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domingo, 14 de abril de 2013

Minha irmã

        Mais uma semana se acaba e hoje é num dia especial, o aniversário da minha irmã. São trinta e dois anos, mas parece que foi ontem que minha mãe chegou em casa dizendo que teria uma menina. Fiquei tão feliz que posso recordar a sensação. Na hora eu pensei: "vou ter uma companheira". Eu me sentia só, era a primeira neta de ambas famílias, tinha o meu irmão, mas ele era um instruso aos meus olhos. As maiores atenções e cuidados eram para ele que sempre estava doentinho, mas não é sobre ele que quero falar.

        Quero falar daquele bebê sempre sorridente que eu gostaria de ver novamente. Meu avô lhe fazia um penteado que parecia um moicano, nós ríamos e ela ria de nossas risadas. Era tão bom. Seu nascimento veio suavizar nossa dor, a dor da perda de nosso pai dois dias antes. Foi tudo tão surreal, tão absurdo que nem dá para explicar. 

        Cuidei dela como a uma filha mesmo tendo eu somente 9 anos e ela me obedecia com tanto respeito e amor que me emociono ao pensar. Não me lembro de uma única cena onde eu tenha precisado chamar sua atenção.

       Eu lhe trocava as fraldas, dava banho, preparava a mamadeira, penteava-lhe o cabelo e fazia cachinhos, ela ficava tão bonitinha. Onde eu fosse ela ia, se encontrasse os colegas da escola para alguma festinha ou trabalho, ela ia, de mãozinha dada na maior alegria. Eu a levava para a pré-escola na garupa da bicicleta. 

        Houve um tempo em que ela precisou ficar com a minha avó, eu sentia muito a sua falta, então fui estudar a noite, aos 13 anos para que ela pudesse voltar e ficar com a gente. Penso que ela deva ter sofrido com nossa distância. Ficar com a avó era bom, mas ela não tinha mais meu avô para lhe proteger e mimar. 

        Ela ainda era uma criança quando sai de casa. Puxa como ela sofreu e eu também. Se eu pudesse voltar no tempo, mas não posso. Eu estava tão perdida, tão desejosa de ter um lar organizado e equilibrado que pensei ter encontrado num convento, puro engano. Não houve um dia em que não pensasse nela. Perdi sua infância e puberdade. Quando voltei ela já era uma adolescente e havia aprendido a viver sem mim. Foram anos para reconquistar sua confiança e nossa maneira mais próxima de expressar afeto nunca mais voltou a ser a mesma. 

     Dividimos mais do que uma casa, dividimos uma vida. Quero hoje invocar todos os que já se foram, para que a protejam em sua vida e lhe afastem de todo mal.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Autoavaliação

       Esta semana o blog completou um ano, creio que antes de continuar, seria melhor fazer uma autoavaliação. Na adolescência encontrei na escrita uma maneira de expressar meus conflitos, esboçar minhas ideias e personalizar o que eu não conseguia expressar verbalmente. 

        De certa forma a escrita me acompanhou nas diversas etapas da minha vida e sua principal característica é seu papel terapêutico. Algumas pessoas fazem crochê, eu escrevo. É quase como se ao escrever eu pudesse de fato me ver, focar meus pensamentos e ouvir a minha própria voz. 

        Antes de abrir o blog eu estava sem escrever há muitos anos, cheguei a pensar que nunca mais retornaria, pois quando me deparava com a tela em branco, nada acontecia. Até que uma sucessão de fatos me impulsinou a timidamente voltar a escrever, a brincar com as palavras, a dar vida à minha voz interna. Foram fases diferentes. Em algumas eu inventei personagens e me escondi no meio deles, outras eu relatei fatos reais, em outras usei a primeira pessoa mesclando realidade e ficção. 

