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Gosto de compartilhar pensamentos e vivências, porque ao retirá-los de mim posso enxergá-los melhor.

terça-feira, 30 de abril de 2013

O poço

        Aqui em casa tem um poço de nove metros, sei que há poços mais rasos e outros mais profundos, mas o meu tem nove metros de escuridão e já estive dentro dele várias vezes. O mais cruel de cair num poço é que ninguém te vê, você literalmente desaparece. Quando você é do tipo que chama pouca atenção, que não está sempre em evidência por algum motivo, a probabilidade de você passar mais tempo dentro do poço é maior, porque não sentem a tua falta.

       Para sair do poço há dois caminhos, um é você subir sozinho da maneira que conseguir, arragando-se no que for possível. Outra é gritando por socorro. O problema de gritar por socorro é descobrir que quem virá te salvar não será exatamente quem você pensava que estava ao seu lado, quem você imaginava que perceberia a tua queda e sentiria a tua falta. 

        Acredito que muitos tombaram ao meu lado, também cairam em poços e eu não percebi. Acredito que muitos esperaram mais de mim e eu não dei. Porque viver é isso, um eterno desencontro. 

         Na escuridão do poço, ainda sem saber como sairia dele, eu ouvia ecos de palavras que ressoavam do lado de fora. Palavras sobre mudanças, transformações e oportunidades, ao mesmo tempo que vivia a angústia do pior dos desencontros, o de minha mente com meu coração. Diagnostiquei-me esquizofrênica emocional por manter amores imaginários e viver quase como autista num mundo romântico não correspondente ao mundo real. 

        É comum as pessoas passarem e não ficarem. Elas se aninham por um tempo e depois voam, alguns literalmente morrem, o que dá um desespero absurdo e uma vontade louca de dizer: "fica comigo", porque este é o grito do fundo do poço. Mas de que adiantaria se elas têm os seus destinos, as suas escolhas e você não faz parte delas?

        Tenho a sensação de nunca haver feito parte das escolhas de ninguém, sinto que apenas aconteci na vida das pessoas, desde meus pais que não me programaram, minha mãe que optou por outra família, meus amigos que se foram, namorados que perdi, marido do qual me divorciei, etc, etc. E aí eu ouço as pessoas me dizerem que eu tenho um escudo, que eu faço sempre igual. O fato é que existe um segredo e poucas pessoas têm coragem de assumi-lo. Quando nos expomos, como faço agora, damos ao outro a chave da porta do quartinho de nossos terrores, e o ser humano é curioso, em algum momento ele abre. Por mais que você diga e peça para não fazê-lo, um dia o outro abre tua caixa de Pandora e você abre a do outro. E o que acontece? Nos assustamos com o que vemos, com o que descobrimos nos vamos, não por maldade, mas por não saber o que fazer.

       Eu ainda não sei ser diferente e me pergunto se é correto sofrer tanto desejando sê-lo. Porque pode ser que esta seja a minha verdadeira natureza, apenas passar pela vida das pessoas e ser grata por isso. Ser alguém que contribuiu por um momento. Pode ser que eu seja uma errante nesta terra árida dos sentimentos alheios e cair no poço seja uma maneira de refrescar-me e eu ainda não saiba e pode ser que tudo não passe de uma alucinação de minha esquizofrenia emocional e pode ser que eu esteja sendo mais ingrata do que grata, mas na escuridão do fundo do poço fica difícil enxergar. Eu preciso de vozes que me chamem constantemente, que me digam: "eu estou aqui, fica calma que vou te ajudar a sair daí". "Você não está me vendo mais eu te vejo". Por enquanto eu percebo a luz, mas tudo está em silêncio.  

segunda-feira, 29 de abril de 2013

O pássaro

        Quando criança meu avô tinha pássaros em gaiolas. Eu sonhava em soltá-los, achava um absurdo prender um ser naturalmente livre. Uma vez ele esqueceu a gaiola aberta e o sabiá não fugiu o que não entendi. "Ele não foi embora porque pássaro que nasce em gaiola não sabe viver na natureza, ele morre". Isto me pareceu mais cruel ainda. 

        Eu sou um pássaro numa gaiola, acho que é por isso que fico extasiada quando encontro um ninho em meu jardim. Um pássaro na natureza é fascinante, ele faz seu ninho onde se sente seguro e depois voa para onde quiser. Nós só desfrutamos de sua presença aquele tempo.

        Um pássaro numa gaiola é objeto de admiração, mas não de amor. Na gaiola o pássaro pode cantar e encantar aqueles que o ouvem, mas não lhes preenche o coração. A gaiola sempre será seu limite de existência. Ele não se tornará ágil pois não terá que defender-se de predadores. Não será fértil, pois não polinizará os campos. 

        Eu sou definitivamente um pássaro numa gaiola, meu canto às vezes encanta porque sei usar uma ou duas frases de efeito, nada mais. Sei falar sobre o céu sem nunca ter voado, sei falar das estrelas sem nunca ter dormido ao relento.

        Ouço as pessoas me dizerem: "Se arrisque mais, voe, se lance", e eu não sei o que isso significa. Sei apenas que mudaram a minha gaiola de lugar porque chega uma hora em que a família quer viajar e o pássaro na gaiola se transforma num estorvo. 

        

domingo, 28 de abril de 2013

Domingo

        Eu o-d-e-i-o domingo! Além de escrever eu gostaria de gritar, de uivar esta frase, mas o bom censo me obriga a não fazê-lo. Domingo é o dia da constatação, a constatação de minha solidão, do quanto a minha vida é desprovida de importância.

       Passei meu dia pensando nisto, talvez seja desperdício, mas eu precisava entender. Empunhei minha tesoura de poda e liberei alguns sentimentos na unha-de-gato crescida do muro. 

      Eu estou no limite das minhas forças emocionais, a sensação que tenho é de que cada vez aguento menos os trancos. Sinto uma canseira eterna, existencial e corporal. Às vezes eu gostaria de sair do meu corpo e me olhar vivendo para ver se consigo entender qual é a imagem que passo de mim e conseguir compreender por que é tão difícil as pessoas que me cercam enxergarem minhas angústias, meus medos e minhas carências. 

