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quarta-feira, 31 de julho de 2013

A cética e a atéia

        "A razão de ser das religiões é alterar a morte". Abujamra       

       Minha amiga ateia, vou te contar um pouco de meu ceticismo...
   
     Perguntas como "quem sou eu?", "de onde vim?", "aonde vou?", "para que estou neste mundo?" me acompanham desde a adolescência, na verdade, creio que questões metafísicas me acompanham desde a infância, pois recordo-me de quando tinha sete anos e descobri que o tempo não volta atrás, que cada dia vivido, cada hora, cada minuto que passou nunca mais voltará. Quando minha mãe me explicou isso eu me enfiei debaixo da cama e chorei, fiquei em estado depressivo olhando para um relógio de pulso e pensando que nunca mais viveria aquele mesmo momento. 

         Passei minha infância me revezando entre um terreiro de umbanda e a igreja católica. Vi coisas acontecerem dentro da minha casa que amedrontariam muita gente, como copo voando de cima do criado mudo sem que ninguém o tocasse ou de cima da mesa, livro caindo da prateleira, portas do guarda-roupa abrindo sem ninguém as abrir. 

        Vi vários trabalhos umbandistas no terreiro e na praia, fui até batizada no mar, sou afilhada de Iemanjá. E nunca minha cabeça e meu coração conseguiram acreditar que aquelas situações fossem a representação, ou a exibição, ou o contato direto com o mundo sobrenatural, o além, o céu, ou qualquer outro nome. 

        Neste intervalo houve também o contato com o Espiritismo, a mesa branca, como eu ouvia chamarem. Não havia guias, bebidas, charutos ou oferendas, mas havia a mesma dinâmica de contato com o além. E mesmo assim meu coração nunca conseguiu acreditar e nem minha cabeça encontrar lógica nisto. 

        Finalmente decidi por seguir o catolicismo, não que me agradasse as doutrinas e dogmas ou as práticas ou mesmo a maneira de interpretar o além. Eu gostava mesmo era da prática social daquela igreja engajada que conheci, com o pé no chão, na história, que buscava dar voz aos que não tinham voz, acolher os necessitados e devolver-lhes a dignidade. Eu gostava dos mártires e não dos santos. Eu rezava para o Cristo revolucionário e não para o bom-pastor. 

        Quando depois tive contato com a Filosofia comecei a entender que as minhas perguntas tinham respostas neste mundo e tudo passou a fazer sentido. Meu "affair" com o sagrado continuou, creio que até se intensificou, mas não com a mentalidade mítica, mas científica. Quanto mais científico mais prazeroso ficava nosso relacionamento, pois eu pensava que somente um ser superior poderia criar coisas tão sublimes.

        Paralelo a isto alguns sentimentos ainda predominavam e vez ou outra estava eu numa espiral depressiva, confusa, em papos-de-aranha como se costumava dizer. E lá ia eu em busca da ciência, das explicações concretas, lógicas, plausíveis e certificadas pelas pesquisas. Me levantava e caminhava novamente até uma nova crise aparecer. 

        Hoje estou novamente numa encruzilhada, dessas em que as pessoas costumam sucumbir à alguma doutrina, mas eu reluto porque nenhuma delas faz mais sentido do que tudo o que ainda não sei cientificamente, mas já se descobriu. 

        Observo que uma questão me acompanha em praticamente todas as situações difíceis. Nas crises que vivi há um mesmo pano de fundo, com personagens diferentes e em ambientes diferentes. Mas o incômodo é o mesmo. O catolicismo não me responde esta pergunta, apenas me propõe mecanismos de aceitação e identificação com o Cristo sofredor, o que não me resolve muita coisa. O espiritismo me propõe que a causa disso tudo está em vidas passadas e que devo resgatar algo, o que também não aceito, porque é preciso saber o que se tem para resgatar. 

        Prefiro acreditar que assim como herdamos a cor dos olhos, a estatura, a cor de pele, algumas enfermidades e tantas outras características de nossos pais, avós e ancestrais, também herdamos seus traumas e suas experiências mais significativas. Posso acreditar piamente que uma pessoa tenha pânico de aranha, por exemplo, sem nunca haver vivido uma situação traumática com uma aranha, mas porque sua avó materna que vivia na roça, vivera uma situação traumática com uma aranha, registrando-a em sua memória, portanto em seu "DNA psicológico", e transmitido-a às outras gerações. 

        Posso acreditar que uma compulsão por economizar algo, comida, por exemplo, mesmo a pessoa sendo farta, venha do trauma vivido por seu avó no pós-guerra. E assim por diante, pois estas experiências ficam registradas em nosso corpo, criando um DNA de memórias traumáticas. Eu sou o resultado de várias memórias, de duas famílias que se ramificam ao infinito e como saber de quem herdei determinados sentimentos, sensações e traumas? É mais prático crer em minhas vidas passadas. 

        Sempre fui fascinada pela história da minha família. Sou a portadora das fotos e dos álbuns de família. Tive bisavó até o ano passado e gostava de escutar suas histórias sobre meus tataravós. Quanto destas pessoas não está em mim? Da negra escrava, do sírio mascate, do italiano e do português imigrante? Quanto da minha nostalgia, da minha "saudade de não sei o quê" provem destas saudades vividas por eles? Quanto do meu sentimento de rejeição, de "persona no grata" vem do sentimento e da vida de imigrantes que eles viveram? 

        Pode ser que mesmo que houvesse um exame de DNA que comprovasse de onde vem cada trauma que carrego, sem contar os que surgiram do meio, mesmo assim, não tenho a certeza de que estaria isenta de senti-los. Creio que o segredo está em re-significá-los, em produzir novas memórias, inclusive já há pesquisas assim com ratos para ajudar pessoas com o Mal de Alzheimer. E neste caso, aceito que cada um busque uma maneira positiva para tal, inclusive crer que sua existência atual esteja vinculada à existências passadas, pois se existe mesmo Deus, se viemos Dele e para Ele voltaremos, no fim das contas, Ele não levará nada disso em consideração para nos receber de volta em seus braços.  

                                                                                                Assinado: Cética



terça-feira, 30 de julho de 2013

O perdão necessário

        Minhas mãos estão trêmulas, meu coração acelerado e o choro convulsivo. Não é choro de tristeza, nem de alegria. É o choro que brota da consciência de que Deus sempre esteve ao meu lado, cuidando de mim. É tão explícito que não tem como não chorar, é gritante. 

      Meu Anjo está prestes a terminar sua preparação para se tornar Arcanjo. Desde que aceitara o convite divino e iniciara o processo de desapego para comigo, desejoso de que eu aprenda a caminhar sozinha, tive vários momentos de desespero, nos quais me senti perdida, sufocando e com medo. Quando estava quase para ruir ele dava um jeito e pedia a Deus uma pausa para me ver. 

