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quarta-feira, 30 de maio de 2012

O canário do reino

          Trabalhava dia e noite no campo, desejava ter o seu lugarzinho ao sol pelo reconhecimento de seus esforços. Mas aprendera com a vida que nem tudo dependia de si, precisava de um milagre que aumentasse suas posses para que investisse e comprasse seu espaço e milagres nem sempre aconteciam.

          Como sua profissão exigia mudanças não ficava muito tempo no mesmo lugar, neste campo estava há poucos anos. Era um campo muito grande e vistoso, com árvores antigas, frondosas e galhos amplos. Não havia quem não o admirasse. Por ser um campo tão bem cuidado, se perguntava o que fazia ali já que excelentes profissionais haviam feito um admirável trabalho. Aos poucos descobriu que sua principal tarefa era podar as árvores para que elas voltassem a florescer e se renovassem. Precisava separar os galhos que se entrelaçavam uns nos galhos das outras para que voltassem a se reconhecer individualmente.

        Não. Esta não seria uma tarefa fácil. De modo algum teria forças para fazer isto. Eram galhos maiores do que si. Desejou desistir várias vezes. Seria uma loucura e seu cansaço pelos anos de trabalho era um fator importante a se considerar.

        Numa destas manhãs pensativas onde tudo parecia justificar sua ida, ouviu ao longe o canto de um canário ainda filhote aprendendo a cantar. Como um flash, cenas voltaram à sua mente. Cenas de sua adolescência e de tudo o que sonhara para sua vida naquela época. Aos treze anos ganhara um casal de canários. A fêmea era toda amarela e o macho amarelo com tons marrons. Eram lindos e cantavam maravilhosamente bem. A fêmea chegara a botar ovinhos, dos quais nunca nasceram filhotes. Precisou retirá-los do ninho para que a passarinha não morresse de inanição. Na época havia se sentido tão egoísta por mantê-los numa gaiola para seu deleite próprio e, teve tanta pena daquele pobre casal sem filhotes, que resolveu soltá-los. Sua ingenuidade não levou em conta o fato deles nascerem em cativeiros e não saberem viver livremente. Mas, em sua ânsia de remissão, soltou-os impulsionando-os aos céus.

        E agora, num momento tão decisivo, ouvia aquele canto gratuito e sincero. Desejando ouvi-lo novamente, permaneceu. Considerou por bem iniciar as podas pelos galhos mais finos e flexíveis, deixando para outro momento, ou até quem sabe, para outra pessoa, a poda dos galhos maiores.

        Aquele treino de canto alegrava tanto sua vida e trabalho que desejava que a manhã seguinte chegasse logo, só para ouvi-lo. Quem teria o privilégio de observar o desabrochar de um pássaro como o canário? E ainda assim, livremente?! Aos poucos o pássaro acostumou-se com sua presença e foi chegando cada vez mais perto, ao ponto de pousar em seu ombro e cantar em seu ouvido. As pessoas ficavam encantadas com aquela cena e sempre comentavam.
         
        Com o passar do tempo percebeu que o pássaro lhe indicava qual galho podar, facilitando seu discernimento e criando um laço de cumplicidade entre duas criaturas tão distintas. Algo que poucos poderiam entender. Se falasse para alguém poderiam considerar loucura: "O pássaro orienta o teu trabalho?!" - perguntariam às gargalhadas. "Em que mundo você vive?" Sabia que era verdade e isto bastava.

        Numa bela manhã de outono, se deu conta de que faltavam poucos galhos finos e que o canário não ficaria ali para sempre. Estava deixando de ser filhote. Em pouco tempo teria que cantar em outras terras. Passou a lutar com o pior dos sentimentos. A posse. Sim, precisava filtrar constantemente suas atitudes. Até onde elas revelavam o sentimento de posse? O desejo de recolher para si aquele pássaro e colocá-lo em sua gaiola, em sua medida e peso? Tê-lo cantando só para si? Amava-o tanto.