      Para quem tem família o domingo é dia de reunião, de falação, de visitas, mas este não é o meu caso. Na verdade nunca foi. Meu pai não fazia questão nenhuma de passar os domingos com a família, sempre preferia os amigos. Depois que ele morreu minha mãe se achou no direito de fazer o mesmo. Ou queria dormir ou sair com seus amigos, os filhos lhe eram um fardo. Eu tinha o hábito de ajoelhar-me à sua frente e lhe implorar que me levasse para dar uma volta, um passeio. 

      Depois, quando entrei para a comunidade de jovens meus domingos eram mais alegres, íamos à missa, fazíamos picnic ou tínhamos algum evento. Mas minha mãe começou a não gostar e me fazia me sentir uma má filha por não estar em casa para cuidar dos meus irmãos. 

     Passei sete anos numa instituição onde eu não podia sair nem para visitar minha família e os domingos eram dias de trabalho, nem sequer a televisão eu podia ligar para assistir. Depois me casei e vivi uma imensa solidão na mais cruel rotina de almoçar todos os domingos na casa da sogra. 

      Nestes anos em que estou livre, fui construindo uma rotina própria onde eu não me sentisse só já que eu teria apenas eu por mim mesma. Tudo estava muito bem e de repente me vejo solitariamente acompanhada, esperando por uma mensagem ou um telefonema, desejando que alguém me pegue pela mão e me diga: "vou te levar para passear, você merece". Esperando uma visita ou pelo menos uma satisfação. 

      Acho que todas essas minhas experiências me atrasaram o crescimento emocional, porque eu ainda me importo com o que as pessoas sentem. Eu espero uma notícia como uma criança. Se alguém diz que vai me ligar eu acredito e espero, se alguém diz que vai me visitar eu arrumo a minha casa e espero. Eu espero um bom dia, eu espero um boa noite, eu espero a pergunta sobre como foi o meu dia. É muito mais fácil estar sozinha, é menos sofrido, assim não espero nada de ninguém e ouço menos a voz da minha mãe me dizendo o quanto sou ridícula chorando.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Significado

        Na época da minha segunda faculdade tive uma professora que por três anos vivemos uma relação de amor e ódio, na mesma intensidade. O que eu mais detestava nela era o fato de todas as aulas ter que produzir algum trabalho que ela nunca corregia. Simplesmente aparecia uma nota no boletim. Enfim, mas eu gostava de suas aulas, no primeiro ano foi Linguística, no segundo Sociolinguística e no terceiro Psicolinguística.

        Lembro-me das primeiras aulas onde ela nos explicava a relação entre significante e significado. Eu em minha ingenuidade acadêmica num de meus trabalhos tentei explicar a relação entre os dois conforme havíamos aprendido:

                         SIGNIFICANTE  = (neste espaço desenhei uma ovelha)
                         SIGNIFICADO                     OVELHA

        Nunca pensei que a teoria de Saussure me fosse tão útil neste momento. Todo significante precisa do seu significado. Apliquemos isto nas relações humanas afetivas. Duas pessoas se conhecem, se apresentam e dizem seu nome. A pessoa é o significante e seu nome é o significado. Com o passar do tempo, conforme a amizade e a intimidade cresce entre as duas, o significado passa a mudar e uma começa a chamar a outra, por exemplo, de Amiga, de Anjo, de Relaxo etc. Estas palavras são significados assumidos por quem os diz em relação ao seu significante. 

        Agora pensemos, você conhece uma pessoa, convive com ela diariamente. No começo ela te significa por teu título, mas à medida que cresce a amizade e a intimidade ela passa a não te nomear mais, apenas te encontra e diz "oi" e começa a conversar. Então você começa a se perguntar: "O que eu significo para esta pessoa?".

        Basta ver os casais, no começo de namoro eles se tratam por: Meu Amor, Meu Docinho, Minha Vida e tantas outras doçuras. Com o passar do tempo se chamam pelo nome e quando o amor acaba, aí não posso reproduzir aqui, seria impróprio. Ou seja, ao longo da relação o significante permanece, mas o significado muda.

        Acho que estar no limbo é algo assim, é não ter significado já que você não pertence nem ao céu e nem ao inferno. Confesso que é angustiante estar aí.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

A falta

       Observo que transformei este espaço praticamente num diário. Sinto falta de vir aqui e depositar sentimentos e pensamentos que preciso trabalhar, ponderar, administrar. Eu estudo há pelo menos trinta e três anos, tenho uma pasta cheia de diplomas e certificados, mas me dou conta de que nenhuma das escolas por onde passei me educou os sentimentos, é como se eu ainda vivesse na idade da pedra e minha maior expressão de amor fosse dar uma paulada na cabeça de alguém.

     Conscientizar-se disso me parece algo cômico e trágico ao mesmo tempo. Cômico porque minha figura deve ser bastante distoante e trágico porque me causa muito sofrimento. Eu poderia relatar fatos e fatos de uma infância trágica, adolescência conflituosa e decisões equivocadas, mas apenas tornaria tudo auto-piedoso.

     Posso resumir tudo em falta de educação emocional. Faltou tato de quem estava ao meu redor, faltou delicadeza, faltou olhar, faltou toque, faltou perguntar: "O que você tem?", "O que você está sentindo?". Faltou me dizerem que era normal chorar vendo um filme, faltou contar histórias antes de dormir, faltou o beijo de boa noite, faltou o bom dia, faltou o passeio no parque, faltou chutar a bola junto, faltou deitar na grama e me ensinar a encontrar as estrelas, faltou abraço, faltou beijo, faltou tudo o que fizesse em mim crescer o afeto. Pensando bem nem sei como ainda sou capaz de sentir. Tudo está atrofiado e caminhando para a ferrugem. 

     A minha boca se tornou uma arma, porém incapaz de reproduzir as coisas que sinto, porque eu não sei identificar o que sinto, só sei que sinto falta de tudo o que faltou. E quando alguém tenta me dar o que não tive, me sinto como se já não merecesse mais, como se o tempo não fosse mais propício, então me sinto algoz de mim mesma.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Vasos

        Eu não sou boa com vasos, principalmente os que ficam dentro de casa. Aliás, eu só descobri que tenho algum jeito com plantas depois que passei a cultivar o jardim, porque tudo o que eu tenho em vasos, deixo morrer, seja por falta de água, seja por falta de adubo, seja por muito ou pouco sol. 