        Ontem meu Anjo veio à mim pois sabia que eu precisava. Me tomou pelo braço e me conduziu a um pátio, o pátio de uma catedral, se distanciou e me perguntou: "Você reconhece este lugar?" Olhei ao redor e lhe respondi: "Sim, eu reconheço, quando tinha 17 anos estive aqui com um grupo de três amigos, passeamos pelo calçadão, compramos sorvete, pois estava uma tarde muito agradável e nos sentamos ali, daquele lado da igreja para tomar nosso sorvete. Depois, um a um, três mendigos se aproximaram de mim, somente de mim e me pediram um pedaço do meu sorvete. Foram dois homens e uma mulher. Eu fiquei brava, porque eles não pediram o dos outros. Esta experiência norteou minha decisão de sair de casa, eu julguei ter sido chamada por Deus para dividir minha vida com os mais necessitados, mas hoje, acho que me equivoquei".

        Olhava-me com ternura esperando que eu continuasse. "Hoje só tenho más lembranças, dores e confusões. Sinto-me como se minha vida ainda estivesse amarrada e por mais que eu caminhe, a mesma história está diante de mim, com personagens diferentes, mas é a mesma história. Tanto tempo se passou e parece que foi ontem. Vejo meu rosto envelhecendo, meu corpo perdendo as forças e sinto-me como se ainda tivesse 24 anos, como se estivesse congelada naquele dia fatídico". 

        Calmamente, pegou-me pela mão e nos sentamos num banco da praça. Olhou para o céu e me disse: "As pessoas não entendem o que lhes sai da razão e da lógica das coisas, dos padrões estabelecidos pelas culturas, por isso não conseguem perceber que os anjos andam entre elas. Determinam quem pode cuidar de quem, quem pode completar quem, a quem é permitido amar. E deixam de perceber que em meio às pessoas estão os anjos de Deus e se preocupam mais em temer os anjos das trevas, em afastar-se e proteger-se deles. Fazem isto com tanto afinco, que não podem enxergar a ação de Deus, não porque sejam maus, mas porque têm medo e principalmente porque os anjos das trevas sabem se disfarçar de anjos de luz. Mas para quem é atento e já fez a experiência com seu anjo, não se deixará enganar". 

        Eu tentava entender suas palavras que me caiam mansas no coração, mas as coisas ainda não estavam claras para mim. Sem que eu esperasse pediu para que eu fechasse meus olhos e lhe dissesse o que estava vendo. Obedeci, sempre obedeço meu anjo, me sinto segura com suas orientações. Fechei os olhos, respirei fundo e então uma imagem se formou em minha mente. Eu estava novamente naquele jardim, na casa de onde minha vida congelara aos 24 anos. Havia uma densa sombra que ofuscava o rosto das pessoas, mas eu podia identificá-las, estavam velhas e doentes. Seus corpos encurvados pelo tempo moviam-se com pesar. Elas passavam ao meu lado e não me viam. Perguntei-lhe: "Por que elas não me vêm se quase esbarram em mim?" Olhando-me com compaixão, respondeu: "Porque assim como você em suas memórias ainda as vê novas e vigorosas, elas só te enxergam menina, jovem e cheia de sonhos". 

        Mais ao fundo, à sombra da frondosa flamboyan que eu vi plantar, estava a mais velha com os olhos fechados como sempre a via fazer, em postura de meditação. Disse-lhe a meu anjo: "Eu sempre desejava saber no que ela pensava quando se colocava assim parecendo estar diante de Deus em pessoa". Docemente falou-me: "Olhe seu corpo e observe suas enfermidades, ela está constantemente diante de seus pecados, sonhando com que a perdoem." E, tomando minhas mãos continuou: "Você nunca esteve sozinha, quando tuas dores se tornaram insuportáveis o Senhor começou a me preparar na escola de anjos e nos teus 24 anos, quando você saiu por aquele portão, eu estava no meu terceiro mês de preparação. Eu não sabia que seria você, pois fazia parte da minha missão te identificar pela ordem do meu coração. Tuas escolhas por mais aleatórias que você pense que foram, te conduziram a mim e eu a você. Nós nos reconhecemos e desde então nos cuidamos, e pelo êxito de nossa história eu me tornarei arcanjo no vigésimo segundo dia". Nos abraçamos e lhe perguntei: "E eu?" Com imenso amor na voz me respondeu: "Você está prestes a descobrir, tudo ficará claro, tudo fará sentido, mas antes você precisa sentar ao seu lado e dizer-lhe que a perdoa, ela está te esperando". Com lágrimas no olhos ainda lhe perguntei: "Nós não nos veremos mais?" E abraçando-me novamente me disse: "Nós nunca nos separaremos, porque o que nos uniu está acima de nós, ver-nos é apenas uma das formas de nos reconhecermos". Então o meu coração finalmente se acalmou.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A madre má

      
        O Papa Francisco veio visitar o Brasil e uma forte onda de catolicismo invadiu os corações jovens, aparentemente isto é bom, mas temo por eles. Muitos decidirão se dedicar à vida religiosa, porque a presença do Papa os encantará e eu rezo profundamente para que pensem melhor, que desejem ser bons cristãos no mundo, em suas casas, escolas, trabalho, grupos de amigos.

        Aos dezessete anos conheci um grupo de missionárias e me encantei. Aos dezoito saí de casa e contra a vontade da minha família entrei para a vida religiosa. Eu achava que tinha um chamado de Deus, que poderia ajudar o próximo, que faria a diferença neste mundo. Hoje sei que tudo não passava de uma espécie de "fuga", de busca do que eu não tinha em casa. Alguns jovens buscam as drogas, outros a prostituição, outros o crime, eu busquei a religião. 

       O processo consistia em passar dois anos numa etapa chamada "estudantado" onde eu viveria numa "casa de formação" estudando e trabalhando, sob a orientação e supervisão de uma "formadora", até eu fazer os votos de pobreza, obediência e castidade. Junto comigo havia ido uma colega de bairro e dividíamos um quarto e um pequeno guarda-roupa. Nossa rotina consistia em levantar às cinco da manhã, preparar o café, despertar as outras com uma música, preparar a oração do dia, rezar, tomar café, estudar, trabalhar na horta, lavar, passar, cozinhar, limpar a capela, dar catequese e terminar o ensino médio à noite numa escola à duas horas de viagem, chegar em casa à uma da madrugada, levantar às cinco....Aos fins de semana era permitido levantar às oito, mas quem o fizesse ficava rotulada de preguiçosa, então levantávamos antes.

         Nosso lazer se resumia em tocar um pouco de violão, jogar peteca e baralho, mas quem o fizesse era rotulada de irresponsável, então quase nunca tínhamos lazer. Assistir televisão só era permitido no horário do noticiário, aos sábados víamos um filme escolhido pela madre superiora, mesmo que não quiséssemos.

        Durante a semana vivíamos na casa de formação apenas nós três: eu, minha colega e nossa formadora, a Lourdes, intitulada irmã Lourdes, a tratarei aqui pelo nome. Aos fins de semana as outras missionárias chegavam das missões e tínhamos que preparar tudo para que elas descansassem. 

