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terça-feira, 10 de abril de 2012

Meu direito ao voto


             Num destes dias em que a gente já levanta cansada, desliga o despertador automaticamente, toma um banho, ingere aquele mesmo café, passa um borrão na cara, entra no carro, fecha o portão, liga o rádio na mesma rádio de todos os dias e zumbimente, se é que existe esta palavra, vai ao trabalho, foi que me dei conta de que estamos em ano eleitoral. Isto porque a propaganda transmitida incentivava o jovem de dezesseis anos a adquirir seu título de eleitor e votar. O jargão era qualquer coisa sobre fazer a diferença, o que me trouxe à consciência uma doce e terrível lembrança dos meus dezesseis anos.

Havíamos nos conhecido no grupo de perseverança da igreja católica, cuja padroeira era para mim não uma santa, mas um ídolo: Santa Joana D`Arc. Uma mulher vestida de soldado! Literalmente uma batalhadora, considerada por muitos uma louca. Débora me havia sido apresentada por uma colega da escola. Um ano mais nova do que eu e completamente maluquinha. Maluquinha de pedra.

Ela sempre usava uma saia comprida preta e uma blusa de gola alta branca. Tinha cabelos compridos e sempre os mantinha preso, pois era bastante armado. Lembro-me do seu sorriso e dos dentes encavalados na frente. Era exagerada ao sorrir, praticamente escandalosa.

Aos sábados pela manhã nos encontrávamos no salão paroquial. Ali cantávamos, tocávamos, encenávamos, debatíamos e, claro, paquerávamos. Tínhamos naquele espaço o nosso cenário. Sabiam nossos nomes e nos respeitavam. Demorávamos o máximo que podíamos no desejo de não nos separar, de não voltar para a casa e depararmo-nos com os afazeres domésticos, as broncas dos pais, as birras dos irmãos menores e nossa própria solidão interior.

Desenvolvemos um tipo de relacionamento onde eu era considerada a mãe e ela a tia. Nossos colegas eram mais jovens ou mais velhos dois anos ou menos, mas nos tratavam assim como mãe e tia. Sempre que podíamos organizávamos um baile na casa de alguém, cujo pai e mãe concordavam. Então, a motivação era voltar para casa, preparar um bolo ou comprar um refrigerante, colocar a roupa de festa e voltar a pé para a casa do anfitrião. Dançávamos Família do Titãs e Polícia, nos emocionávamos escutando Monte Castelo e nos sentíamos revolucionários cantando Zé Geraldo, principalmente Milho aos Pombos. Às vezes acontecia uma dança romântica com algum garoto interessante, um abraço mais apertado e até um beijo.

Estudávamos na mesma escola. Ela estava um ano atrás de mim, eu no primeiro ano do médio e ela na antiga oitava série. Então nos víamos todos os dias. Não havia facebook, o que usávamos eram cadernos de enquete ou diários. Ah...era uma verdadeira prova de amizade quando uma amiga nos deixava ler seu diário ou preencher seu caderno de enquete. Nossa maior preocupação era ler as respostas dos outros.

Vivíamos num tempo político difícil.  Algumas vozes começavam e levantar-se a favor do povo e dos pobres. Foi nesta época que descobrimos a política de esquerda e começamos a escolher nossos ídolos: Che Guevara, Nelson Mandela, Gandhi, Raul Seixas e até nossa coordenadora da perseverança, especialmente para mim.

Seus pais eram extremamente rigorosos, não a permitiam sair se não fosse para a igreja, então fazíamos nossas reuniões e debates dentro da igreja. O máximo que nos permitiam era ir à feirinha aos domingos. Andávamos a pé, por cinco quilômetros e usávamos o dinheiro do ônibus para comprar balas geladas.

Nosso sonho? Comprar uma boina igual ao Che Guevara e votar. Era 1989, ano eleitoral para presidente da república, quer honra maior do que votar em um candidato a presidente? Quanta confusão nós fizemos na escola com debates fervorosos. Eu sempre era levada para a salinha para uma conversa ao pé do ouvido.

Eu teria direito a votar, porque completaria dezesseis naquele ano, antes das eleições. E foi uma das primeiras coisas que fiz após meu aniversário. Ela teria que esperar as próximas eleições. Sempre me fazia prometer que contaria como era a urna, que sensação eu teria, como era a cédula e tal.

Estávamos no mês das quermesses e competia ao nosso grupo cuidar do oferecimento das músicas na festa. Neste fim de semana ela não poderia trabalhar porque viajaria à Bragança Paulista com seus pais, irmão e dois pedreiros. Seu pai comprara um terreno e tinha planos de construir uma casa de campo. Chegou a convidar-me, mas teve que desfazer o convite já que não caberíamos no carro. “Fica para uma próxima” eu falei.

Em grupo e sem sua alegre presença trabalhamos nas apresentações das músicas no sábado, dançamos a quadrilha invertida onde os garotos se vestem de mulher e as mulheres de homem e no domingo esperávamos que ela pelo menos passasse pela festa para comer um doce. O que não aconteceu.

Na segunda-feira fui à escola pela manhã e não a encontrei. Na segunda aula uma inspetora chegou à porta e chamou pelo meu nome dizendo que havia uma pessoa a minha procura. Apreensiva, desci os três lances de escada e avistei uma amiga do grupo de jovens. Ela me olhou nos olhos e disse: “A Débora não voltou para casa ontem...”. Sua pausa paralisou minha respiração, num daqueles momentos em que o cérebro não consegue processar. E completou: “E ela também nunca mais voltará”.

Foi um dos velórios mais tristes e inexplicáveis dos muitos que já vivi. Em uma sala quatro caixões completamente lacrados, sendo o branco de seu irmão de oito anos. Em outra sala dois caixões também lacrados, duas viúvas e seis filhos órfãos. Soubemos que ela fora reconhecida por sua saia preta e longa. Tudo por culpa de um caminhão que trafegava na contramão na rodovia Fernão Dias.

Até hoje, todas às vezes que me dirijo à urna é como se eu lhe rendesse um tributo.








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