       Talvez alguém diga: "Qual é a diferença? Se você cultiva uma planta no jardim poderá cultivá-la no vaso", mas isto não é verdade. A planta no vaso depende cem por cento de mim, se eu não regá-la, não adubá-la, não colocá-la devidamente no sol, ela morrerá e como tudo o que está muito próximo de nós, nos acostumamos com sua imagem e corremos o risco de não perceber suas necessidades. 

      Quando eu planto algo no jardim eu exerço a humildade e o desapego crédulo. Humildade porque deixo de pensar em mim mesma como sua única provedora e a entrego aos cuidados da mãe natureza. E desapego crédulo porque passo a confiar de que ela saberá defender-se dos perigos, sejam os ventos fortes, sejam as pragas, e mesmo assim continuará me reconhecendo.

     O desenvolvimento de uma planta no jardim é explosivo, é abundante, não há limite para suas raízes e quanto mais ela cresce mais forte ela fica e por mais tempo estará comigo, não necessariamente ao meu lado, dentro de casa, mas em nosso espaço, o jardim. Se eu quiser vê-la terei que ir onde ela está, faça frio, chuva ou calor. Mas o maravilhoso disso tudo, é que ela estará ali, linda, exuberante, cheia de folhas, de flores e ao seu redor outras tantas que lhe servirão de apoio, de companhia.

       Confesso que dá muito medo passar uma planta de um vaso para a terra, ela fica parecendo frágil e pequenina diante das outras, mas com o passar do tempo, quando eu menos espero, ela está crescida. Desde o começo do ano, tenho tentado passar minha querida rosa para o espaçoso jardim. É natural que nos machuquemos um pouco, ela por ser fortemente remexida e eu por não saber tocar com o devido respeito seus espinhos. 

      Eu a acompanharei respeitando sua adaptação em seu novo espaço e a verei de tempos em tempos, faça chuva ou faça sol, e meu coração voltará a sorrir. 

sábado, 20 de abril de 2013

3 x 4

       O barulho do secador de cabelos me acordou, já estava mesmo na hora de levantar, precisava sair cedo para fazer exames de sangue, um check up de colesterol e triglicérides, estas coisas de gente nos quarenta. Havia dormido bem, ao ponto de perder a noção do fim de semana, às cinco da manhã quis levantar para ir trabalhar, cheguei a acender a luz, mas depois me dei conta de que era sábado.

       Havia planejado ter um fim de semana de descanso e lazer, exceto pela obrigação do exame. Não pensei que tantas pessoas, assim como eu, deixassem para ir ao laboratório num sábado. Quase uma hora de espera. O garrote estava tão apertado que nem senti a agulha. Minha recompensa por não chorar foi uma ficha para a máquina de café. 

     Com o carro cheio de lixo reciclado decidi passar no supermercado e depositá-lo na coleta seletiva, desejando que tivesse de fato um destino útil e que tudo não passasse de um jogo de marketing. Precisava sacar dinheiro para o fim de semana e como sempre, o caixa eletrônico de meu banco não estava funcionando. 

      Ao abrir a carteira para guardar o cartão uma foto saltou aos meus olhos. Estava ali, imortalizado, mais do que um rosto, um lindo momento de alguém muito especial para mim. Sua boca tentava não sorrir, o que sei lhe era difícil não fazê-lo e seus olhos queriam ver longe, desejosos de enxergar além das aparências. A foto para a faculdade. 

     Estas fotos são engraçadas, elas sempre são para algo. Podem ser para uma matrícula num curso, para uma contratação de trabalho, para um passaporte, sempre são para algo novo. Talvez seja por isso que sempre estamos descontentes com elas, porque elas refletem nossas inseguranças e medos, expressam nossas dúvidas em relação ao que virá. Desejamos sempre que elas fiquem melhores e que expressem tudo de bom ao nosso respeito. 

    Com o passar dos anos, quando voltamos a vê-las, podemos reconhecer as fases que vivemos e observar o efeito de nossas escolhas sobre nosso corpo,  e nos damos conta de que não éramos nem melhores nem piores do que imaginávamos, apenas desejosos de saber como seria nosso hoje. 





quinta-feira, 18 de abril de 2013

Fome

        É muito comum escutar: "Tenho um vazio no estômago" como sinônimo de "estou com fome". Costumamos inclusive brincar com tal expressão. Então comemos e nos saciamos, ou seja, completamos com alimento aquele espaço vazio que reclamava seus direitos, alguns reclamam até com sons.

       Algumas pessoas comem mais do que o necessário para encher seu estômago e aos poucos se tornam obesos e infelizes. Creio que seja porque não percebem que a fome que sentem não é de comida, mas de valores como compreensão, solidariedade, misericórdia, compaixão, amizade, amor. E como vivemos numa sociedade que anseia por estes valores mas não sabe exatamente como vivê-los, elas se sentem constantemente famintas.

        O estômago é um mero símbolo das nossas fomes interiores, as quais na verdade estão em nossas mentes e corações. Na adolescência eu gostava muito de escutar um grupo chamado Titãs. Eles cantavam: "Você tem fome de quê?" Sempre levei à sério esta pergunta.

        O vazio do meu estômago está essencialmente nas ausências. Ausências daqueles que perdi sem explicações, fossem levados pela morte, fossem levados pela vida. Foi pensando nestas ausências que tive o ímpeto de tentar visitar uma ex-professora que se tornou uma grande amiga e lá se vão catorze anos de amizade. 

        Ela não estava, deveria trabalhar o dia todo. Fiquei tão feliz por não encontrá-la por este motivo que voltei para casa agradecida. Tudo porque minha querida amiga havia passado pelo menos oito destes catorze anos que nos conhecemos num processo depressivo, por causa de sua infinita fome de amor materno, de amor conjugal, filial e de um verdadeiro sentido para a sua vida. 

        Seu marido lhe havia abandonado e escolhido a bebida. Sua mãe nunca lhe dedicara o afeto que precisava para ser uma mulher segura e seu filho pouco a considerava, assim como seus alunos não a valorizavam. Várias foram às vezes em que minha presença forçou-a levantar-se da cama e pelo menos se sentar para conversarmos um pouco. Várias foram às vezes que a encontrei mais e mais gorda. Ela parou até de dirigir e chegou a passar necessidades financeiras.