       Era tradição festas anual no campo. E a mais popular delas se aproximava. Nesta festa os camponeses apresentavam suas produções. E como acontecia numa parte bastante florida era comum que muitos pássaros aparecerem também, de forma que havia uma mistura de cantos e vozes humanas ao entardecer da festa. Fascinante para quem não estava acostumado. Era realmente um evento muito comentado. Sabia que seu pássaro estaria ali em meio aos outros. Foi quando percebeu estar diante de um grande desafio e a possibilidade de uma pequena grande prova de amor e gratidão.

      Nesta festa acontecia um tipo de premiação que elevava significativamente o status do vencedor. Era a oportunidade que muitos desejavam para sair do anonimato e conquistar seu lugar ao sol. Sabia que suas chances de ganhar, naquele ano, eram grandes. Se o pássaro que alegrava suas manhãs, aproximando-se e cantando em seu ombro, fizesse o mesmo diante de todos. Ah! Com toda certeza ganharia, porque aquele não era um pássaro nascido em cativeiro, não estava acostumado a seu dono e com as asas cortadas para não voar. Era um pássaro livre, espontâneo, que de alguma maneira acreditava e não temia o ser humano.

       Por várias vezes se imaginou em meio àquela multidão eufórica. Sua presença segura e firme no centro e sem ninguém saber de onde, surgiria aquela belíssima criatura, cheia de vida, que pousaria em seu ombro e cantaria o melhor de seus cantos. Todos os corações seriam tocados, as pessoas se arrepiariam e lágrimas involuntárias rolariam pelas faces. Admiração! Sim! Mais do que reconhecimento desejava admiração. Mas o pássaro era livre e poderia não aparecer. Talvez nem se importasse com esta festa. Talvez sua preocupação primeira fosse cantar para ser feliz e terminar de crescer para poder voar e cantar em outros campos. Por isto, precisaria ter certeza de que o pássaro se apresentaria na festa, e esta certeza só seria concreta se o capturasse e o levasse em uma gaiola.

       Lutou com seus sentimentos dia e noite. Perguntou-se porque necessitaria do reconhecimento de tantos outros, além de seu próprio? Olhou-se profundamente no espelho e interrogou sua alma. Por que precisaria da admiração de outros, apenas por um dia,  por algo extraordinário se já vivia o extraordinário todos os dias? Que lugar ao sol seria este além do que já conquistara pelos espaços abertos dos galhos podados? Não. Não queria ver novamente um pássaro na gaiola, e muito menos um canário do reino.

        Esperou pela festa como quem espera por uma diversão, porque o milagre já havia acontecido. 
      

      

     

      

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A Abelha-Princesa


             O desânimo de Abelha-Princesa era tal que despertou a atenção de Abelha-Pensante.

“O que te passa minha Princesa?”

Envolta em seus pensamentos, a princesinha assustou-se ao perceber aquela voz tão conhecida.

“Coisas do reino. Só estou um pouco preocupada”.

               Ajeitando melhor as asas, Abelha-Pensante questionou:

“O quê de tão grave apaga o brilho de uma princesa?”

Com os olhos baixos e falando quase para si mesma, respondeu:

“Acho que não sou a melhor indicada para ser rainha”.

“E o que te faz pensar assim?”, insistiu Abelha-Pensante.

               “Por mais que eu me esforce, estou muito aquém do que a Rainha deseja” - disse tentando disfarçar o nó da garganta.

               Abelha-Pensante que conhecia um pouco dos pensamentos e atitudes das abelhas fez ainda mais uma pergunta para que seu juízo fosse o mais abrangente e justo possível:

               “O que te leva a crer nisto?”

               “Ontem foi o dia de apresentar à Rainha os vários sabores de mel que preparei ao longo dos meses. Segui fielmente as instruções dos mestres, dediquei-me a cada favo como se fosse o único. E, quando os submeti à sua aprovação, esperava um elogio, ou pelo menos uma palavra de admiração por meu esforço. Mas, ao contrário disso, ela não aprovou meu mel de flor de laranjeira, disse que por ser desta flor, deveria estar perfeito.”