        É mágico acessá-lo e ver o contador de visualizações com outros números, dá uma mistura de sensações. Alegria por saber que alguém leu e medo justamente por não saber qual o efeito das palavras nas pessoas. Eu sempre desejei que fosse algo bom.

        Linda não é meu nome e nem Flores meu sobrenome, um pseudônimo era algo que eu desejava ter mas não tinha coragem de usar desde a adolescência. Ele nos protege psicologicamente, não sou eu quem fala é ela. O blog tem se tornado para mim praticamente um diário e por isso me causa maior espanto que alguém leia as mazelas alheias. 

        Hoje mesmo pensei em escrever sobre os trinta e dois anos da morte de meu pai e relatar as cenas daquele dia fatídico o qual posso reviver a qualquer momento. O que verdadeiramente me assusta é justamente o fato de poder reviver sensações de tanto tempo atrás como se fosse literalmente ontem. No entanto, já o mencionei no dia de seu aniversário de vida e creio que nada mudou deste aquele dia. 

        O que desejo mesmo é te agradecer por ler estas palavras conflituosas, por vezes desesperadas, nostálgicas, sentimentalizadas, angustiadas, alegres, eufóricas, esperançosas. Eu te conheça pessoalmente ou não, seja você feliz e que as minhas palavras tenham sido pelo menos um saboroso passatempo. 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O monge e a unha de gato

        Mal consigo passar o pente no cabelo, meu pescoço está fervendo. Para outono o sol queimou como verão e meus braços estão feridos pelos galhos e pelo alambrado da cerca, meu pulso dói da tesoura de poda. Eu já estava um pouco desacostumada disto. Este ano praticamente nem trabalhei em meu jardim. Situações novas para administrar, crises velhas reaparecendo e assim o jardim foi ficando. 

        Mas hoje eu precisava rezar, precisava discernir. Como minha cabeça trabalha constantemente vários pensamentos ao mesmo tempo, eu precisava suar o corpo, pois como dizia São Bento: ora et labora. Várias eram as minhas opções: cortar a grama da parte da frente da casa ou da parte de trás, podar a unha de gato do lado direito ou esquerdo da casa, além de outras, coisa para fazer é o que não falta. Contudo, algo me levou à seguinte tarefa: podar a unha de gato do muro com cerca de alambrado que separa uma parte do meu quintal com o meu vizinho. 

       Comecei de forma humilde, cortando um galhinho, ajeitando outro, pois a planta já havia tomado a proporção que eu desejava, havia crescido pelo alambrado todo e criado privacidade entre nossas casas, no entanto, ela havia passado os limites e crescido quase um metro para dentro do terreno e no muro vizinho. Foi então que me ocorreu a seguinte história...

        Um monge havia pedido para seus discípulos plantarem pequenas mudas de unha de gato no muro do mosteiro para crescer também pela cerca de alambrado e separá-los do vizinho. Obedientemente o fizeram, mesmo alguns pensando que seria melhor aumentar o muro ou colocar tábuas, pois a unha de gato ao crescer exigiria poda o que lhes obrigaria a trabalhar. Como a muda era muito pequena pensaram que demoraria muito para que ela crescesse, por isto não se preocuparam, até que um dia o mestre os chamou e disse: "Nosso vizinho reclama o avançado da unha de gato, quero que vocês decidam qual a melhor solução para o problema".

        Alguns ficaram admirados, pois estavam tão acostumados a olhá-la que nem haviam percebido seu tamanho. Cada um analisou a situação e todos voltaram para dizer ao mestre que solução apontavam. O primeiro disse: "Mestre, creio que seja melhor cortá-la pela raiz, já que está muito grande e seus galhos extremamente emaranhados. Depois podemos plantar novas mudas e acompanhar melhor seu crescimento para que não fique novamente neste estado". O mestre ouviu atentamente e nada respondeu.