        Há uns três anos seu pai faleceu e logo em seguida sua mãe. Os meses que antecederam a segunda morte foram marcados pelo afeto e compreensão mútua, e a alma de minha amiga foi finalmente saciada. Ela me doou todas as flores e plantas do casal, o que para mim é uma honra.

        Eu fiquei muito feliz ao saber que ela não estava porque hoje dedica-se à cuidar de crianças portadoras de necessidades especiais. Deixei meu recado e um forte abraço. A minha fome continua, mas há em mim uma estranha sensação de que de alguma forma todos continuam comigo.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Amores

        A metáfora da borboleta me encanta, toda a questão do casulo, da transformação e tudo o mais. Em algumas fases da vida estamos no casulo e outras somos borboletas. O interessante é que este processo é contínuo e repetitivo, pelo menos para algumas pessoas. Sob este ponto de vista amar faz toda a diferença.

        O que quero dizer é que os relacionamentos seriam impossíveis de não fosse o amor, porque cada um está numa fase. Um dia a pessoa que amo está casulo, outro ela já se transformou em borboleta. Em outro dia eu estou no casulo e de repente viro borboleta. Só o amor pode dar sentido a estes desencontros.

        Sou incapaz de explicar a que tipo de amor me refiro, porque dizem que há amor de pais, de filhos, de namorados, de amigos, de amantes e lá se vão tantos tipos de amores. O que me parece algo angustiante porque cria a sensação de que se eu não viver algum desses tipos de amores eu serei uma pessoa incompleta ou infeliz.

        Esta catalogação nos coloca em situações esquizofrênicas, acho que é por isso que hoje há tanta gente largando mão de definir até sua sexualidade, vai saber. As pessoas querem simplesmente ser amadas e amar. Eu conheço pessoas que amam seu animal de estimação mais do que amam seu marido. Eu conheço pessoas que amam mais seus amigos do que seus pais. 

        A sensação que tenho é a de que amamos a quem nos enxerga como somos, sejamos casulos ou borboletas. Tenho a sensação de que desejamos ser vistos, reconhecidos, descobertos e aceitos. E quando isso acontece nos sentimos amados. Há pais que olham seus filhos e não os veem. Há maridos que olham suas esposas e não as enxergam e vice-versa. 

       Há momentos em que o enxergar fica turvo, não exatamente porque o outro não nos vê, mas porque nós não nos vemos, não nos reconhecemos, não sabemos em qual estágio estamos, não conseguimos nos mostrar. Ser borboleta ou casulo não significa estar na melhor ou pior fase, apenas significa estar numa fase diferente. Há vantagens e desvantagens nas duas. Estes momentos são complexos porque o outro não tem como nos amar, pois não consegue nos ver, não sabe a quem amar. 

        E acontece do outro não nos enxergar e não enxergarmos o outro porque estamos tão próximos que nos acostumamos com o que vemos, amamos tanto o outro que nos acostumamos com sua beleza e fixamos na memória esta imagem, projetada cada vez que a vemos, quase como uma máscara. E de repente, assim como as pessoas com hipermetropia, precisamos distanciar o olhar para ver melhor. 

     Muitos relacionamentos, sejam eles quais forem, terminam por isso. O que não se vê deseja e necessita ardentemente ser amado, mas o outro não sabe a quem amar. Ou então, quando afastam o olhar para ver melhor, tantas são as mudanças, as rugas e as marcas que o outro fica irreconhecível. É nesta hora que entra o que chamo de amor-paciência, amor-esperança, amor-observador, amor-fraterno. Se há tipos de amor, eu prefiro catalogá-los assim. 

terça-feira, 16 de abril de 2013

Frações

        Não sei se ela é minha amiga ou inimiga, não sei se é minha aliada ou rival, o que percebo é que quando ela me possui eu mudo. Altera-se a minha capacidade de camuflar, ou seria pudorar, minhas visões mais internas. Eu falo bruscamente o que falaria com cuidado, eu passo por cima, chuto o balde, destroço o pescoço - no sentido figurado - e depois me arrependo e choro convulsivamente. É de enlouquecer, ou não. Quem sabe seja esta a minha forma mais autêntica de ser, o meu momento coragem.

        A TPM é um dos meus grandes incômodos, antes porque eu nunca sabia quando ela apareceria, hoje porque me distraio e quando percebo ela já apareceu. Às vezes penso que minha TPM é minha Pomba-Gira, e das bravas, que se mete no meu corpo porque acha que lhe pertence, vasculha meu subconsciente e joga toda a sujeira no ventilador. O que me consola é que assim como eu, ela está envelhecendo e logo logo desaparecerá, e que vá com Deus, possuir outros corpos mais jovens.

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        - Linda Flores!

        - Dá licença.

        - O que você tem?

        - Na verdade não sei direito doutor. 

        - Você fez muitos exames.

       - Eu estive doente, ainda tomo alguns remédios, mas tenho sentido muito cansaço, meus olhos pesam, tenho muito desânimo e dores no peito. 

        - Você está estressada. Quando nos estressamos abaixa a produção de serotonina no cérebro e isso pode causar depressão.

        - ? !

        - Vou te pedir alguns exames e depois te passo um antedepressivo leve, não vicia. O melhor mesmo é você fazer alguma atividade: hidroginástica, correr, vai no forró! Você já foi no forró?

        - Já fui sim senhor.

        - É muito bom, não é?

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      Uma folha com 94 questões para resolver e uma entrevista depois. Quinze minutos foi o suficiente, e como acabei cedo fiquei esperando meia hora pela entrevista que durou não mais do que cinco minutos. "Você é ótima no que faz". Espera em casa que te ligamos. 

        Pensei ser a mesma balela de qualquer empresa, mas no dia seguinte me telefonaram para uma conversa com a diretora."É possível que você venha às 16 hs hoje?", pela primeira vez disse "Não posso, tenho uma consulta médica". Se fosse em outras ocasiões eu deixaria de ir ao médico e priorizaria a entrevista aceitando qualquer oferta. 