               Abelha-Pensante então compreendeu que ali se tratava do velho dilema da busca das referências, da aceitação, do reconhecimento e do amor incondicional. Levantou-se e olhando aquela frágil princesinha, disse terna e firmemente:

               “Vamos voar um pouco”.

               “Obrigada Abelha-Pensante, mas não tenho vontade, preciso pensar”.

               Tocando o rosto da princesinha com suas asas calejadas, Abelha-Pensante disse:

               “Venha minha querida. Pensar compete a mim agora. Você precisa sentir, são os teus sentimentos que estão afetados e não tua razão. Você confia em mim?”

               Olhando nos olhos da velha abelha, princesinha não afirmou nem negou, apenas se colocou em pé dizendo:

               “Está bem, Pensante. Aonde vamos?”

               “Vamos ao centro do campo”.

               Voaram lado a lado sem dizerem uma palavra. Abelha-Princesa deixava-se levar. Quando Abelha-Pensante achou que já deveriam parar, pousou.

               “Aqui é um bom lugar, desça”.

               Princesa pousou e viu ao seu redor uma grande variedade de flores.

               “Agora vou precisar que você feche os olhos”.

               Não lhe interessava mais questionar, já que fora até ali não lhe custaria nada fechar os olhos.

               “Olhos fechados” – disse tentando imitar um tom de brincadeira.

               Abelha-Pensante conduziu-a pela asa até uma margarida e perguntou:

               “Prove o néctar e me diga de qual flor é”.

               “É uma margarida, provavelmente branca”.

               “Muito bem. E esta?”

               “É um lírio amarelo.”

               Abelha-Pensante conduziu a princesinha por uma boa extensão do campo, sempre lhe pedindo para beber do néctar e adivinhar a flor.

               Agora pode abrir os olhos. A abelhinha esfregou os olhos ofuscados pela luz e viu que estavam próximas a um riacho. Sem saber o que falar, esperou que a abelha mais velha se manifestasse.

               “Princesa, você seria capaz de me dizer de qual néctar ao fechar os olhos você se lembra?”

               A abelha pareceu um pouco confusa, havia provado tantos. Mas sim, um ficara em sua mente, porque ao bebê-lo sentiu que além de agradar ao seu paladar, acelerara seu coração.

               “Eu gostei de praticamente todos, mas o néctar do lírio branco foi mais forte. Eu senti uma reação diferente, meu coração acelerou um pouco”.

               Abelha-Pensante que mirava o riacho se voltou para a princesa cujos olhos agora brilhavam e disse:

               “Um dia você será a Rainha. Todas as flores do teu campo são reconhecidas por você. Qualquer mel você poderá preparar, mas o mel do lírio branco será a tua especialidade. Dele sairá o néctar que alimentará as tuas forças nos bons e nos maus momentos. Ele acenderá a chama da esperança em teu coração, todas às vezes que ela se apagar. Este néctar será o teu cedro. E um dia acontecerá de você desejar que ele também seja o néctar de tua princesa”.

               Princesinha então compreendeu que as Rainhas são rainhas porque conhecem cada palmo do seu campo, cada flor. E que podem preparar todo tipo de mel que desejar, mas que mesmo assim, não são capazes de abrir mão das próprias preferências e pontos de vista.

               “Quer dizer que eu não devo importar-me com sua observação sobre meu mel?”

               “Quer dizer que ao importar-se você demonstrou respeito e admiração, pois não se achou à sua altura. E isto é digno de uma princesa. Mas foi, principalmente por você se importar que pôde descobrir a si mesma como princesa”.

                 

              



                


sábado, 26 de maio de 2012

As pedras de Paraty


Num destes dias permiti que o espírito da Dita baixasse, porque confesso não ter muito prazer em incorporá-la, não que eu seja uma pessoa pouca limpa, mas defendo a ideia de manter tudo bem organizado, assim não parece que está sujo. Voltando ao espírito de Dita, permiti que ela me possuísse e saí limpando tudo. Minha escrivaninha sempre a deixo por último, já que não se restringe apenas à limpeza, mas a um verdadeiro ritual de desobsessão. Analiso cada papel, apontamento, sobras e quinquilharias. O mais interessante é que quase sempre não me lembro do motivo de haver guardado tais coisas. 