        Depois foi a vez do segundo: "Mestre, acho melhor conversar com o vizinho e pedir-lhe que pode a parte que invadiu seu terreno, ele deveria nos ser gratos já que seu muro é feio, sem reboco e pintura, a unha de gato o embeleza, além de propiciar-lhe contato com a natureza". Deste o mestre também ouviu e nada comentou.

        Por fim, o terceiro se aproximou e disse: "Mestre, eu não penso como os meus irmãos, a planta cresceu porque esta é sua vocação, espalhar-se e produzir galhos, ela foi perfeita em seu trabalho, por que deveríamos cortá-la pela raiz e matá-la? Ela cresceu para agradar nossos sentidos e tanto nos agradou que nem percebemos o quanto cresceu. Por outro lado, não devemos desejar gratidão de nosso vizinho, sua visão de beleza não é a mesma que a nossa, não temos o direito de impor-lhe nossa alegria. Todos buscam viver em seus espaços e desejam que ninguém os invada".

        O mestre então perguntou: "O que você propõe?

        "Eu proponho um trabalho árduo de poda, onde os galhos que invadem o vizinho sejam cortados para que a planta tenha mais forças de crescer em nosso lado". Os outros discípulos não se alegraram muito com a proposta do trabalho árduo, mas eram obedientes. O mestre então concluiu: "Você discerniu bem, esta planta é como nossas relações, nós as plantamos pequenas, com o passar do tempo a intimidade cresce, o amor cresce e nossas vidas se misturam como os galhos, mas se eles começarem a produzir sombra em outros, então é hora de reconduzir, de reorganizar para que a raiva do outro não aumente e seus pensamentos maus afetem teu espírito".

        O primeiro discípulo humildemente pediu a palavra e o mestre lhe concedeu: "Mestre, não entendo, se nós a cortássemos pela raiz e plantássemos novas mudas o trabalho seria facilitado e em pouco tempo a planta ficaria do tamanho que o irmão pensa deixá-la". O mestre acostumado a ser questionado, amavelmente respondeu: "Nós não arrancamos as pessoas que amamos de nossos corações só porque estamos numa situação difícil e colocamos outras no lugar, nós lutamos para que elas permaneçam, nem que para isso, seja necessário um árduo trabalho de muitas podas".

        



       

       

       

quarta-feira, 10 de abril de 2013

A vidente e a prima

Querida prima Cleuza Ramalho, doravante CR.

        Há quanto tempo não nos falamos, não é mesmo? Espero que esta te encontre cheia de saúde e repleta de felicidade. Decidi escrever uma carta porque esse negócio de Facebook e quantidade de caracteres restringe nossas ideias. Você acha que eu vou ficar contando quantas palavras tem os meus pensamentos?

        Bom prima, eu estou com muitas saudades mesmo. Às vezes fico pensando no nosso tempo de escola, quando nos encontrávamos todos os dias e todo o tempo tínhamos uma novidade para contar, lembra? Tua mãe ficava doida com a gente, com a nossa grudação. Existe essa palavra?

        Depois você foi para a faculdade, mas não foi qualquer faculdade não, foi uma do governo, que honra, e eu casei. No começo a gente se falava quase todos os dias pelo computador, lembra? Tua mãe queria me matar. Depois as responsabilidades foram crescendo, você com os trabalhos e viagens da faculdade, eu cuidando da casa e do marido, o contato foi diminuindo e cá estamos nós, um pouco mais velhas. Eu nunca me esqueci de você, viu? Aliás, deixa eu te contar. Sabe aquele perfume que você usava e eu adorava e quebrei o teu vidro uma vez? Foi sem querer, você já me perdoou, né? Então, logo que nossos contatos foram reduzindo, eu comprei um vidro só pra continuar sentindo você perto de mim. Só de lembrar as lágrimas brotam. Mas a vida é assim mesmo, a gente caminha paralelo, de repente aparece uma curva e cada um segue sua rota.
        