        Por algum motivo, após o médico passei exatamente às 16hs enfrente à empresa e num impulso decidi estacionar e entrar. 

        "Nossas condições são essas." "Tenho minhas restrições e vocês devem ter outros candidatos". "Você é nossa primeira opção." Foi a primeira vez que ouvi isso, é interessante ser a primeira opção de alguém.

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        Quem em sã consciência tem a coragem de dizer para uma criança que a amizade é como um cristal e uma vez rompido não tem conserto, só pode ser alguém que nunca teve amigos. Amigos verdadeiros são pedras de fazer concreto, estão na base. Muitas vezes são usadas para melhorar a estrada, formam caminhos onde há barro. Amigos são pedregulhos que drenam nossas lágrimas para que não inundemos em nossas tristezas.

        O cristal intimida, formaliza e produz medo, é para ser admirado, até venerado como objeto energético, irradia superioridade, está em nossas estantes e ninguém pode brincar com ele, um ferimento seu pode ser mortal. O pedregulho está nos jogos de amarelinha, em nossos jardins formando caminhos até as flores, até fere, mas não tanto, na cabeça cria um galo, nos pés calos. 
       
        Para que serve uma taça de cristal? Para fazer um brinde leve num casamento, porque senão ela quebra, e depois ficar guardada de recordação numa cristaleira acumulando poeira. Amizade mesmo é como copo de plástico, ninguém tem medo de quebrar, por isso se solta, cria intimidade. Não falo dos descartáveis, mas os comuns que a gente até prefere com um rótulo afetivo de algum personagem, que a gente leva em picnic, deixa cair e dá na mão de uma criança sem medo.

        Eu não quero amigos cristais porque eu sou pedregulho. Eu já tive amigos taça de cristal, mas sou muito, muito mais feliz com os amigos copos de plático.

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domingo, 14 de abril de 2013

Minha irmã

        Mais uma semana se acaba e hoje é num dia especial, o aniversário da minha irmã. São trinta e dois anos, mas parece que foi ontem que minha mãe chegou em casa dizendo que teria uma menina. Fiquei tão feliz que posso recordar a sensação. Na hora eu pensei: "vou ter uma companheira". Eu me sentia só, era a primeira neta de ambas famílias, tinha o meu irmão, mas ele era um instruso aos meus olhos. As maiores atenções e cuidados eram para ele que sempre estava doentinho, mas não é sobre ele que quero falar.

        Quero falar daquele bebê sempre sorridente que eu gostaria de ver novamente. Meu avô lhe fazia um penteado que parecia um moicano, nós ríamos e ela ria de nossas risadas. Era tão bom. Seu nascimento veio suavizar nossa dor, a dor da perda de nosso pai dois dias antes. Foi tudo tão surreal, tão absurdo que nem dá para explicar. 

        Cuidei dela como a uma filha mesmo tendo eu somente 9 anos e ela me obedecia com tanto respeito e amor que me emociono ao pensar. Não me lembro de uma única cena onde eu tenha precisado chamar sua atenção.

       Eu lhe trocava as fraldas, dava banho, preparava a mamadeira, penteava-lhe o cabelo e fazia cachinhos, ela ficava tão bonitinha. Onde eu fosse ela ia, se encontrasse os colegas da escola para alguma festinha ou trabalho, ela ia, de mãozinha dada na maior alegria. Eu a levava para a pré-escola na garupa da bicicleta. 

        Houve um tempo em que ela precisou ficar com a minha avó, eu sentia muito a sua falta, então fui estudar a noite, aos 13 anos para que ela pudesse voltar e ficar com a gente. Penso que ela deva ter sofrido com nossa distância. Ficar com a avó era bom, mas ela não tinha mais meu avô para lhe proteger e mimar. 

        Ela ainda era uma criança quando sai de casa. Puxa como ela sofreu e eu também. Se eu pudesse voltar no tempo, mas não posso. Eu estava tão perdida, tão desejosa de ter um lar organizado e equilibrado que pensei ter encontrado num convento, puro engano. Não houve um dia em que não pensasse nela. Perdi sua infância e puberdade. Quando voltei ela já era uma adolescente e havia aprendido a viver sem mim. Foram anos para reconquistar sua confiança e nossa maneira mais próxima de expressar afeto nunca mais voltou a ser a mesma. 

     Dividimos mais do que uma casa, dividimos uma vida. Quero hoje invocar todos os que já se foram, para que a protejam em sua vida e lhe afastem de todo mal.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Autoavaliação

       Esta semana o blog completou um ano, creio que antes de continuar, seria melhor fazer uma autoavaliação. Na adolescência encontrei na escrita uma maneira de expressar meus conflitos, esboçar minhas ideias e personalizar o que eu não conseguia expressar verbalmente. 

        De certa forma a escrita me acompanhou nas diversas etapas da minha vida e sua principal característica é seu papel terapêutico. Algumas pessoas fazem crochê, eu escrevo. É quase como se ao escrever eu pudesse de fato me ver, focar meus pensamentos e ouvir a minha própria voz. 

        Antes de abrir o blog eu estava sem escrever há muitos anos, cheguei a pensar que nunca mais retornaria, pois quando me deparava com a tela em branco, nada acontecia. Até que uma sucessão de fatos me impulsinou a timidamente voltar a escrever, a brincar com as palavras, a dar vida à minha voz interna. Foram fases diferentes. Em algumas eu inventei personagens e me escondi no meio deles, outras eu relatei fatos reais, em outras usei a primeira pessoa mesclando realidade e ficção. 

        É mágico acessá-lo e ver o contador de visualizações com outros números, dá uma mistura de sensações. Alegria por saber que alguém leu e medo justamente por não saber qual o efeito das palavras nas pessoas. Eu sempre desejei que fosse algo bom.

        Linda não é meu nome e nem Flores meu sobrenome, um pseudônimo era algo que eu desejava ter mas não tinha coragem de usar desde a adolescência. Ele nos protege psicologicamente, não sou eu quem fala é ela. O blog tem se tornado para mim praticamente um diário e por isso me causa maior espanto que alguém leia as mazelas alheias. 