        Com a convivência fui me apegando à minha formadora, nós tínhamos um bom relacionamento e meu amor por ela foi crescendo. Conversávamos muito, ela me contava como havia decidido ser freira, como saíra de casa, as dificuldades que encontrara e eu cada vez mais apegada. Dentro do meu coração ela passou a ser minha mãe, mas não tínhamos gestos afetivos, e eu me sentia profundamente carente. Sentia muita falta da minha irmãzinha que havia deixado, da minha mãe e até do meu irmão. 

        Uma noite, me lembro como se fosse hoje, ela me chamou para uma conversa de repreensão, eu nunca sabia o que tinha feito de errado: ora era a cama que eu não tinha arrumado direito, ora era o meu vocabulário, ora era a minha roupa, ora era a minha falta de amor fraterno etc. Na sua obrigação de formadora ela me repreendeu e eu, arrasada comecei a chorar, não aguentava mais aquelas repreensões, por mais que eu tentasse acertar, fazia tudo errado. Então eu disse: "Eu só queria que você me desse um abraço". Ela se assustou e comovida me abraçou, daquele dia em diante ela passou a me tratar com mais afeto. Quando estávamos na capela em oração, ela permitia que eu me deitasse em seu ombro, então ela me dava um beijo na testa e me desejava boa noite. 

        Mas, isto não durou muito tempo. Minha colega reclamou com a madre superiora sobre eu ser tratada assim e ela não. O inferno havia começado. Numa noite a madre superiora apareceu e se trancou com minha formadora na capela, em pouco tempo pude ouvir os gritos de choro de minha formadora e os gritos da superiora: "Ela não é tua filha, você entendeu? Você vai se afastar dela". De repente, a porta se abriu e Lourdes entrou correndo no banheiro para vomitar. Seu choro e sua dor eram tão intensos que ela vomitou a bilis. 

        Já no dia seguinte passei a ser tratada com rispidez e nos seis anos seguintes que ali permaneci, vivi no inferno. Todas às vezes que me aproximava dela, fosse para lavar roupa, me sentar à mesa, na horta, ela me dizia: "Sai de perto de mim", principalmente quando a madre superiora estava por perto. Não havia ódio em suas palavras, havia medo, um medo terrível de ser novamente repreendida. Eu, infeliz, me afastava. 

        Quando entrei para o convento eu tinha dezoito anos e ela quarenta. Sai aos vinte e quatro. 

        Durante minha estadia no inferno, atuei com adolescentes na faixa etária de 13 a 15 anos, nos grupos chamados de "perseverança".  E foi com eles que cometi meus maiores pecados. Todos os sábados eles estavam ali, gostavam de participar, de tocar violão, de cantar, de se preparar para ler na missa, carregar a cestinha da oferta, mas hoje percebo que eles gostavam de estar comigo, que de alguma forma eu lhes fazia bem, eu lhes valorizava. 

        Quando estávamos no auge de nosso grupo a madre superiora me mudava de missão e me proibia de me despedir deles alegando que eu não era importante, que eu não deveria anunciar a mim mesma, mas a Deus. Eu covardemente aceitava, claro que chorava baldes no travesseiro sem ninguém escutar, mas não tinha a coragem de contra argumentar. Então, quando eu ia, eles também iam, revoltados e me acusando de traição, de tê-los feito se apegar e depois os abandonado. 

        Alguém pode se perguntar porque não peguei as minhas coisas e sai chutando tudo. Eu não sei, acho que quando a nossa estima está baixa demais ao ponto de nos sentirmos menos do que o pó da terra, nos submetemos aos piores castigos desde que alguém nos dê atenção, nem que seja uma migalha. 

        Hoje eu sou uma formadora, novamente de adolescentes. A princípio tentei me manter neutra sendo apenas uma reprodutora de uma pequeno conhecimento. Lutei demais para manter esta postura pelo pânico de ferir novamente alguém, de fazer o que fizeram comigo e que aprendi a fazer. Mas a vida é cheia de peças, de armadilhas e artimanhas e, quando menos esperamos, estamos diante de nossos fantasmas.







sábado, 27 de julho de 2013

O vento



        Sonhei que estava numa praia paradisíaca. Mar azul brilhante à minha frente, árvores frondosas produzindo sombra, montanhas ao fundo e uma finíssima areia branca sob meus pés. Me revezava entre banhos de mar, água de coco fresquinha e uma boa conversa. 

         Tudo parecia perfeito até que um vento começou a soprar, a princípio fraco, esfriando um pouco, mas suportável. Às vezes um grão de areia entrava no olho, machucava, mas com paciência eu o retirava, tinha a esperança de que aquele vento seria passageiro, queria continuar na praia. 

        Ao entardecer o vento foi ficando mais forte e já não era mais possível enxergar direito. Os grãos se chocavam contra meu corpo e eu não podia abrir os olhos, não conseguia ver o caminho, não reconhecia quem estava ao meu lado, queria andar mas não sabia para onde, não conseguia gritar para pedir ajuda sem que entrasse areia em minha boca. 

        Comecei a correr de um lado, depois de outro até que percebi que se permanecesse quieta no mesmo lugar e me tranquilizasse, o vento passaria porque esta é a função do vento: passar. A praia, o sol e as montanhas sempre permanecem.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A carteira


        Quando minha irmã tinha uns dezoito ou dezenove anos ela foi assaltada e levaram sua carteira, era uma carteira de marca que ela tinha trabalhado muito para comprar. Ficou uma semana arrasada, chorou, disse que não tinha sorte na vida, que as coisas de valor dela eram levadas. Nós ficamos sentidos, não queríamos que ela passasse por isso.

    Numa tarde seu namorado me telefonou dizendo que um cobrador de ônibus, amigo dele, havia encontrado a carteira jogada no fundo do ônibus. Ficamos super felizes e como faltavam alguns dias para o aniversário dela, combinamos que ele buscaria a carteira e nós lhe daríamos de presente. Mal conseguíamos controlar nossa ansiedade.

        No dia do aniversário lhe entregamos uma caixa com a carteira dentro e ficamos na maior expectativa. Ela toda feliz pegou a caixa na mão, balançou-a e abriu. Ao ver a carteira seus olhos se petrificaram, havia horror neles. Ela não queria mais a carteira. Nós ficamos totalmente desconcertados, olhávamos um para o outro sem saber o que havíamos feito de errado. Era a carteira que ela tanto gostava, que trabalhara e economizara para comprar. Jogou-a de lado e ficou chateada. Nós perdemos o rumo da comemoração, nos desculpamos, mas nada alterou seu humor.

        Já se passaram quatorze anos e ainda me lembro nitidamente do fato, porque ele sempre me intrigou. Se ela amava tanto a carteira, se havia um vínculo tão grande com ela, por que não ficou feliz ao tê-la novamente?