Estava quase terminando quando minha mão bateu contra algo, lançando-o ao chão. Pelo barulho que fez, temi haver quebrado. Não me lembrava de deixar qualquer coisa em cima da escrivaninha que pudesse quebrar. Agachei-me procurando o que seria. Ao olhar embaixo da estante de livros vi uma pequena pedra, e então, uma história adormecida despertou.

 Acabara de completar trinta e cinco anos. Estava num novo momento da minha vida, pois há apenas seis meses havia saído de um casamento mais ou menos longo. Tinha resolvido deixar o cabelo voltar a crescer, pois assim como as de Sansão, minhas forças cresceriam novamente. Um feriado se aproximava, em uma semana seria Corpus Christi. Evento que me remetia a outra vida passada e que também desejava deixar por lá. “Vamos à Paraty?” – motivou-me minha irmã. Sem dúvidas Paraty seria um bom lugar para passear, pelo que escutava aquele era um lugar mágico. Reservas feitas, passagens compradas e uma mochila nova nas costas. Presente de aniversário da irmãzinha.

Tudo o que vimos e vivemos naqueles três dias mágicos merecem cada um, sua própria história. Os casarões antigos, as ruas de pedra, o mar, as ilhas, os passeios de barco me faziam pensar em tantas vidas ali vividas, quantas histórias, quanto passado e presente. Há uma energia diferente naquelas ruas e pular de um barco no meio do mar era algo que eu sonhara tantas e tantas vezes.

No último dia resolvemos, pela manhã, conhecer uma ilha famosa da região. Famosa porque a única coisa que havia na ilha era um bar. Atravessamos numa pequena lancha muito agitada pelas ondas. Ao pisar na ilha avistamos as mesinhas do bar, nos sentamos e pedimos uma cerveja que fora servida em taças, balde de gelo e um preço exorbitante. Mas, valeria a pena, pois não voltaríamos ali, justificamos.

Após alguns goles resolvi andar um pouco ao redor da ilha. Sentimentos de quem lera a Ilha Perdida no ensino fundamental. Cheguei a um ponto cheio de pedras, eram pedras lisas e porosas, muitas pedras. Sabia que não deveria levar nenhuma dali por uma questão ambiental. Peguei uma delas, senti sua textura, peso e temperatura. Seria justo levá-la? Aqui não estava mais em jogo o ambiente, mas o fato de retirar algo de seu habitat natural, separar de seus iguais. Ela poderia sentir-se deslocada, infeliz por deixar o mar que a cada cinco ou seis segundos a banhava para, em minha casa e por meu capricho, virar suporte de papel.

Permaneci por algum tempo lutando com meus sentimentos de deslocamento. Até que um raciocínio prevaleceu. Eu levaria duas pedras para que uma fizesse companhia à outra. Estas pedras e o sentimento de culpa que eu desenvolvera por havê-las retirado de sua origem me obrigariam a voltar em outro momento e devolvê-las. Seria uma espécie de compromisso. Como e onde estaria eu dali a alguns anos? Não havia eu também me deslocado a tantos outros lugares e voltado às minhas origens?

Recolhi uma grande e outra pequena, numa espécie de filiação, irmandade, forte e fraco, algo assim. Vieram aconchegadas em minha mochila nova. E desde então estão sobre minha escrivaninha. Já voltei à Paraty duas vezes após esta viagem e não tive coragem de levá-las. Pensava que não teria mais o direito de deslocá-las novamente, pois poderia acontecer de suas iguais não estarem mais lá, seja porque aos poucos as ondas do mar as conduziram a outras partes da ilha, seja porque o dono do bar resolvera expandir seu negócio.

