O barulho do secador de cabelos me acordou, já estava mesmo na hora de levantar, precisava sair cedo para fazer exames de sangue, um check up de colesterol e triglicérides, estas coisas de gente nos quarenta. Havia dormido bem, ao ponto de perder a noção do fim de semana, às cinco da manhã quis levantar para ir trabalhar, cheguei a acender a luz, mas depois me dei conta de que era sábado.
Havia planejado ter um fim de semana de descanso e lazer, exceto pela obrigação do exame. Não pensei que tantas pessoas, assim como eu, deixassem para ir ao laboratório num sábado. Quase uma hora de espera. O garrote estava tão apertado que nem senti a agulha. Minha recompensa por não chorar foi uma ficha para a máquina de café.
Com o carro cheio de lixo reciclado decidi passar no supermercado e depositá-lo na coleta seletiva, desejando que tivesse de fato um destino útil e que tudo não passasse de um jogo de marketing. Precisava sacar dinheiro para o fim de semana e como sempre, o caixa eletrônico de meu banco não estava funcionando.
Ao abrir a carteira para guardar o cartão uma foto saltou aos meus olhos. Estava ali, imortalizado, mais do que um rosto, um lindo momento de alguém muito especial para mim. Sua boca tentava não sorrir, o que sei lhe era difícil não fazê-lo e seus olhos queriam ver longe, desejosos de enxergar além das aparências. A foto para a faculdade.
Estas fotos são engraçadas, elas sempre são para algo. Podem ser para uma matrícula num curso, para uma contratação de trabalho, para um passaporte, sempre são para algo novo. Talvez seja por isso que sempre estamos descontentes com elas, porque elas refletem nossas inseguranças e medos, expressam nossas dúvidas em relação ao que virá. Desejamos sempre que elas fiquem melhores e que expressem tudo de bom ao nosso respeito.
Com o passar dos anos, quando voltamos a vê-las, podemos reconhecer as fases que vivemos e observar o efeito de nossas escolhas sobre nosso corpo, e nos damos conta de que não éramos nem melhores nem piores do que imaginávamos, apenas desejosos de saber como seria nosso hoje.


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