        Nossa intenção era deixá-la feliz, devolver-lhe algo que lhe fora tirado, algo que lhe era importante. Queríamos que ela resgatasse sua alegria e aconteceu justamente o contrário.
 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

À nova temporada


        Quero agradecer-lhes por lerem minhas postagens. Escrever sempre foi algo que me fez bem, me ajudou a administrar meus pensamentos, os quais, como vocês já perceberam, oscilam muito. Para cada certeza tenho dez dúvidas. Não sei se é assim com vocês também. Pode ser que eu os conheça e pode ser que não, mas ao ver a mudança de números no visualizador, me pergunto por onde andarão minhas palavras. Quais serão as sensações que elas provocam em quem às leem. Tenho gostado mais desta experiência do que da publicação impressa, já que por aqui podemos interagir. Fiquei durante muitos anos sem escrever, após alguns "nãos" recebidos de editoras desisti e passei a duvidar de minha capacidade. 

        Houve uma época em que sonhei em ser escritora e viver de escrever livros. Ao longo da vida fui me imaginando em situações e ambientes que me inspirassem a escrever. Pensei numa casa na praia, férias e fins de semana sob a sombra de uma árvore. Tive a casa, a sombra e faltou a inspiração. Pensei numa mesa redonda no jardim, uma caneca de café ou suco ao lado, pássaros cantando ao fundo, cachorros dormindo aos meus pés e uma super história. Cultivei o jardim, comprei a mesa, ganhei a caneca, adotei os cachorros, os pássaros fizeram seus ninhos e a história não veio.

        De repente voltei a escrever. Publicar passou a ser totalmente secundário, o principal era cuidar dos sentimentos de uma menina que passara a também cuidar dos meus, dando-me a possibilidade de conhecer novos aspectos de mim mesma, inclusive o de cuidar de alguém que não me fosse co-sanguíneo. A história que eu tanto desejava começou a acontecer sem que eu percebesse, não como uma ideia, mas como realidade com cheiro, sabor, alegria e dor. Um dia, creio que desejando me conhecer melhor, se aproximou e me pediu para ler um texto seu e passamos a escrever o enredo de nossa história dia-a-dia, rascunhamos nossos lampejos, amassamos os rascunhos, passamos a caneta. Trocamos experiências, aprendemos a nos comunicar com o olhar e um vínculo profundo foi sendo descoberto. Não digo que fora criado, foi mesmo descoberto, porque esse tipo de vínculo pré-existia em algum lugar. Podemos saber disso quando o que nos une à pessoa são sentimentos profundos, as conversas são sempre intensas, quase não há lazer, é um constante trabalho de cuidado recíproco.

        Construimos um universo paralelo, passamos pelo portal e inventamos códigos de comunicação. Eu revezava entre ser adulta e menina e ela entre ser menina e adulta. Fomos crescendo juntas e a história incorporando. Descobrimos que éramos heroínas, sobreviventes de histórias semelhantes e que lutávamos contra nosso pior inimigo: a perda. Nossos capítulos foram permeados ora pelo lançar-se, ora pelo recuar; ora pela certeza, ora pela insegurança; ora por palavras duras, ora por uma profunda ternura; ora pela calmaria, ora pela turbulência. Capítulos cheios de aventuras, de sorrisos largos e de lágrimas soltas; cheios de desejo de tentar de novo, de vencer o medo de se machucar novamente, de perder, mas também, cheios de conquistas que só nós conseguíamos enxergar. Aprendi a dar um abraço de sete segundos.

        Eu, como uma voraz leitora sempre desejosa das cenas dos próximos capítulos, querendo chegar logo à última página, queria saber se a história acabaria bem, acostumada a que as histórias tenham um ponto final, pois para mim elas sempre tiveram, mesmo contra a minha vontade. 

        Demorei muito para compreender, e ainda me encontro neste processo, de que as histórias não precisam acabar no ponto final, que existem trilogias onde os cenários são outros, novos personagens aparecem, mas a base, os protagonistas se reencontram e novamente se veem em novas batalhas lutando lado a lado. Eu sou muito grata a vocês que acompanham um dos frutos desta história - o meu retorno às letras - e que de alguma maneira encontram sentido para si, para seu momento de vida nestas palavras, mesmo com histórias diferentes. 

        Que comece a trilogia, a quadrilogia etc, porque além do meu profundo desejo de conhecer novos cenários desta história. 

        Que fechem as cortinas...







terça-feira, 23 de julho de 2013

Ciúmes

       
         O jardim estava sem cuidados há pelo menos seis meses. Um bem-estar me fez recolocar minhas roupas velhas, o boné e as meias rasgadas. Os cachorros ficaram felizes, puderam passear por todo o quintal e sentar-se exatamente sobre cada planta que eu cortava. A montanha de folhas aos poucos se transformava num brinquedo para eles. 

        Quando já havia terminado, guardei as ferramentas, varri o chão e chamei os cachorros. Três deles vieram e um ficou. Voltei para chamá-la, era a Tchuca, a cachorra da minha irmã caçula. Ela é pequena e toda engraçadinha. Percebendo que ela não estava muito disposta a voltar sozinha para o fundo do quintal, peguei-a no colo. Num golpe rápido ela mordeu meu braço, mas seus dentinhos não me machucaram, logo em seguida outra mordida e para que ela não pulasse de meu colo a coloquei no chão. 

        O que veio depois foi terrível e assustador. Minha cachorra, duas vezes maior do que a Tchuca, atacou-a, mordendo-a direto no pescoço. Foram três ou quatro minutos de profundo pânico e gritaria. Eu a puxava, batia-lhe com o meu sapato, gritava por socorro, consegui por duas vezes que a soltasse, mas uma força descomunal a fazia avançar novamente. Os olhos da Tchuca foram ficando vermelhos, ela não respirava mais, eu vi a morte em seus olhos, e eu não conseguia segurar a Luna, impedir que todo aquele ódio se manifestasse. 

        Quando finalmente meu cunhado e minha irmã chegaram e pegaram a Tchuca eu me sentei no chão e chorei convulsivamente. Eles não sabiam se cuidavam da cachorra ou de mim. Acabei levando duas mordidas na perna, nem sei de qual das duas, mas nada doía mais do que ver aqueles olhos quase mortos e todo ódio de minha cachorra. Depois do feito, enquanto eu chorava sentada no chão, ela veio e ficou ao meu lado, altiva, como querendo dizer que ninguém chegaria até mim. 

        A veterinária disse que era ataque por causa de ciúmes. O que me arrasou mais ainda. O ciúmes é um dos piores sentimentos, pois está intimamente ligado ao sentimento de posse. A criança possessiva morre de ciúmes de seus brinquedos e tem sempre na boca a frase: "É meu!" O adolescente ciumento é agressivo, e o adulto ciumento é manipulador e chantagista em suas palavras e gestos.  

        Ciúmes é um sentimento com o qual não sei lidar. Não luto com pessoas ciumentas, eu seria a Tchuca e teria meu pescoço devorado. Eu não sei possuir as pessoas, eu as deixo ir, não é bom pensar que se é dono de alguém. Alguns pais pensam que são donos de seus filhos, alguns maridos pensam que são donos de suas esposas e vice-versa. Isto não é amor, é posse. As pessoas matam em nome do ciúmes alegando que amavam muito, o amor liberta, não oprime. 

