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Gosto de compartilhar pensamentos e vivências, porque ao retirá-los de mim posso enxergá-los melhor.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Setenta

        São setenta posts. De onde vieram? Como consegui escrevê-los num ano tão cheio de atividades, compromissos e responsabilidades? Havia muito tempo que eu desejava voltar a escrever, bem mais de quinze anos. Sonhei com a oportunidade de fazê-lo. Não que me faltasse caneta, papel ou mesmo computador. Me faltava o impulso, o tema, o incômodo, a chama. É por isto que neste post de número setenta, vale a pena parar um pouco e refletir.
 
        O que eu consegui escrever senão minhas visões limitadas e, por vezes, adolescentes das emoções que vivenciei? Qual o valor literário dos meus textos? Nenhum, creio eu. Talvez um valor terapêutico. A sagrada mágica de depositar na tela em branco coisas com as quais não se sabe exatamente como lidar.
 
        Comecei pelas metáforas, mas logo perdi a mão. Necessitei me despir, usar a primeira pessoa, me olhar no espelho, me ver de longe. Sim. É exatamente esta a sensação que se tem após ler o que se publicou. Passado algum tempo, é como se outra pessoa houvesse escrito. 
 
        Nesta brincadeira de me escrever e me reler. Me descubro várias; assim como já me descobri numa colcha de retalhos, composta por pedacinhos nem sempre iguais e regulares de tudo aquilo que poderia compor uma única peça. São tantas as experiências, tantas as emoções que nada em mim permanece igual. A não ser os medos e algumas poucas angústias nascidas de um passado que teima em voltar.
 
        Este post 70 não é para relembrar dores, mágoas ou um passado conturbado. É para comemorar o meu retorno ao palco das letras, mesmo como uma humilde amadora. É para comemorar a vitória dos que caminham ao meu lado e de suas conquistas neste grande espetáculo que é a vida. É para agradecer os temas, a motivação, as metáforas, o incômodo que me propiciaram. É para dedicar-lhes e retribuir-lhes o carinho que alquimicamente retivemos no olhar, mesmo após enxergarmos nossas limitações.  
 
 
 
 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Oração ao Tempo

        Como explicar o inexplicável? Como definir o indefinível? Hoje voltei a rezar como a muito tempo não fazia, pois a minha razão não encontra mais caminhos. Então é hora de dobrar os joelhos e humildemente pedir a Deus que reconstrua o que destrui, que cure o que machuquei, que console ao que magoei. E pedir ao tempo que em sua onipotência e misericórdia, olhe por nós.
 
 
 

domingo, 2 de dezembro de 2012

Sou grata

        Virei a folhinha do calendário. Menos de um mês para acabar o ano. Não gosto da palavra acabar, ela machuca e angustia. Está certo que em alguns momentos da vida a solicitamos, principalmente nos momentos de dor. Mas quando se trata de momentos felizes, ela não deveria ser mencionada. Quem sabe seria melhor usar palavras como passagem, mudança de ciclo, não sei, mas acabar é triste.
 
        Por outro lado, estas épocas são boas para uma faxina, seja da casa física, seja da casa interior. Separar o que precisa ser reciclado, ou até mesmo jogado fora. Está aí, reciclar seria melhor do que acabar! Reciclar ideias, posturas, relacionamentos, etc. Reconhecer o que foi bom e deve continuar, e o que não foi tão bom assim e precisa reciclar, dar novos ares. Creio que nem consegui ainda me dar conta de tudo o que aconteceu este ano.
 
        Trabalho, viagens, cursos, família, casa...e, acima de tudo amores. Dois grandiosíssimos amores que se complementam e me completam. Dois amores que me sustentaram todas às vezes que tropecei, que apanhei - literalmente - que precisei de um colo, de um abraço, de uma conversa, de um olhar, de um sorriso. Confesso que tive muito medo, medo de não ser verdade, medo de sofrer, medo de iludir-me, medo de me machucar, medo de não ser digna, medo, medo, medo...Medo de que a paciência do outro se esgotasse de mim.
 
        Caminho para o encerramento do ano com lágrimas involuntárias que brotam sem que eu perceba. E que quando sou amada escorrem por nossos corpos e se misturam com o nosso suor. Lágrimas que não consigo explicar de onde vêm. Não são de tristeza, nem de dor. Só sei que elas brotam de uma parte de mim que nunca fora explorada. Nascem de lugares que ninguém havia ousado conhecer e, que aos olhos do outro, é como descobrir um tesouro. Engraçado, por vezes me sinto como as cachoeiras que gosto de visitar, mas que é preciso atravessar caminhos difíceis para vê-la. 
 