Ao ver a pedra menor debaixo da minha estante de livros, compreendi que elas haviam me seduzido naquele dia, porque desejavam conhecer outros tipos de mares. E, agora eu tinha a obrigação de deslocá-las para que continuassem sua viagem e quando fosse o momento certo voltassem à sua origem, não necessariamente por minhas mãos. A menor deveria ir primeiro, não porque tivesse preferência, mas porque já sabia para onde queria ir.






quarta-feira, 23 de maio de 2012

O último banho


Acabei de tomar meu último banho. É engraçado pensar assim. Na verdade só me dei conta quando já estava debaixo do chuveiro. Não que isto seja tão relevante, mas a simbologia das datas afeta de algum modo nosso psiquismo. Vemo-nos movidos às releituras, resgates pessoais, somos impelidos às novas posturas, enfim, cremos que um novo ciclo termina e outro inicia.


Muitas datas nos remetem a tais contextos, Natal, Ano Novo, Páscoa, mas, o aniversário de nascimento é sui generis. Mesmo que outra pessoa faça aniversário no mesmo dia, consideramos nosso, apenas nosso aquele momento. O momento em que saímos do ventre, da bolha d’água, do seio materno e entramos para o mundo.


O ventre é como uma espécie de plataforma. Viemos de um lugar e agora esperamos para ir a outro. É o lugar do nada, da espera, do silêncio, da individualidade e da solidão. É o lugar perfeito para aprender a esperar. Esperamos que haja para nós um abrigo, leite, colo e sorrisos. Esperamos que nos ensinem a falar, a andar, a controlar nossas necessidades mais básicas. Esperamos que conversem conosco, que nos considerem nas conversas e que nos levem a passear. Esperamos que nos aceitem como surgimos e nos amem. Amem-nos da maneira mais intensa que puderem.


Não somos passivos na espera. Tudo em nós se transforma. Tudo surge. Cada órgão ao seu tempo. E sem que percebamos este ciclo se repete a cada dia, a cada ano, a cada decisão que tomamos. Cada vez que chega aquele dia, renovamos nossa espera. Espera de realizações que ainda não se realizaram. Espera de experiências que ainda não tivemos. De amores que ainda não vivemos.


            Não sei exatamente como devo me sentir, pois quase nunca consigo relacionar minha idade às convenções sociais. Por vezes sinto-me cansada, como se já houvera vivido oitenta anos. Por outras, sinto-me como se nunca houvesse saído da adolescência. Há certo conflito em mim.


Alguns trens já passaram e não voltarão. Já para outros não há garantias de que passarão por esta plataforma. Resta-me esperar. Assim como esperei no ventre materno. Esperar o que de fato importa e faz sentido.


Esperar o momento do reencontro, do vir a ser, da colheita de tudo o que se plantou, da surpresa agradável que nos muda de plataforma, dos contratempos, do inevitável, do acaso, da noite e do dia outra e outra vez.




segunda-feira, 21 de maio de 2012

O Anjo das Muitas Faces


 Lembro-me de meu aniversário de 23 anos. Era prática na fraternidade comemorar o aniversário das missionárias com uma longa oração, onde cada uma relacionava o evangelho do dia com a vida da aniversariante. Um dos poucos momentos onde recebíamos algum tipo de elogio. Contudo, se ainda não tivéssemos os votos definitivos éramos quase insignificantes. Isto servia como uma espécie de treino de humildade. Sendo o meu aniversário próximo ao de outra missionária de votos definitivos, o ritual era mais simples ainda, para não ofuscar o da outra e para que eu aprendesse o dom sublime da resignação.

Estávamos à mesa, após as orações, as quais na verdade nem me lembro do que rezei. Não ríamos muito, ao contrário do costume, aliás, eu estava bastante infeliz. Quando de repente ouvimos um grito de gato. Não tínhamos animais domésticos, apenas galinhas para o abate. O silêncio que reinava enquanto comíamos aquele bolo seco de sentimentos fez com que o grito fosse mais intensamente percebido. Aproveitando-se do meu imaginário produtivo, a superiora ferozmente, como se ela mesma assumisse a pele do gato, dirigiu-me seu olhar mais perturbador e disse:

- É você quem atrai estas coisas. – Como se aquele grito fosse um mau-augúrio.