        Pode ser que uma grande maioria de pessoas se sinta bem e segura pelo fato do outro manifestar ciúmes, mas eu não sou assim, não gosto de me sentir posse de alguém. E também não gosto de sentir ciúmes, porque não quero que ninguém seja meu, quero que estejam comigo pelo simples fato de se sentirem bem ao meu lado. Tivemos que separar a Luna dos outros cachorros, o que me dói porque ela não sabe avaliar seu instinto, mas ela terá que aprender que não é a minha dona.  
  
 


segunda-feira, 22 de julho de 2013

A segunda chance


        Tenho pensado que todos nós paramos de crescer num determinado momento da nossa vida, marcado por algum fato traumático. Não sou psicóloga, mas tenho o hábito da reflexão. E esta parada define toda a nossa existência, as nossas opções profissionais e afetivas, ou, pelo menos, influencia muito. Tenho a impressão de que pessoas que gostam de trabalhar com crianças, pararam de crescer na infância, eu, particularmente sempre estive em meio a adolescentes, eu parei de crescer na adolescência, hoje posso perceber com clareza esta questão.

        Os questionamentos da adolescência, as crises, os sonhos, os desafios, as opções, todas sempre intensas e extremas. Típicas da fase, típicas da vida de todos, ou pelo menos da grande maioria dos que passam por esta ponte entre a infância e a vida adulta. Eu parei ali e por mais que eu ande, a vida sempre me retorna. 

        São milhares os que já passaram por minhas mãos, já ouviram a minha voz, já sofreram sob meus comandos, já se alegraram com a minha atenção. Não sei calcular os erros e acertos. Não sou capaz de contabilizar minha influência positiva ou negativa em suas vidas. O que sei é que respeito a fase em que vivem. Sei o quão difícil é passar por ela e que nem sempre há alguém para dar a mão e orientar o caminho, por isso teimo em ser firme e fazê-los acreditar que podem caminhar sozinhos. Esta é uma tarefa solitária e pouco compreendida. 

        É um universo intenso demais, fácil de se perder no turbilhão das emoções à flor-da-pele e ao mesmo tempo sedutor, encantador, cheio de sonhos, de esperança. A prudência da vida adulta sempre me indicou o caminho da polidez, da sensatez, do distanciamento saudável. Até que a vida me passou a perna pela primeira vez e eu me deixei levar pela mão, pelo pé, pela cabeça, e acima de tudo, pelo coração amedrontado. Bati minha cabeça na parede várias vezes tentando entender o que deveria ou não fazer. Tento metáforas, analogias, semelhanças e encontro um termo que aquieta e amedronta meu coração: maternidade espiritual. A vida e suas intempéries me negaram a maternidade biológica, mas ela está dentro de mim, em meus gestos, meus sentimentos. 

        Reluto com tal palavra, porque ela pode causar muitas confusões, mas se bem entendida, poderá ser útil. A maternidade espiritual é aquela que provêm dos mestres, dos filósofos, e com isso eu posso conviver. Meu coração se alegra quando posso orientar, provocar, estimular a pensar, provocar a descobrir-se, não às minhas verdades, mas a si mesmo. É como se eu sentisse seu coração jovem batendo em minhas mãos e como numa mágica, o meu voltasse a bater como se fosse jovem novamente. Eu me encho de sonhos, de esperança, e passo a ver com olhos inocentes.

        Não me importo com as perguntas, não as temo, não fujo delas, elas me obrigam a rever minhas verdades, meus valores, a questionar se meu alicerce é firme. Se me pergunta é porque lhe importo, porque minhas respostas têm valor. Assim, nos tornamos parceiros neste crescer, nesta fase e eu me alegro e sou grata pela vida me dar uma segunda chance de aceitar o amor que me oferecem.

 







sexta-feira, 19 de julho de 2013

Tempo de sair do exílio

        
        Cheguei a pensar que o gosto pela terra havia sido apenas uma fase, que trabalhar em meu jardim havia sido apenas um lazer momentâneo. Por seis meses abandonei completamente meu jardim. Entrava e saia pensando que tudo aquilo era demais para as minhas forças, pensando em virar as costas e deixar tudo para trás, não voltar mais. Minha vida se resumia ao trabalho e ao meu quarto, como um exílio. Sim, pode ser que tenha sido um exílio espiritual, momentos de encontro com os meus fantasmas, momentos de lutas interiores travadas com os meus medos.

        Eu não tinha forças para nada. Olhava as plantas crescerem e pensava que não conseguiria mais cuidá-las, que tudo se tornara um peso, um fardo, uma obrigação. Isolava-me no quarto e negava-me a cuidá-lo. Chorava até molhar o travesseiro e dormia desejando que o outro dia fosse mais leve. E ao abrir os olhos, ali estavam eles, os meus pensamentos, os mesmos, todos no mesmo formato, iguais. Aos poucos aquela onda, aquele tsunami de sentimentos me arrastava novamente ao meu exílio.

        Foram vários tsunamis, arrastando tudo dentro de mim, rompendo as minhas defesas, tornando tudo turvo, desordenando, desorganizando.  Pensei que me afogaria, cheguei ao limite das minhas forças, outra vez. Já não tinha mais desejo por tudo o que havia plantado, não queria cuidar, nem fotografar, nem andar por entre as plantas. 

      Então uma situação delicada se me apresentou e, como sempre na vida, eu tinha duas alternativas, fugir, me esconder ou enfrentar. Vesti novamente minhas roupas velhas, a meia furada e o boné. Quando dei por mim estava novamente em meio ao jardim sob uma espessa neblina, absorta no trabalho de podar a unha-de-gato que crescera para o lado do vizinho.

        Aos poucos fui percebendo que ao contrário do que eu pensava, nenhuma daquelas plantas precisava de mim, elas já tinham tudo o que lhes dava vida: terra, água e sol. Estavam crescidas e fortes sem que eu as ajudasse em nada; estavam floridas e cheias de broto sem nenhuma necessidade de mim. 

        A chuva começou a se intensificar e a realmente me molhar, estava frio. Eu não queria sair dali, eu precisava que aquela água gratuita do céu limpasse os meus pensamentos, os meus sentimentos. Eu estava entendendo, não era o jardim que precisava de mim e havia se tornado um peso, era eu quem precisava dele. Por mais que eu o limpe, pode, organize, ele continuará crescendo, não haverá o momento final em que me sentarei para observá-lo e o admirarei, isto seria pretensão divina. 

        Todos os dias ele cresce, todos os dias uma planta nasce, outra cresce e outra morre semeando novamente a terra. Porque assim é a vida, independente de mim. Posso pensar que houve uma pausa, que perdi tempo chorando em meu travesseiro, que deveria ter feito diferente. Mas na realidade não há pausa, há apenas mudança de estação.




quinta-feira, 18 de julho de 2013

Meu amigo Nico

Meu querido amigo,

        Tão próxima à nossa Paraty recordo-me de nosso primeiro encontro, quando eu, recém separada de meu ex-marido, passava pela primeira vez, aos 35 anos, o feriado de Corpus Christ na cidade histórica. Talvez você não saiba, mas eu te notei pela primeira vez no café da manhã, quando me levantei para pegar um pedaço de bolo e te vi sentado na ponta da mesa. Naquele instante eu te admirei.
    
