Pela primeira vez em quarenta anos quero agradecer à morte por sua leveza para comigo, por seu carinho. Pela primeira vez a recebo pacificamente, sem revoltas, sem perguntas, sem querer saber o que fizera eu para merecer tantas perdas brutas. Pela primeira vez deixo ir alguém que de forma tão especial marcou minha vida: minha bisavó.
Partilhávamos o mesmo dia de aniversário e sempre tive uma ponta de orgulho por ser sua primeira bisneta, de tantas outras e outros. Sempre que posso conto sua história de haver tido por sogra uma escrava, a quem devo minhas canelas finas, minha bunda grande, meu fascínio pelos atabaques e, meu anseio por liberdade e justiça.
Partilhávamos o sonho de morar no interior. Sem pensar duas vezes eu teria ido com ela. Quantas vezes dormimos na mesma cama e ela me contou histórias de saci-pererê, acreditava piamente nestas coisas. O gosto do seu feijão, o sonho, a maneira como segurava meu rosto e me beijava e que, hoje, timidamente tento reproduzir com os jovens que me cercam, porque esta é para mim sua maior referência: como beijar um jovem o mais maternal e amorosamente possível, sempre olhando em seus olhos. Não tenho seus lindos olhos claros, mas tento ter a sua mesma intensidade.
Foram 101 anos! Muitos devem ter sido os seus pecados, mas engraçado, por mais que eu os soubesse, nunca alteraram meus sentimentos e minhas lembranças. Não que eu fosse uma bisneta presente, principalmente nos últimos anos. Não sei se devo me arrepender de não tê-la visitado neste último aniversário. Seria fácil jogar a culpa nos compromissos, na falta de tempo, mas a verdade é que eu tinha medo. Medo de que ela não me reconhecesse, mas, principalmente, medo dela me reconhecer e sorrir largamente e segurar meu rosto e beijá-lo várias vezes como sempre fazia. Eu me sentiria pequena demais, inútil demais...
Siga em paz vó. E por favor, junte-se a todos os outros e outras que olham por mim. Ainda hoje, eu disse a uma garotinha muito especial que nossa única certeza é a de que vamos morrer. Eu gostaria muito de ter mais uma certeza: a de que um dia voltaremos a nos encontrar.

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