        Hoje mesmo pensei em escrever sobre os trinta e dois anos da morte de meu pai e relatar as cenas daquele dia fatídico o qual posso reviver a qualquer momento. O que verdadeiramente me assusta é justamente o fato de poder reviver sensações de tanto tempo atrás como se fosse literalmente ontem. No entanto, já o mencionei no dia de seu aniversário de vida e creio que nada mudou deste aquele dia. 

        O que desejo mesmo é te agradecer por ler estas palavras conflituosas, por vezes desesperadas, nostálgicas, sentimentalizadas, angustiadas, alegres, eufóricas, esperançosas. Eu te conheça pessoalmente ou não, seja você feliz e que as minhas palavras tenham sido pelo menos um saboroso passatempo. 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O monge e a unha de gato

        Mal consigo passar o pente no cabelo, meu pescoço está fervendo. Para outono o sol queimou como verão e meus braços estão feridos pelos galhos e pelo alambrado da cerca, meu pulso dói da tesoura de poda. Eu já estava um pouco desacostumada disto. Este ano praticamente nem trabalhei em meu jardim. Situações novas para administrar, crises velhas reaparecendo e assim o jardim foi ficando. 

        Mas hoje eu precisava rezar, precisava discernir. Como minha cabeça trabalha constantemente vários pensamentos ao mesmo tempo, eu precisava suar o corpo, pois como dizia São Bento: ora et labora. Várias eram as minhas opções: cortar a grama da parte da frente da casa ou da parte de trás, podar a unha de gato do lado direito ou esquerdo da casa, além de outras, coisa para fazer é o que não falta. Contudo, algo me levou à seguinte tarefa: podar a unha de gato do muro com cerca de alambrado que separa uma parte do meu quintal com o meu vizinho. 

       Comecei de forma humilde, cortando um galhinho, ajeitando outro, pois a planta já havia tomado a proporção que eu desejava, havia crescido pelo alambrado todo e criado privacidade entre nossas casas, no entanto, ela havia passado os limites e crescido quase um metro para dentro do terreno e no muro vizinho. Foi então que me ocorreu a seguinte história...

        Um monge havia pedido para seus discípulos plantarem pequenas mudas de unha de gato no muro do mosteiro para crescer também pela cerca de alambrado e separá-los do vizinho. Obedientemente o fizeram, mesmo alguns pensando que seria melhor aumentar o muro ou colocar tábuas, pois a unha de gato ao crescer exigiria poda o que lhes obrigaria a trabalhar. Como a muda era muito pequena pensaram que demoraria muito para que ela crescesse, por isto não se preocuparam, até que um dia o mestre os chamou e disse: "Nosso vizinho reclama o avançado da unha de gato, quero que vocês decidam qual a melhor solução para o problema".

        Alguns ficaram admirados, pois estavam tão acostumados a olhá-la que nem haviam percebido seu tamanho. Cada um analisou a situação e todos voltaram para dizer ao mestre que solução apontavam. O primeiro disse: "Mestre, creio que seja melhor cortá-la pela raiz, já que está muito grande e seus galhos extremamente emaranhados. Depois podemos plantar novas mudas e acompanhar melhor seu crescimento para que não fique novamente neste estado". O mestre ouviu atentamente e nada respondeu.

        Depois foi a vez do segundo: "Mestre, acho melhor conversar com o vizinho e pedir-lhe que pode a parte que invadiu seu terreno, ele deveria nos ser gratos já que seu muro é feio, sem reboco e pintura, a unha de gato o embeleza, além de propiciar-lhe contato com a natureza". Deste o mestre também ouviu e nada comentou.

        Por fim, o terceiro se aproximou e disse: "Mestre, eu não penso como os meus irmãos, a planta cresceu porque esta é sua vocação, espalhar-se e produzir galhos, ela foi perfeita em seu trabalho, por que deveríamos cortá-la pela raiz e matá-la? Ela cresceu para agradar nossos sentidos e tanto nos agradou que nem percebemos o quanto cresceu. Por outro lado, não devemos desejar gratidão de nosso vizinho, sua visão de beleza não é a mesma que a nossa, não temos o direito de impor-lhe nossa alegria. Todos buscam viver em seus espaços e desejam que ninguém os invada".

        O mestre então perguntou: "O que você propõe?

        "Eu proponho um trabalho árduo de poda, onde os galhos que invadem o vizinho sejam cortados para que a planta tenha mais forças de crescer em nosso lado". Os outros discípulos não se alegraram muito com a proposta do trabalho árduo, mas eram obedientes. O mestre então concluiu: "Você discerniu bem, esta planta é como nossas relações, nós as plantamos pequenas, com o passar do tempo a intimidade cresce, o amor cresce e nossas vidas se misturam como os galhos, mas se eles começarem a produzir sombra em outros, então é hora de reconduzir, de reorganizar para que a raiva do outro não aumente e seus pensamentos maus afetem teu espírito".

        O primeiro discípulo humildemente pediu a palavra e o mestre lhe concedeu: "Mestre, não entendo, se nós a cortássemos pela raiz e plantássemos novas mudas o trabalho seria facilitado e em pouco tempo a planta ficaria do tamanho que o irmão pensa deixá-la". O mestre acostumado a ser questionado, amavelmente respondeu: "Nós não arrancamos as pessoas que amamos de nossos corações só porque estamos numa situação difícil e colocamos outras no lugar, nós lutamos para que elas permaneçam, nem que para isso, seja necessário um árduo trabalho de muitas podas".

        



       

       

       

quarta-feira, 10 de abril de 2013

A vidente e a prima

Querida prima Cleuza Ramalho, doravante CR.

        Há quanto tempo não nos falamos, não é mesmo? Espero que esta te encontre cheia de saúde e repleta de felicidade. Decidi escrever uma carta porque esse negócio de Facebook e quantidade de caracteres restringe nossas ideias. Você acha que eu vou ficar contando quantas palavras tem os meus pensamentos?

        Bom prima, eu estou com muitas saudades mesmo. Às vezes fico pensando no nosso tempo de escola, quando nos encontrávamos todos os dias e todo o tempo tínhamos uma novidade para contar, lembra? Tua mãe ficava doida com a gente, com a nossa grudação. Existe essa palavra?