        Depois quando fomos ao passeio de barco, enquanto nos dirigíamos em grupo para as docas, fiquei propositalmente próxima à você, para escutar tua conversa. Sei que não é nada nobre te revelar isto, mas creio que o acumulado dos anos de nossa amizade me permita dizê-lo. Eu queria saber tua história, quando o vi em pé, altivo e bem disposto, naquele instante admirei tua beleza física. No outro dia dividimos o lugar na van, você se lembra? E conversamos sobre estudos, cursos e superações. Tomamos uma cerveja na praia e você interessado na morena.

       Voltamos juntos de Paraty, compartilhamos um pouco mais de nossas vidas. Os casamentos desfeitos, as decepções, os sonhos, os projetos. Aos poucos gostamos de nos relacionar, de ficarmos juntos, mas eu não estava preparada para um novo relacionamento, eu precisava viver um projeto de solidão individual, depois de viver anos de solidão acompanhada. Precisava descobrir quem eu era para aprender a me relacionar.

        Ficamos amigos e o tempo seguiu seu ritmo rotineiro. Vivemos cada um sua história e de uma maneira espiritualizada nos mantemos unidos, desejando um ao outro a felicidade. Não tive muitas oportunidades para te dizer isto, meu amigo, mas hoje o faço, de coração aberto e cheio de desejos bons para ti.



segunda-feira, 15 de julho de 2013

As mãos

     
          Não paro de olhar as minhas mãos. Há um excesso de linhas e de formas que eu não havia reparado. O que significam ou significaram? Se eu não tivesse visto mãos tão limpas, com apenas três fortes linhas eu não teria observado as minhas. Não sei se eu as tinha aos 18 anos, pena nunca haver reparado.

        Elas mais parecem um emaranhado de encontros e desencontros, proximidades e distanciamentos, profundidades e superfícies. Acho que agora vou querer olhar as mãos das pessoas e tentar descobrir se as minhas abundantes linhas são reflexo das minhas abundantes escolhas, confusões e questionamentos ou nada além de marcas dermatológicas.

        Tenho a impressão de que minhas linhas gritam minha falta de foco, falta de escolher um caminho e seguir por ele, tendo como referência eu mesma. Um "eu" real, autêntico, baseado em algumas clarezas que ainda estou buscando.

        Tantas linhas e não consigo ver além da mesma questão, o mesmo enigma me toma a todo instante. É como se desvendá-lo eu descobrisse a chave para a porta que me levará a mim mesma. Não adianta tentar me explicar, eu tenho que encontrar a conexão das linhas por mim mesma. 

        Tem horas que dá um desespero danado, porque as horas e os dias passam e a resposta não vem. São fragmentos, como as linhas de minha mão. São lampejos, intuições, relações. Será que seja porque eu ainda não tive a coragem de despoetizar? De assumir descaradamente meus sentimentos mais primitivos? Como ciúmes, raiva, mágoa e inveja? 

        Ser racional me preserva de alguma forma, mas aqui não se trata de razão, são sentimentos, são forças profundas, reprimidas. À quem eu tenho que gritar: "Não se vá?", "À quem eu tenho que implorar para ficar mais um pouco?", "À quem tenho que vociferar para que suma?", "Com quem devo dividir minhas dúvidas?" Estou tentando, todos os dias eu tento, todos os dias desejo acordar com novos pensamentos, mas os velhos insistem. São novas linhas se formando ou as antigas se aprofundando?

        Temo por quem busca em mim alguma indicação de caminho, alguma resposta, alguma referência. Sou tão confusa como minhas linhas da mão que mais parecem linhas de metrô. Não acredite em mim, elabore suas próprias verdades, porque dentro de pouco tempo mudarei minha opinião, a todo momento me vêm aspectos novos para a mesma questão. Sou geminiana, sou dua. Posso estar dizendo que tudo bem, não sinto tua falta enquanto dentro de mim grita: "Fica comigo", posso estar dizendo que aceito enquanto dentro de mim grita: "Não quero que seja assim". Posso ter uma aparência equilibrada e sensata e dentro de mim eu desejar fazer algo inconsequente.

        Queria encontrar uma cigana e pedir-lhe para que leia a minha mão, seria ela capaz de desvendar tantas linhas? Tantas dúvidas e incertezas, tanta dualidade? Não sei, mas se eu pudesse, voltaria no tempo e passaria a observar mais a minha mão e tentaria descobrir se cada linha está relacionada a cada decisão que tomei ou às que não tomei.

        Muitas são as coisas que podem estar escritas na palma de minha mão, meu presente, meu passado, meu futuro, meu erros, meus acertos, minhas confusões, não sei. Pode ser também que tudo não passe de meros devaneios. Mas o que sei, é que minhas mãos podem acolher, podem acariciar, podem sentir o calor de outras mãos, podem tocar com afeto o rosto daqueles de amo, podem trabalhar e podem segurar outras mãos enquanto às levo de volta para casa. E este momento mágico, do soltar das mãos, pode ser também o mais dolorido.






sábado, 13 de julho de 2013

Dúvida


        Gosto muito das férias, mas ultimamente me incomoda o fato de facilmente eu trocar a noite pelo dia. O organismo fica desregulado e a idade me diz para tomar certos cuidados. De qualquer maneira, meus sonhos têm sido muito intensos estes dias, tenho sonhado com uma antiga vida que tive. Em meu sonho eu estou ali novamente, com aquelas pessoas, naquele ambiente, mesmo sabendo que eu não pertenço mais àquela realidade. Esta noite e manhã acordei diversas vezes e ao voltar a dormir o mesmo sonho continuava. Passei o dia me perguntando o que isto significaria.

        Mesmo me perguntando, tentando fazer associações com fatos do passado e do presente, não cheguei a nenhuma conclusão, nem resposta. Passei o dia entre afazeres domésticos e alguns prazeres como organizar gavetas, cds, separar coisas para jogar na reciclagem, tocar cajón acompanhando as músicas dos anos 90 e ver se alguém deixou mensagem no facebook. 

        Enquanto eu organizava os objetos do rack da sala, me lembrei de quando minha mãe me mandava limpar a estante que ficava exatamente onde está o rack, e eu tirava tudo de dentro, analisava objeto por objeto, separava, organizava tudo e somente depois tirava o pó. Ela ficava muito nervosa com minha atitude e dizia que eu estava enrolando para não fazer o serviço, às vezes se aproximava e com violência jogava tudo dentro da estante e me mandava fazer outra coisa. 