Senti um frio na espinha e como em tantas outras vezes achei que minha falta de sorte era evidente. Sorri tristemente e baixei os olhos sem nada dizer. Havia naquela mulher algo de diabólico que, sem eu saber por que, refletia em mim. Seus olhos faiscavam quando me viam, seu pescoço ficava vermelho como o das galinhas quando mortas e penduradas de cabeça para baixo. Sua testa suava e com um esforço medonho, controlava seus instintos mais primitivos.

Ela exercia sobre mim um controle imaginário, já que eu, dada a escrever minhas fantasias, por vezes permitia que sua loucura me afetasse. Mas sem que eu me desse conta, o que lhe enraivecia era sua incapacidade de dominar e controlar os meus sonhos mais profundos de afeto, felicidade e esperança. Esperança de que um dia eu seria verdadeiramente feliz.

Os anos se passaram e além desta vida vivi outras, tão fielmente como um cão vira-lata embaixo da ponte junto ao seu dono bêbado. Tão intensamente quanto uma poetisa romântica e platônica. Até que minhas forças mais internas ruíram, restando-me a sobrevivência. Às vésperas de cumprir 40 anos, e vivendo a mais serena felicidade, volto àquele momento como expectadora e não mais como atriz. O que me permite fazer uma releitura mais fiel.

O que realmente aconteceu naquele dia. Vejamos:

Minhas súplicas de felicidade foram elevadas a Deus, e Ele na sua infinita misericórdia, perguntou aos anjos de plantão, qual deles se encarregaria de mim. Houve ali uma pequena discussão, alguns já estavam ocupados cuidando de gente famosa como a Angélica, Márcio Garcia, Cláudia Abreu, Luciana Gimenez e outros tantos. Não queriam se ocupar de mim, uma pobre mortal nas garras de uma religiosa-diabólica, paradoxalmente falando. Até que um deles disse impulsivamente:

- Eu vou vai! Deixa comigo que eu cuido dela.

Admirados e desconfiados olharam-se pensando com seus botões celestiais: “Será que ele dá conta?” “Sei não...” “Deixa, vamos ver no que é que vai dar.” "Ainda é estagiário". Deus na sua infinita benevolência sorriu dos ciúmes que se estabelecera e voltando à sua onipotência ordenou: “Que seja você, Anjo das Muitas Faces!” Era chamado assim, porque tinha o hábito de brincar na arena celeste imitando as faces dos humanos.

Alegremente, Anjo das Muitas Faces disse:

- Obrigado, Senhor. Cuidarei dela com todas as minhas forças.

Deus, que admirava a disposição dos jovens anjos, gargalhou. Fazendo com que todo coro angelical o imitasse. Sentando-se ao lado do Anjo, abraçou-o contra seu peito e paternalmente disse:

- Meu querido Anjo, leve consigo o meu afeto, leve o quanto couber em seu coração angelical porque esta criatura que você cuidará estará com o coração ferido e desconsolado. Resistirá a ti muitas e muitas vezes, você precisará ter paciência, e como uma aranha que tece sua teia ao redor da presa, você terá que tecer a teia do afeto ao seu redor.

Lançando um olhar filial aos olhos de Deus, Anjo sorriu e perguntou:

- Senhor, eu não estava com medo, mas agora, ouvindo tuas palavras, vejo que esta missão pode estar além das minhas forças. Quanto tempo durará? E se eu falhar?

O Senhor que é também um Deus maternal envolveu Anjo em seus braços e amavelmente sussurrou em seu ouvido:

- Assim como a trindade você terá três anos. E não falhará meu amado Anjo.

- Como o Senhor pode ter tanta certeza se deu a estas criaturas o livre-arbítrio?
- Porque mesmo sem ter consciência, foi por você que ela pediu em suas preces mais íntimas, e principalmente, porque um coração, por mais ferido que esteja não resiste ao amor gratuito e teimoso de um anjo estagiário.  
















sábado, 19 de maio de 2012

A pipa

              Ele não era muito presente e em sua paternidade imatura lutava contra seus próprios fantasmas. Numa das raríssimas vezes, e por um motivo que somente ele sabia, concedeu-me um pouco de sua atenção e decidiu ajudar-me a fazer uma pipa.