        Depois você foi para a faculdade, mas não foi qualquer faculdade não, foi uma do governo, que honra, e eu casei. No começo a gente se falava quase todos os dias pelo computador, lembra? Tua mãe queria me matar. Depois as responsabilidades foram crescendo, você com os trabalhos e viagens da faculdade, eu cuidando da casa e do marido, o contato foi diminuindo e cá estamos nós, um pouco mais velhas. Eu nunca me esqueci de você, viu? Aliás, deixa eu te contar. Sabe aquele perfume que você usava e eu adorava e quebrei o teu vidro uma vez? Foi sem querer, você já me perdoou, né? Então, logo que nossos contatos foram reduzindo, eu comprei um vidro só pra continuar sentindo você perto de mim. Só de lembrar as lágrimas brotam. Mas a vida é assim mesmo, a gente caminha paralelo, de repente aparece uma curva e cada um segue sua rota.
        
        Então, prima CR eu queria te contar uma novidade, mas senta pra não cair das pernas. Ontem fui numa vidente. É isso mesmo que você está lendo, uma vidente, uma mulher que joga as cartas. Pois é, as coisas mudam e as pessoas também. Já estou até ouvindo você falar: "Eu sabia que você acreditava um pouquinho" e rindo daquele jeito escandaloso e delicioso que só você saber rir. Tá bom, já riu o suficiente, deixa eu continuar.

        A dona Maria, a cartomante vidente, me contou um monte de coisas, falou do meu anjo, arcanjo, arcano, número de nascimento, comentou a minha assinatura e mais um monte de coisas. O meu arcanjo? É poderoso menina, parece que é um dos melhores. Até me senti protegida ao saber. A minha cor é violeta, aceitei, mas não é minha cor preferida. 

       Por que eu fui na cartomante? Tá certo, seria melhor te contar. Eu tô passando por aquelas crises, lembra? Pra você ver, pensei que ficando mais velha elas desapareceriam, mas que nada. Agora quem sabe eu ache o caminho da solução, ou então só quando eu morrer. A dona Maria me mandou tomar banho com casca de laranjeira e beber o chá da casca, uma vez por semana. Já tomei duas vezes só hoje pra ver se a coisa se resolve logo. 

        Eu sou mesmo mal educada, sempre falando demais de mim. E você? Me conta alguma coisa. Eu sei que você conquistou muitas coisas na tua vida e nem deve ter muito tempo pra essa prima velha aqui, mas se sobrar um tempinho, me conta como anda a tua vida, tá bom?

        Depois que nossas vidas tomaram rumos diferentes, eu fiquei um pouco deprimida, entristecida, jururu, mas depois fui percebendo que era preciso, que as nossas almas gêmeas, lembra que a gente falava assim? Então, que almas gêmeas podem se separar mas sempre se acham de novo. Ah! a dona Maria disse que o teu signo é o oposto do meu, tá vendo, por isso que a gente se dava tão bem, dizem que os opostos se atraem. 

        Sabe eu fico chateada lembrando de quando a tua mãe descobriu que a gente ficava dependurada no telefone por horas toda tarde e ela se sentiu traida por você, até te disse que tava decepcionada por descobrir que você fazia coisas escondido dela. Eu me senti tão mal, eu e minha língua solta, que tanto assunto eu tinha pra contar, não é mesmo? Espero que um dia ela me perdoe.

        Eu tô bem, tô feliz, estudei, comecei a trabalhar, de vez em quando tenho umas brigas com o maridão, mas ele releva e tudo bem, me chama de Azeda e como ele é adocicado, a gente de ajeita. Eu tenho muitas saudades, mas é uma saudade boa, de quem foi muito feliz com aquela pessoa, de quem amou e foi muito amada. 

        Eu acho melhor parar a carta, prima CR porque senão ela vai se desfazer nas minhas lágrimas. Você sempre me fez sentir as coisas muito intensamente. Tanto que eu queria te contar outra novidade, vou lançar um livro e logo te mando o convite, é um livro especial onde eu conto, sem que as pessoas entendam, tudo o que vivemos juntas.

        Eu te amo prima e conto com a tua presença, quem sabe agora poderemos fazer um reencontro. 

                                                                                            Beijos e abraços,

                                                                                                   Lindaura de Castro







       


segunda-feira, 8 de abril de 2013

O picnic

        Costumo ouvir elogios para com os europeus e sua maneira de viver, é a tal da qualidade de vida. Quando estive na Europa, principalmente na França vi, e até participei, de um hábito bastante difundido, o picnic. Centenas de pessoas de várias "tribos" sentadas ao redor de uma toalha, comendo baguete e bebendo champagne próximos à Torre Eiffel. Pessoas que haviam saído do trabalho para encontrar os amigos, sentar na grama e comer algo.

        Não estou na Europa, sou filha de um países subdesenvolvido e que agora eles chamam de país em desenvolvimento, só para não ferir tanto a autoestima. Meu país é cheio de verde, posso dizer que até a minha cidade e, ainda mais, a minha casa. Eu tenho um jardim, tenho mesas e cadeiras pelo quintal e no entanto, não faço picnic. Aliás, isto é algo que me incomoda, tendo eu criado espaços de convivência, não convivo. 

        Pode ser que a questão esteja justamente aí, conviver, é viver com e me falta o "com". Claro que muitas coisas faço sozinha, mas um picnic não tem graça sozinha. Fica faltando as quatro mãos para estender a tolha na grama, fica faltando a disputa pelo melhor lugar embaixo da árvore, fica faltando a alegria de ver aqueles deliciosos lanches preparados por outro para você compartilhar. 

       Para alegria de meu coração, uma querida amiga me convidou para um picnic, confesso que a princípio pensei que ela estivesse brincando. Quem na loucura do nosso dia a dia faria um picnic na tarde de uma segunda-feira? Ainda por cima com uma manhã chuvosa? Pois é, nós. E era esta sua amorosa loucura tudo o que eu precisava após um fim de semana tedioso. 

        Fomos a um parque relativamente seguro e limpo. Encontramos uma frondosa árvore e eu logo me aninhei entre suas raízes. Eu ficaria ali horas, eu dormiria ali. Era como sentir um abraço, numa tarde nostálgica de outono. Lanches, biscoito, cocada, suco, um verdadeiro banquete. Alguns sabiás laranjeira voando ao nosso redor, algumas formigas passeando pelo tronco acolhedor da frondosa árvore e folhas caindo, anunciando que o outono estava ali. O outono sempre me pareceu a estação do recolhimento, seus entardeceres beiram a tristeza. 