        Então, prima CR eu queria te contar uma novidade, mas senta pra não cair das pernas. Ontem fui numa vidente. É isso mesmo que você está lendo, uma vidente, uma mulher que joga as cartas. Pois é, as coisas mudam e as pessoas também. Já estou até ouvindo você falar: "Eu sabia que você acreditava um pouquinho" e rindo daquele jeito escandaloso e delicioso que só você saber rir. Tá bom, já riu o suficiente, deixa eu continuar.

        A dona Maria, a cartomante vidente, me contou um monte de coisas, falou do meu anjo, arcanjo, arcano, número de nascimento, comentou a minha assinatura e mais um monte de coisas. O meu arcanjo? É poderoso menina, parece que é um dos melhores. Até me senti protegida ao saber. A minha cor é violeta, aceitei, mas não é minha cor preferida. 

       Por que eu fui na cartomante? Tá certo, seria melhor te contar. Eu tô passando por aquelas crises, lembra? Pra você ver, pensei que ficando mais velha elas desapareceriam, mas que nada. Agora quem sabe eu ache o caminho da solução, ou então só quando eu morrer. A dona Maria me mandou tomar banho com casca de laranjeira e beber o chá da casca, uma vez por semana. Já tomei duas vezes só hoje pra ver se a coisa se resolve logo. 

        Eu sou mesmo mal educada, sempre falando demais de mim. E você? Me conta alguma coisa. Eu sei que você conquistou muitas coisas na tua vida e nem deve ter muito tempo pra essa prima velha aqui, mas se sobrar um tempinho, me conta como anda a tua vida, tá bom?

        Depois que nossas vidas tomaram rumos diferentes, eu fiquei um pouco deprimida, entristecida, jururu, mas depois fui percebendo que era preciso, que as nossas almas gêmeas, lembra que a gente falava assim? Então, que almas gêmeas podem se separar mas sempre se acham de novo. Ah! a dona Maria disse que o teu signo é o oposto do meu, tá vendo, por isso que a gente se dava tão bem, dizem que os opostos se atraem. 

        Sabe eu fico chateada lembrando de quando a tua mãe descobriu que a gente ficava dependurada no telefone por horas toda tarde e ela se sentiu traida por você, até te disse que tava decepcionada por descobrir que você fazia coisas escondido dela. Eu me senti tão mal, eu e minha língua solta, que tanto assunto eu tinha pra contar, não é mesmo? Espero que um dia ela me perdoe.

        Eu tô bem, tô feliz, estudei, comecei a trabalhar, de vez em quando tenho umas brigas com o maridão, mas ele releva e tudo bem, me chama de Azeda e como ele é adocicado, a gente de ajeita. Eu tenho muitas saudades, mas é uma saudade boa, de quem foi muito feliz com aquela pessoa, de quem amou e foi muito amada. 

        Eu acho melhor parar a carta, prima CR porque senão ela vai se desfazer nas minhas lágrimas. Você sempre me fez sentir as coisas muito intensamente. Tanto que eu queria te contar outra novidade, vou lançar um livro e logo te mando o convite, é um livro especial onde eu conto, sem que as pessoas entendam, tudo o que vivemos juntas.

        Eu te amo prima e conto com a tua presença, quem sabe agora poderemos fazer um reencontro. 

                                                                                            Beijos e abraços,

                                                                                                   Lindaura de Castro







       


segunda-feira, 8 de abril de 2013

O picnic

        Costumo ouvir elogios para com os europeus e sua maneira de viver, é a tal da qualidade de vida. Quando estive na Europa, principalmente na França vi, e até participei, de um hábito bastante difundido, o picnic. Centenas de pessoas de várias "tribos" sentadas ao redor de uma toalha, comendo baguete e bebendo champagne próximos à Torre Eiffel. Pessoas que haviam saído do trabalho para encontrar os amigos, sentar na grama e comer algo.