        Eu não mudei por causa disso, continuo agindo da mesma forma, porque eu não estou fugindo do serviço. Trata-se de uma dinâmica de busca de certezas para tomadas de decisões. Ao arrumar uma gaveta eu estou arrumando meu próprio interior. Ao separar os objetos eu me conscientizo da existência das coisas e seu real estado de uso. Me pergunto porque obtive aquilo, qual era sua finalidade em minha vida, se ainda hoje tem serventia e, se deve voltar para a gaveta numa outra disposição ou se deve ser doado ou ainda reciclado. São pequenas decisões. Quando a dúvida é maior do que a certeza sobre me desfazer então eu guardo novamente e me dou um prazo, se em seis meses não voltar a usar aquela roupa ou objeto, então ele deve ir para que sobre espaço para o novo que virá, porque o novo sempre vem. Os objetos de valor sentimental são os que mais geram dúvidas, mesmo sendo uma pedrinha ou um cartão.

        Pode ser que todos estes sonhos seja o meu inconsciente arrumando as gavetas, reorganizando os fatos, arrumando o depósito. O que há de fascinante nestes sonhos é que mesmo eu estando ali, eu sei que não pertenço mais aquele lugar, eu sei que não queria estar ali, não há mais nenhuma dúvida. Foram muitos anos carregando incertezas e dúvidas, mas agora estou livre, absolutamente certa de que eu não queria estar ali. 

        Quando eu era adolescente olhava pela janela da sala e via alguns pinheiros, então eu me perguntava onde eu estaria dali a alguns anos, hoje vejo os mesmos pinheiros, mais altos e mais robustos. Eu fui, andei, andei e voltei, agora estou prestes a sair novamente, a diferença é que agora eu sei para onde vou. Não tenho mais dúvida, vou para a minha casa. 

        Eu não sei quais são as dúvidas do coração das pessoas, eu sei das minhas, das que tive e hoje não as tenho, das que aos poucos surgem e que muitas ainda virão, mas sei que todos temos dúvidas. E isto não é bom nem ruim, é um movimento humano necessário para nossa sobrevivência e também nossa auto-preservação. A dúvida é o primeiro passo para se construir a confiança.

        Ultimamente tenho feito como Descartes, me isolado para buscar respostas utilizando o método da dúvida metódica, mas assim como a única certeza à qual Descartes chegou, eu também chego: não é possível ter certeza de nada, nem de que o mundo existe, daí, o que nos resta é "penso, logo existo".  





quinta-feira, 11 de julho de 2013

Expectativa e desejo

        
        O dicionário define expectativa como condição de quem espera pela ocorrência de algo; estado de quem espera algum acontecimento, baseando-se em probabilidades ou na possível efetivação do mesmo. 

        Ocorre-me que o distanciamento das definições das palavras por vezes nos causa certos desconfortos emocionais, como é o caso da palavra expectativa. É comum dizermos e ouvirmos: "Criei tanta expectativa e me decepcionei. Agora, só de raiva, não vou criar nenhuma expectativa". Acho que no fundo temos um pouco de dificuldades em compreender as palavras. 

        Conversando com amigas costumo escutar: "Terminei o relacionamento porque ele não estava à altura das minhas expectativas". "Estou chateada porque minha expectativa era que ele me levasse no lugar X e me levou no Y". Eu mesma tenho centenas destas falas. Mas pensando bem, este é um equívoco conceitual que ao ser corrigido pode melhorar muito nosso relacionamento conosco mesmo e com os outros. 

        Se expectativa é o estado de quem espera algum acontecimento, baseando-se em probabilidades ou na possível efetivação do mesmo, é preciso ter vários acontecimentos para basear-se. A expectativa é a antessala da certeza.

        Uma amiga pergunta à outra: "Tudo bem com você? Parece triste". "E estou, é que todo sábado eu me arrumo, faço unha, cabelo, maquiagem e fico na maior expectativa, então o meu namorado chega e me leva para o cinema". "E por que você está triste?", pergunta a outra. "Porque eu crio a expectativa de que ele vai me levar a um restaurante." 

        A amiga sofre porque não sabe que na realidade o que ela sente é desejo e não expectativa. A expectativa correta seria ir ao cinema, baseada no fato de que ele sempre à leva ao cinema. Não chega a ser uma certeza porque ele pode mudar o roteiro, mas a expectativa é ir ao cinema. O desejo é uma tensão em direção a um fim, considerado pela pessoa que deseja como uma fonte de satisfação. A amiga deseja ser levada a outro lugar.    

        Ninguém precisa me chamar pela manhã para ir ao trabalho, o fato de eu me despertar sozinha cria nos outros a expectativa de que me levantarei, pode acontecer de eu perder a hora um dia, porque a expectativa não é certeza, mas sua antessala.

        Se eu tenho um aluno que sempre tira nota baixa, já fez muitas avaliações comigo e um dia tira uma boa nota, então ele superou as minhas expectativas, as quais são baseadas em suas avaliações anteriores. Mas quando se trata da primeira, segunda ou terceira avaliação, eu não posso ter expectativa, não tenho elementos para fundamentá-la. 

        O início de um relacionamento pode ser também o início de várias insatisfações se não levar em conta esta questão. Osho usa a metáfora do barco vazio. É preciso ter espaço no barco, estar vazio, sem expectativa. No início não há nada, não há fatos, não há história comum. Há um interesse mútuo, por vezes despertado por uma das partes, afinal, alguém tem que começar. Um dia sou eu, outro dia é o outro. No início há um encantamento primário, curioso, tímido. À medida que o relacionamento cresce os fatos se acumulam e depois de um tempo é possível ter/criar expectativa, ou seja, semi-certezas. 

        As frustrações estão na confusão entre expectativa e desejo. A amiga desejava que seu namorado a levasse para jantar, por exemplo, então é preciso dizer-lhe seu desejo. Ela até poderia pensar que o fato de arrumar-se daria uma pista, ou indicaria seu desejo, mas para seu namorado poderia apenas significar que ela gosta de se arrumar, mesmo que seja só para ir ao cinema. 

        Parece fácil, mas sabemos que não é, pois os desejos nem sempre são conscientes. Muitas vezes são inconscientes e reprimidos. Por isso nem sempre conseguimos dizê-los. Pode acontecer da amiga discutir com o namorado, dizer-lhe que é um insensível e tudo o mais, e depois desta discussão ele levá-la ao restaurante mais caro da cidade e ela não se sentir como imaginou que se sentiria. Então teria que fingir, ou pedir desculpas ou colocar a culpa no restaurante. Pode ser que no fundo ela só quisesse ser surpreendida algumas vezes, ou que ele perguntasse onde ela desejava ir antes de levá-la. 

        Eu tenho uma amiga que é distraída com as horas, sempre que marcamos para sair ela atrasa. Esta semana pensei, da próxima vez eu atrasarei. Eu não reclamo, porque sei que ela atrasa, é a minha expectativa, mas o meu desejo era que ela já estivesse pronta quando eu chegasse para pegá-la. Baseado nas idades das mulheres da minha família, minha expectativa de vida é de 80 anos, mas meu desejo é viver somente enquanto eu for capaz de me cuidar sozinha. 