              Sim, uma pipa, já que as bonecas e panelinhas não me atraiam nas brincadeiras. Se fosse para brincar de mamãe ou de casinha, o faria de adulta. Desejava divertir-me de verdade e me parecia que somente aos meninos lhes fora dado este direito.

             Comecei pela capucheta de jornal. Um horror. Corria de um lado a outro desesperadamente e quando conseguia olhar para trás lá estava ela esbodegada no chão. Eu queria mesmo uma pipa que voasse muito alto ao ponto de eu ter medo de não conseguir trazê-lo de volta. Por mais que tentasse não conseguia calcular bem o peso, a quantidade de cola, o tamanho da rabiola, a envergadura do estirante. Era muita engenharia para uma menina de sete anos.

            Então numa noite, decidiu me ajudar. Cortou as varetas e em pouco tempo eu via uma estrela. Fiquei fascinada com sua inteligência. Meu pai havia feito mais do que uma pipa, havia feito uma estrela! Nenhum dos meninos tinha igual. Isso mesmo, meninos! Porque as meninas me cansavam com seus gritinhos e puxões de cabelos. 

            Meu desejo em soltá-lo era tanto que se não fosse noite teria ido à rua imediatamente. Como eu poderia dormir? Tamanha era a ansiedade. Contudo, dormir seria a melhor maneira das horas passarem logo, o problema era conseguir desligar a minha mente que o imaginava no ar com aquela rabiola em forma de arco. E se ele não subisse? Subiria, meu pai era inteligente, não teria feito algo que não funcionasse.

          Já não me lembro da hora em que adormeci, mas recordo-me de no dia seguinte ir o mais depressa possível no bar comprar linha dez. Precisava ser uma linha adequada, forte, senão eu o perderia, pois o vento a romperia. Não, nem pensar em perder minha pipa, minha estrela! 

          Precisava agora encontrar uma lata que coubesse na minha mão para enrolar a linha. Por incrível que pareça era muito difícil encontrar uma lata. As únicas mais disponíveis eram de óleo, muito grande para as mãos de uma criança. Acho que usei uma de achocolatado.

          Toda a manhã se passara neste ritual preparatório. O almoço estava pronto, teria que comer mesmo sem fome, era a condição para poder sair e ver a minha estrela no céu. Eu tinha uma estrela!

         Finalmente tudo o que eu precisava estava à mão. Decidira ir à rua de cima, porque ali não passavam muitos carros. Caminhava orgulhosa sobre o pedregulho das ruas sem asfalto, ora batendo o dedão em pedras grandes, ora tendo que parar para arrumar a correia do chinelo que escapava. Fui até o final da rua, analisei o vento, soltei um pouco de linha e corri. Corri como se pisasse em nuvens. A pipa começou a subir, mais alto que as árvores, e eu, no meu êxtase não percebi que a rabiola havia enganchado numas folhas. A pipa então rodopiou e parou entre alguns galhos altos demais para que eu subisse. Tinha medo de altura.

         Sentei-me próxima ao tronco. Estava sozinha com minha angústia e decepção. Não adiantaria chamar minha mãe, ela não subiria na árvore. Meu pai chegaria à noite e certamente ficaria tão decepcionado com minha incapacidade de cuidar de algo que me fizera que nem se daria ao trabalho de resgatá-lo para mim.

        Desconsolada, quase chorando percebi uma presença, um jovem estava ao meu lado:

        - Esta pipa é tua? - perguntou num tom amigável.

       - É sim, mas eu não consigo pegá-lo.

       - Quer que eu pegue?

       - Quero sim - disse eu acreditando que meu fracasso não seria total. Alguém me ajudaria.

       Facilmente ele subiu na árvore e sem nenhum dano o retirou de entre os galhos. Meu coração batia nervosamente e eu acompanhava cada movimento seu. Quando baixou, eu estendi as mãos, mas ele sem nenhuma piedade ergueu os braços o mais alto que pôde e disse:

       - Agora ele é meu, porque fui eu quem o achou.