        Não estou na Europa, sou filha de um países subdesenvolvido e que agora eles chamam de país em desenvolvimento, só para não ferir tanto a autoestima. Meu país é cheio de verde, posso dizer que até a minha cidade e, ainda mais, a minha casa. Eu tenho um jardim, tenho mesas e cadeiras pelo quintal e no entanto, não faço picnic. Aliás, isto é algo que me incomoda, tendo eu criado espaços de convivência, não convivo. 

        Pode ser que a questão esteja justamente aí, conviver, é viver com e me falta o "com". Claro que muitas coisas faço sozinha, mas um picnic não tem graça sozinha. Fica faltando as quatro mãos para estender a tolha na grama, fica faltando a disputa pelo melhor lugar embaixo da árvore, fica faltando a alegria de ver aqueles deliciosos lanches preparados por outro para você compartilhar. 

       Para alegria de meu coração, uma querida amiga me convidou para um picnic, confesso que a princípio pensei que ela estivesse brincando. Quem na loucura do nosso dia a dia faria um picnic na tarde de uma segunda-feira? Ainda por cima com uma manhã chuvosa? Pois é, nós. E era esta sua amorosa loucura tudo o que eu precisava após um fim de semana tedioso. 

        Fomos a um parque relativamente seguro e limpo. Encontramos uma frondosa árvore e eu logo me aninhei entre suas raízes. Eu ficaria ali horas, eu dormiria ali. Era como sentir um abraço, numa tarde nostálgica de outono. Lanches, biscoito, cocada, suco, um verdadeiro banquete. Alguns sabiás laranjeira voando ao nosso redor, algumas formigas passeando pelo tronco acolhedor da frondosa árvore e folhas caindo, anunciando que o outono estava ali. O outono sempre me pareceu a estação do recolhimento, seus entardeceres beiram a tristeza. 

        Falamos, falei, falei, ouvi menos do que falei, pouco gentil de minha parte. Mas minha amiga é tão generosa e me faz sentir-me tão acolhida que quando percebo já rezei minha ladainha toda. Contudo, hoje, mesmo estando ali, ela não estava bem. Havia uma sombra em seu olhar e seu rosto parecia cansado, sua respiração ofegante, como se algo apertasse seu peito. 

        Conversamos de muitas coisas, mas desta vez pouco nos olhamos nos olhos. Ela, educada para as artes, conseguiu retomar algumas expressões com as quais me acostumei a ver, mas a diferença de situações anteriores é que não soavam naturais. Preocupei-me profundamente e me senti tão incapaz de retribuir o bem que me havia feito. Um picnic não é apenas um momento embaixo de uma árvore, é uma experiência cósmica: eu, o outro e a natureza. Não serve apenas para alimentar o corpo, alimenta os sentidos e ainda por cima, diferentemente de estar na mesa de um bar, a natureza não fica esperando a liberação do espaço para outro sentar e consumir, a relação é gratuita.

        Ela me fez muito bem, me ajudou a começar minha semana de forma diferente. Eu, de minha parte, gostaria que ter a certeza de que a falta de brilho em seus olhos e gestos fosse apenas algo passageiro, como uma tpm ou uma noite mal dormida.




terça-feira, 2 de abril de 2013

A percepção

        A percepção de si mesmo é algo interessante e ao mesmo tempo complicado. Não basta se olhar no espelho, não basta enxergar as próprias rugas e marcas de expressão. Não basta fazer terapia. Cada dia é uma vida nova e, sinceramente, às vezes cansa, por isto acho extremamente viável não viver para sempre. Não que eu deseje morrer logo, mas viver muito deve ser solitário e cansativo.

        Estes dias vi uma reportagem sobre Rubem Alves e fiquei chocada, não sabia que ele está tão velhinho e pior, com mal de Parkinson. Foi muito triste vê-lo assim, sem poder autografar seus livros, precisando de ajuda para andar, mal conseguindo falar para seu público. Ele estava triste e, sentado num jardim, explicava quantas vezes havia passeado por aquele lugar e o quanto sempre adorou jardins. No entanto, naquele momento o lugar não lhe pertencia mais e nem ele ao lugar. O melhor seria sempre guardar as imagens na lembrança. Concordei com ele.