        O que mais poderia acontecer de bom, senão, atravessarem as minhas pedras, os meus obstáculos? Eu sou grata pelos que chegaram até aqui. Pelos que me descobriram e me ajudaram a me descobrir. Eu sou grata pelos braços que me envolveram, pelas bocas que me beijaram e me sorriram. Eu sou grata pelas palavras de carinho. Eu sou grata pelas mensagens que teimo em guardar como um pedaço de si. Eu sou grata pelo amor que me dedicam. Eu sou grata por este ano e pelos que virão, pois, aconteça o que acontecer, tomem nossas vidas rumos diferentes, nada e niguém poderá retirar de nós tudo o que vivemos. Amém.
 
 Vocês me fazem tão bem...
 
 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O tempo

        Tudo o que eu não queria era usar este espaço com energias negativas, mas hoje meu peito está apertado como não ficava a muito tempo, por isto, preciso transferir esta respiração sufocante para algum lugar. Como é noite e tenho visitas, o melhor é deixá-la aqui por enquanto, até que o universo se encarregue de dissipá-la.
        Sinto como se eu fosse cair de muito alto, de uma altura que eu ainda não havia alcançado. E se, de fato, eu cair, creio que não me recuperarei mais. Tenho medo da força deste sentimento que até então tem sido bom. Tenho medo de que ele mostre sua outra face na mesma intensidade.
        Estou me cansando de brincar de esconde-esconde, como se eu fosse a outra. Como se eu tivesse uma chaga que deve ser ocultada. Estou me cansando de dizer não aos amigos para passar algumas horas ou dias com alguém que de fato gosto muito, mas tem medo de assumir que tem medo. Estou me cansando de fingir, já perdeu a graça. Estou me cansando de fazer de conta que está tudo bem, de que esta situação não me incomoda.
        O fim de ano se aproxima e tudo o que eu não queria era ter novamente esta sensação. Um aperto no peito sufocante, de não conseguir puxar a respiração. Eu realmente estou magoada, sentida, machucada. Não pensei que eu fosse gostar tanto, me envolver tanto. Não quero pensar que tenho sido usada como um passatempo, ou como garantia de alguns prazeres. Não posso me sentir assim novamente. Hoje eu tenho a certeza de que não mereço tal sentimento.
        Talvez seja esta a diferença entre o meu agora e o meu antes. Antes eu não sabia o meu valor, achava que havia feito algo errado, que merecia o que estava recebendo. Ah! Mas agora não. Quem sabe eu esteja vivendo isto justamente para fazer esta experiência e sair mais segura, mais pronta para enfrentar este mundão e encontrar alguém que não tenha medo.
        Decidi virar a ampulheta e demarcar o tempo da mudança. Será breve, pois um ano novo se aproxima e não tenho mais tempo. Ainda tenho tanto para descobrir de mim, tantas experiências para viver, tantos amores a desfrutar. Não, definitivamente, não quero arriscar o que conquistei até agora a duras penas, às custas da nudez de minha alma. De agora em diante o tempo é regressivo...

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Nossas riquezas

        Quando eu estava no ensino médio, descobri uma série de coisas que eu desejava fazer: intercâmbio, faculdade de medicina, Médicos Sem Fronteiras e tantas outras aventuras. Mera ilusão. Minha família nunca havia saído sequer de São Paulo, sair do país?! Era algum tipo de piada? Risadas coletivas, não, gargalhadas com direito a engasgo e tudo. Eu me sentia um lixo, um nada, menor que uma formiga. Era como se eu estivesse nua. A única coisa que minha família queria era que eu arrumasse um homem. E minha mãe me educava para a excelência do sexo.
        O tempo passou e, por caminhos que a vida determinou, minha irmã menor sempre permaneceu aos meus cuidados. Sem que eu me desse conta desenvolvi o hábito de ver em si a realização dos meus sonhos. Passei a desejar ajudá-la a realizar todos os sonhos que eu não havia realizado. Tentei convencê-la a fazer intercâmbio nos EUA, mas ela ria de mim, depois tentei convencê-la a fazer faculdade. Ela relutou muito tempo e acabou fazendo Pedagogia, mas hoje percebo que escolhera tal curso por minha influência. E tantas outras situações que se tornaria cansativo elencá-las.
        Afortunadamente houve um momento em que eu percebi que a sufocava com minhas ideias e não permitia que ela construisse e vivesse as suas.  A vida se encarregou de colocar-lhe muitos obstáculos e todos estavam fora do meu alcance transpô-los por ela. Havia em mim um desespero terrível por não conseguir orientá-la ou ajudá-la de uma forma efetiva. Foi exatamente nesta época que ela encontrou seu caminho e passou a trilhá-lo. Absurdamente diferente do que eu havia imaginado para ela.
        Decidiu e enfrentou um concurso com 140.000 candidatos e passou. Enfrentou cinco etapas eliminatórias e classificatórias. Hoje ela ocupa o cargo que 139.000 pessoas desejaram. É uma profissional competentíssima e eu a admiro profundamente. Eu a vejo mais feliz do que em qualquer outro momento. E o mais importante, tenho assumido os meus sonhos e lutado por eles e, a minha alegria a tem motivado também.
        Este é um risco que corremos, o de que nossos pais, tios e irmãos queiram - mesmo inconscientemente -  que realizemos coisas que eles desejaram e não puderam realizar. O que eu aprendi? Que nós precisamos nos conhecer, descobrir nossas habilidades e talentos e ser feliz ao realizá-los, a fim de que não haja espaço para que o outro o ocupe com seus sonhos, como se nós fôssemos um recipiente vazio, pronto para ser completado. Nós já nascemos completos, a beleza é que a vida brinca de revelar. Como a caça ao tesouro, precisamos vasculhar-nos, testar-nos e só assim encontraremos, aos poucos, com paciência e observação todas as nossas riquezas.