        Então, quando eu ouvir alguém dizer: "Não vou mais criar expectativas para não sofrer", vou lhe perguntar: "O que é expectativa para você?".









segunda-feira, 8 de julho de 2013

Nosso olhar nossa ponte


        "Você tem uma ponte nos olhos", disse-me há um ano atrás enquanto eu me preparava para viajar. "Nunca nos separamos por tanto tempo", completou. E eu engoli em seco, pensando o mesmo. Viajei e desejei que visse todos os lugares por onde passei. Pensava em lembranças, em mensagens e recordações.

        Um ano se passou e tantas foram as histórias que vivemos, os conflitos que vencemos, as dores e medos que enfrentamos e as feridas que curamos. Não imaginávamos este hoje, cheio de novidades, cheio de amores, de paixões, de buscas interiores, de gargalhadas ao ar num café, de mãos no rosto tentando esconder um rubor novo, de olhos brilhantes e cheios de emoção, de novas cumplicidades. Cúmplices de pijama de bolinhas. Só os cúmplices enxergam a ponte de acesso ao coração.

        Há tantas coisas ditas por nossos olhos que as palavras não são suficientes. Talvez haja uma vida inteira oculta neles, uma vida que eu não me lembro ou não saiba que existiu. Talvez haja uma força energética que os atrai pelo prazer de atravessar a ponte, neste mundo onde poucos têm a coragem de olhar nos olhos. Não é uma questão de ver a nudez, é a questão de ver a criança, sem defesas, apenas desejando ser amada, ser um porquê.
       
        Onde estaremos daqui a um ano? Daqui a dois? Às vezes desejo que o tempo passe rápido para saber, mas a mancha senil que cresce em meu rosto me assusta e me avisa para ser prudente, a acalmar o coração e esperar sábia e pacientemente, porque mesmo que a distância nos separe, teremos sempre a ponte que nos une e nos conduz a um jardim secreto, só nosso, cultivado na terra boa de nossos corações, regado pela água de nossas lágrimas, fossem elas de alegria fossem de tristeza e, adubado pelos gestos mais sinceros e afetuosos que pudemos expressar.








sábado, 6 de julho de 2013

Sono bom

   
       Meus olhos pesam, as pálpebras quase não se aguentam, é um sono bom que invade meu corpo. Claro que uma parte desta delícia de sentimento se dá porque finalmente estou de férias, mas porque, e acima de tudo, a vida me deu um presente nesta tarde. 

      Metade do ano se passou e eu não percebi, ontem mesmo eu estava desejando feliz ano novo e agora, até as festas juninas já passaram. Onde eu estive todo este tempo? Quase não consigo visualizar-me, a não ser numa rotina de trabalho e retiro interior, de trabalho e isolamento em minhas incompreensões, trabalho e o controle de meus impulsos e sentimentos à flor-da-pele. 

        Terminei meu último dia de trabalho antes das férias ganhando um presente, ou melhor, dando-me um presente, uma nova oportunidade de me sentir parte do dia-a-dia de alguém, de poder acompanhar sua "passagem", de segurar sua mão quando sentir medo e de dizer: "Vai, você consegue, eu confio em você". Pode acontecer de alguém me dizer: "Você já não sofreu o bastante? Já não se feriu demais? Não aprendeu com a experiência anterior?" E eu lhe diria: "Aprendi sim, aprendi a não ter medo, a confiar mais em mim, a ter a certeza de que não estou fazendo nada de errado. Aprendi a aceitar o amor que me oferecem, mesmo que seja por pouco tempo, e a dar meu ombro quando me pedem". Porque é indescritível quando alguém deita em nosso ombro e segura nosso braço como se fôssemos a única pessoa que ela deseja naquele momento.

        Voltei para casa tranquila, feliz, segura e certa de minhas atitudes. E entendo que a vida queira me dar uma nova chance, queira me dar o que tanto desejei, mas por outros caminhos e não pelos que planejei. Entendo que a vida queira me explicar que eu não estava errada, estava apenas aprendendo, porque de alguma forma peculiar, eu me realizo quando posso cuidar de alguém e este sono bom que me invade é o que mais preciso depois de tantas noites atribuladas e mal dormidas.




sexta-feira, 5 de julho de 2013

Margarida

        Tenho pensado muito em Margarida e em sua dor. Tenho pensado em como poderia aliviar seu sofrimento, em como encontrar uma fórmula mágica, uma solução definitiva ou um consolo mais eficaz. E encontro apenas minhas próprias dores, minhas feridas e angústias, e os caminhos que percorri para curá-las, as águas sagradas onde mergulhei para limpá-las e os travesseiros que molhei.

        Margarida e eu nos conhecemos a quase sete anos e só agora ela me pediu o direito de compartilhar um momento singular de sua vida. O que me deixa bastante lisonjeada, já que ela pôde me avaliar todos estes anos e me considerar idônea para guardar seu segredo. Quando alguém nos escolhe para nos contar algo de sua vida, nos faz co-participantes, quase co-autores, já que espera de nós algum tipo de manifestação, algum tipo de interferência que lhe seja útil e ao mesmo tempo respeitosa. 

        Este movimento pode nos causar uma certa vaidade, um orgulho pouco produtivo e podemos cometer o deslize de querer dizer ao outro o que deve fazer, mas isto não é saudável para uma amizade. Ninguém quer ouvir o que deve fazer, pois todos queremos desfrutar do direito de decidir nossos caminhos. Acredito que seja exatamente isso que Margarida busca, o direito de decidir o que fazer de sua vida, que já não é mais somente sua, que inclui um outro.

        Em uma de nossas conversas informais com os amigos, ouvi Margarida afirmar que gosta muito de rotina e que a rotina a faz se sentir segura. Eu, criada na incerteza das mudanças, achei esta afirmação um pouco triste. Não que a rotina seja de todo mal, mas penso que ela aos poucos seca algo muito importante em nós, a emoção da primeira vez. Deixa-nos seguros sim, mas torna tudo previsível e, aos poucos, sem graça. A rotina por vezes nos cria falsas certezas.

        Longe de mim pensar que eu saiba o que acontece em seu interior, porém, pela peculiaridade de seu momento, posso pensar que ela deseje revitalizar suas emoções, deseje encantar e encantar-se novamente. Deseja sentir as emoções primeiras, aquelas que começamos a sentir juntamente com as primeiras crises da adolescência. É uma espécie de retorno à juventude, mesmo sendo ela ainda uma jovem mulher. Perguntei-me várias vezes porque ela escolhera a mim para compartilhar algo tão importante de sua vida e cheguei à conclusão de que mesmo que eu nunca lhe dissera ela sabe que posso compreendê-la, mesmo que seja intuitivamente ela sabe que de formas diferentes eu busco a mesma coisa. 

        Não posso lhe oferecer uma solução, não posso retirar suas dores e angústias, não conheço as respostas corretas, mas posso oferecer-lhe meu ouvido atento, meu coração aberto e sem julgamentos ou juízos de valores, e também posso lhe oferecer meu ombro caso se machuque. Seja feliz Margarida e sorria deste momento, porque ele poderá ser o teu reencontro consigo mesma.