      Confesso que por muitas vezes pensei em sua impiedade. E ainda hoje posso ver seu rosto escancaradamente divertindo-se de meu desespero. Considerei-o um ladrão e me culpei por ficar paralisada e não me jogar em cima dele tentando resgatar minha estrela, ou pelo menos, ter-lhe lançado uma pedra. Mas, hoje, creio que ninguém rouba nossa estrela, nós a perdemos por nossa imaturidade, medos, insegurança e ansiedade em vê-la brilhar.  



      






    








  
        











quinta-feira, 17 de maio de 2012

A Reprovação

              Ao pisar pela primeira vez naquela fortaleza, sentira-se tão pequena quanto uma formiga. À esquerda um grande painel com um homem sorrindo e crianças ao seu redor, à sua frente um pátio enorme e dois andares de salas. Mais tarde viera saber que aquele homem era Dom Bosco, quem durante a Segunda Guerra Mundial recolheu, cuidou e educou as crianças órfãs. Tão logo soubera de sua vida, passara a ler sua biografia e feitos santificados, considerando-o uma espécie de ídolo.

             O universo com o qual sonhara durante vários anos e que somente desfrutava pelo árduo sacrifício de sua família agora lhe oprimia. Não se reconhecia nas conversas nem das garotas e muito menos dos garotos. Os professores lhes intimidavam com seus métodos tradicionais e autoritários. Apesar das aulas de Literatura estimularem seus devaneios, precisava passar nas disciplinas de exatas. Muito atraentes eram as poucas aulas de psicologia e o condicionamento de Pavlov; mais atraente ainda eram os tristes olhos da professora. Não vira até então olhos tão tristes, superavam os de sua mãe.

             Conseguira fazer uma amizade feminina, com quem, as raríssimas vezes que tinha dinheiro, dividia uma coxinha, enquanto sentadas nas escadas vermelhas e reluzentes de cera debatiam o panorama social e seus interesses pela política de esquerda. Amizade masculina nem pensar. Os garotos eram propriedade de algumas que desfilavam pelos corredores como modelos.       

            As aulas de inglês lhe soavam como grego. Da professora nem a fisionomia, nem a voz e nem sequer o nome lhe sobrara na memória. Apenas o fato de que na França havia túmulos do ano mil. Sim, lhes contara a professora que todos os anos viajava à Europa. Um dia também viajaria e conheceria suas raízes, ativaria as memórias inconscientes de seus antepassados, mesmo que todos em casa rissem de seus sonhos e com um balde de água fria lhes gritassem: "Filho de pobre não viaja para estes lugares".   

           Não sabia ao certo se havia escolhido corretamente seu curso. A intolerância, a dureza e a falta de afeto norteavam a metodologia da professora principal e lhe bloqueava a mente. Quanto mais desejava aprender, menos aprendia. E uma espiral de fracasso escolar se instalara. Anos mais tarde, próximo ao lançamento de seu livro, desejara convidá-la, talvez, por um segundo, conseguisse fazê-la perceber que seu fracasso não fora total. Mas, ao entrar no colégio e procurá-la, encontrou um ser humano parado no tempo e seco como uma folha que se guarda dentro de um caderno. "Eu não me lembro de você" - disse rispidamente. "Você está atrapalhando o meu trabalho. Como você entrou aqui? Vá embora ou chamo a portaria". Se fosse um pouco menos romântica teria deduzido que esta seria sua recepção. Nestes acasos da vida ficara sabendo que a professora morrera de um câncer que a fizera sofrer terrivelmente.

           Um dia sua única amiga lhe revelara que estava grávida do namorado e, aos dezesseis anos não seria capaz de sustentar ou educar uma criança. Poucos dias depois desaparecera deixando-a mais solitária e deslocada. Sua fragilidade emocional atraiu alguém que se fizera passar por uma espécie de irmã. Coisas da adolescência. Caíra numa teia de compensações alheias e, quando percebera estava sendo medida, pesada e julgada.

          A punhalada final deu-se no concelho de classe. Por algum motivo acreditava que seus mestres enxergariam algo dentro dela que justificasse uma chance. Fosse sua postura sempre calada e assustada, ou mesmo os conflitos que a atormentara. Contudo, a sentença já estava definida e declarada.