        Não sei exatamente porque estou escrevendo tais coisas, talvez porque elas simplesmente me veem à cabeça e para que não ocupem tanto espaço em minhas emoções, eu as deposito aqui, livremente para que guardadas permaneçam imortais e fixas, até que alguém as apague.

       Quando olho para os jardins por onde andei, sempre me pergunto se fiz a escolha certa e me avalio como alguém que fez as escolhas erradas, que buscou os caminhos mais complicados e menos seguros. Hoje me sinto para trás, um ser de pouca evolução, fadada a passar os restos de meus dias tentando buscar o sentido de minha existência. Se é que a existência tem sentido. Será que se eu não pensasse nisto seria mais fácil existir?

        Por que a televisão não me distrai? Por que os livros já não me encantam mais? Todos os dias eu admiro meu jardim e percebo que ele cresceu e floresceu, nem tenho mais vontade de cuidá-lo, tenho a impressão de que agora ele se cuida. Meus cachorros já não me preocupam tanto, sobreviveram aos meus cuidados. Por que estas coisas acontecem, por que nos sentimos assim?

       Eu vi uma menina crescer e desabrochar e agora me sinto tão atrás, tão no mesmo lugar, que tenho vergonha de comentar. As coisas e as pessoas nos ultrapassam e nós ficamos imóveis como as pedras, esperando que alguém ou alguma situação nos mova e nos lance ao longe. 





segunda-feira, 1 de abril de 2013

São Thomé

        Ontem foi Páscoa e desde que minha avó paterna faleceu não como mais bacalhau na Páscoa. Esta era uma tradição de sua casa, portuguesa da Ilha da Madeira, o bacalhau com batata e grão de bico nunca faltava.

        Havia um ritual, algum filho levava o peixe e ela o preparava com batatas, cebolas, grão de bico e muito azeite. Cada um comia a parte que mais gostava, eu sinceramente adorava as batatas. Depois nos jogávamos pelos colchões no chão e descansávamos amontoados. Era divertido tirar fotografias da minha avó dormindo esparramada pelo chão.

        Mas tudo acabou, um a um eles se foram para o nunca mais, levando consigo o nosso conceito de família. E a Páscoa assim como outras datas são apenas datas. Quando eu poderia pensar que pasaria o dia da ressurreição de Cristo numa cidade cuja principal característica é o misticismo e ainda com um grupo de pessoas que mal conheço. 

        Eu pensei em cada um, observei cada um e aos poucos entendi. São gente como eu, que de alguma maneira estão sós, divorciados, solteirões, desarrumados, traumatizados. Todos tentando reviver algumas alegrias e sensações da juventude, seja na velocidade da moto, seja nas diversões consumíveis, seja nas cordas de um violão. 

        Fui acordada pelas músicas da igreja matriz de São Thomé, as mesmas que eu cantava, e me senti mal. Eu não pertenço mais àquela vida, mas também não sei ainda à qual pertenço. Estamos todos em busca de um lugar para ser feliz, a Páscoa poderia ser um bom lugar, pois ressuscitar é ter uma segunda chance. 

        Discussões teológicas à parte, os evangelhos dizerm que Jesus ressuscitou, apareceu para seus discípulos e lhes mandou que tocassem suas chagas, principalmente São Thomé. Por que suas chagas não desapareceram? Não seria mais miraculoso? Isto me faz pensar que o ressurgir não significa apagar nossas memórias, nossa história, nossas dores e sofrimentos, mas acima de tudo, ressignificá-los. Que todos os dias morremos e ressuscitamos e que isto não é um processo miraculoso e sublime, é a própria dinâmica da vida.