-me num canto entre duas paredes, dobrei os joelhos contra meu peito, curvei a cabeça sobre os joelhos e senti vários tipos de dores.
Mal conseguia levantar, tudo era dor, todo o meu corpo doía, reclamava e um peso enorme sobre minhas costas me dificultava em andar. Saí, atordoada, sem saber direito onde estava e o que deveria fazer. Uma força me puxou e voltei a pairar com o dado diante de mim. Lancei-o.

        Número 4 - a porta da avó Paterna. Baixei e entrei. O espaço era amplo e confortável. Muitas almofadas pelo chão, teto alto e raios de sol entravam pela janela. Deitei-me no chão e abracei a maior almofada. Senti-me segura, querida, cuidada, poderia ficar ali para sempre. Depois de um tempo levantei-me e sai. Voltei a pairar e percebi que já não estava tão alto como antes. Lancei novamente o dado. 


        Número 3: a porta do avô Materno. O espaço era amplo e abafado, quase sufocante. O teto muito alto com vários objetos presos que balançavam ao sabor do vento. Havia somente uma poltrona. Sentei, cruzei as pernas como índio e permaneci. Senti uma urgência de ir como se a qualquer momento o dono da poltrona chegasse. Levantei-me e saí.


        Número 5: a porta do avô Paterno. O espaço era amplo e muito frio. Havia um sofá, algumas almofadas no chão e uma cama. O teto era alto e o frio entrava por todos os lados. Tentei me acomodar no sofá, encolhida, mas o frio incomodava meus ossos. Levantei-me e sai.


        Número 2: a porta da avó Materna. O espaço era muito pequeno, apenas com um tapete no chão. Ficava difícil mover-se. Havia muita sombra e quase não se podia respirar. Fiquei pouco tempo em pé e saí.


        Número 6: a porta do Pai. O espaço era mediano e úmido. Havia somente uma cama de casal e o teto era baixo. Deitei-me e às vezes alguns filetes de luz aqueciam metade da cama. O teto parecia baixar e uma estranha sensação me faz levantar e sair.


      Ao sair da porta do Pai eu não mais flutuei e uma força me puxou ao centro, em direção à chave. Meus passos eram lentos e seguros. Estendi a mão, peguei a chave e todas as portas desapareceram dando lugar a uma nova que surgira, era uma porta enorme e ampla, e nela se lia o meu nome.