        Falamos, falei, falei, ouvi menos do que falei, pouco gentil de minha parte. Mas minha amiga é tão generosa e me faz sentir-me tão acolhida que quando percebo já rezei minha ladainha toda. Contudo, hoje, mesmo estando ali, ela não estava bem. Havia uma sombra em seu olhar e seu rosto parecia cansado, sua respiração ofegante, como se algo apertasse seu peito. 

        Conversamos de muitas coisas, mas desta vez pouco nos olhamos nos olhos. Ela, educada para as artes, conseguiu retomar algumas expressões com as quais me acostumei a ver, mas a diferença de situações anteriores é que não soavam naturais. Preocupei-me profundamente e me senti tão incapaz de retribuir o bem que me havia feito. Um picnic não é apenas um momento embaixo de uma árvore, é uma experiência cósmica: eu, o outro e a natureza. Não serve apenas para alimentar o corpo, alimenta os sentidos e ainda por cima, diferentemente de estar na mesa de um bar, a natureza não fica esperando a liberação do espaço para outro sentar e consumir, a relação é gratuita.

        Ela me fez muito bem, me ajudou a começar minha semana de forma diferente. Eu, de minha parte, gostaria que ter a certeza de que a falta de brilho em seus olhos e gestos fosse apenas algo passageiro, como uma tpm ou uma noite mal dormida.




terça-feira, 2 de abril de 2013

A percepção

        A percepção de si mesmo é algo interessante e ao mesmo tempo complicado. Não basta se olhar no espelho, não basta enxergar as próprias rugas e marcas de expressão. Não basta fazer terapia. Cada dia é uma vida nova e, sinceramente, às vezes cansa, por isto acho extremamente viável não viver para sempre. Não que eu deseje morrer logo, mas viver muito deve ser solitário e cansativo.

        Estes dias vi uma reportagem sobre Rubem Alves e fiquei chocada, não sabia que ele está tão velhinho e pior, com mal de Parkinson. Foi muito triste vê-lo assim, sem poder autografar seus livros, precisando de ajuda para andar, mal conseguindo falar para seu público. Ele estava triste e, sentado num jardim, explicava quantas vezes havia passeado por aquele lugar e o quanto sempre adorou jardins. No entanto, naquele momento o lugar não lhe pertencia mais e nem ele ao lugar. O melhor seria sempre guardar as imagens na lembrança. Concordei com ele.

        Não sei exatamente porque estou escrevendo tais coisas, talvez porque elas simplesmente me veem à cabeça e para que não ocupem tanto espaço em minhas emoções, eu as deposito aqui, livremente para que guardadas permaneçam imortais e fixas, até que alguém as apague.

       Quando olho para os jardins por onde andei, sempre me pergunto se fiz a escolha certa e me avalio como alguém que fez as escolhas erradas, que buscou os caminhos mais complicados e menos seguros. Hoje me sinto para trás, um ser de pouca evolução, fadada a passar os restos de meus dias tentando buscar o sentido de minha existência. Se é que a existência tem sentido. Será que se eu não pensasse nisto seria mais fácil existir?

        Por que a televisão não me distrai? Por que os livros já não me encantam mais? Todos os dias eu admiro meu jardim e percebo que ele cresceu e floresceu, nem tenho mais vontade de cuidá-lo, tenho a impressão de que agora ele se cuida. Meus cachorros já não me preocupam tanto, sobreviveram aos meus cuidados. Por que estas coisas acontecem, por que nos sentimos assim?

       Eu vi uma menina crescer e desabrochar e agora me sinto tão atrás, tão no mesmo lugar, que tenho vergonha de comentar. As coisas e as pessoas nos ultrapassam e nós ficamos imóveis como as pedras, esperando que alguém ou alguma situação nos mova e nos lance ao longe. 





segunda-feira, 1 de abril de 2013

São Thomé

        Ontem foi Páscoa e desde que minha avó paterna faleceu não como mais bacalhau na Páscoa. Esta era uma tradição de sua casa, portuguesa da Ilha da Madeira, o bacalhau com batata e grão de bico nunca faltava.

        Havia um ritual, algum filho levava o peixe e ela o preparava com batatas, cebolas, grão de bico e muito azeite. Cada um comia a parte que mais gostava, eu sinceramente adorava as batatas. Depois nos jogávamos pelos colchões no chão e descansávamos amontoados. Era divertido tirar fotografias da minha avó dormindo esparramada pelo chão.

        Mas tudo acabou, um a um eles se foram para o nunca mais, levando consigo o nosso conceito de família. E a Páscoa assim como outras datas são apenas datas. Quando eu poderia pensar que pasaria o dia da ressurreição de Cristo numa cidade cuja principal característica é o misticismo e ainda com um grupo de pessoas que mal conheço. 

        Eu pensei em cada um, observei cada um e aos poucos entendi. São gente como eu, que de alguma maneira estão sós, divorciados, solteirões, desarrumados, traumatizados. Todos tentando reviver algumas alegrias e sensações da juventude, seja na velocidade da moto, seja nas diversões consumíveis, seja nas cordas de um violão. 

        Fui acordada pelas músicas da igreja matriz de São Thomé, as mesmas que eu cantava, e me senti mal. Eu não pertenço mais àquela vida, mas também não sei ainda à qual pertenço. Estamos todos em busca de um lugar para ser feliz, a Páscoa poderia ser um bom lugar, pois ressuscitar é ter uma segunda chance. 

        Discussões teológicas à parte, os evangelhos dizerm que Jesus ressuscitou, apareceu para seus discípulos e lhes mandou que tocassem suas chagas, principalmente São Thomé. Por que suas chagas não desapareceram? Não seria mais miraculoso? Isto me faz pensar que o ressurgir não significa apagar nossas memórias, nossa história, nossas dores e sofrimentos, mas acima de tudo, ressignificá-los. Que todos os dias morremos e ressuscitamos e que isto não é um processo miraculoso e sublime, é a própria dinâmica da vida.