domingo, 25 de novembro de 2012

Dois corações

        Hoje eu teria mil assuntos tristes e dramáticos para compartilhar. Foi um final de semana realmente desgastante, mas não foi como das outras vezes, apesar do enredo ser o mesmo dos últimos trinta anos. Álcool, agressividade, internação etc. Desta vez eu estou diferente, escolhi ser diferente, decidi ser diferente. Mas não foi uma decisão de agora, impulsiva, radicalizada, ela veio acontecendo. A vida veio me preparando para este dia. O dia em que na escala hierárquica eu estaria à frente e teria que assinar os papéis. Como me senti pronta! Não houve sentimentos antagônicos como raiva e pena. Apenas a leveza de que estava fazendo o que deveria ser feito. Sem medo ou euforia. Foi como qualquer outra obrigação que eu devesse cumprir.
        Durante as horas que permaneci sentada numa desconfortável cadeira esperando, me peguei relembrando algumas cenas que vivi neste ano, e todas eram tão deliciosamente boas e alegres, que nem percebi o desconforto. Creio que sorri sozinha várias vezes. Eu não conhecia esta sensação. Meu Deus! Como é bom relembrar fatos e encontrar coisas boas, experiências que me encheram o coração de amor e esperança. Eu conhecia o contrário até então. Sabia como era contaminar a alma ao relembrar fatos dolorosos e sofridos. Puxa, mas nada se compara à força das boas lembranças.
        Relembrei os abraços que ganhei, os beijos, os carinhos, os olhares intensos, o passear lado a lado, as palavras doces e risonhas e até as lágrimas de boas emoções. A experiência de saber que se é importante para alguém me sustentou nesta hora difícil e delicada. Meu coração ficou certo do que fazia e minha mente tranquila.
        A força que se formou dentro de mim, que me ajudou a discernir cada passo, cada ato, nasceu da mágica experiência de sentir o coração de outra pessoa bater junto ao meu. As pessoas podem dizer que nos amam, podem escrever cartas, mandar mensagens pelo celular, mas nada, absolutamente nada se compara à experiência de abraçar alguém que se quer bem e sentir seu coração bater aceleradamente junto a si. Não há expressão física maior entre duas pessoas que se gostam. Quando estamos sós e passamos por alguma situação difícil, a lembrança daquele abraço nos faz sentir imensamente mais fortes, pois não sentimos apenas um, mas dois corações em nós.  

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O medo

        Eu era cheia de certezas. Articulava bem as palavras e convencia todos à minha volta. Até convenci minha mãe de que eu deveria sair de casa. O que ninguém sabia é que eu tinha um medo enorme e milhares de dúvidas que eu teimava em esconder, como se ao sabê-las as pessoas me admirassem menos. É, admirassem, pois amada eu não me sentia.
        Saí de casa com a cara e a falsa coragem. Precisaria um livro para narrar todos os sufocos que vivi. Todos os traumas que acumulei e, principalmente, todas as decepções que vivi. Um particularmente me corroía até ontem a noite. Os traumas precisam ter data para serem superados, senão eles vivem por nós.
        Um belo dia fui designada a uma missão assustadora. Eu, pelo fato de saber dirigir recebi a terrível missão de buscar uma aspirante em sua casa. Aspirante era o nome dado às meninas que aspiravam entrar na vida religiosa. Eu deveria recolher suas malas e retirá-la do seio de sua família. Recordo-me que o local não era distante, mas a intensidade do ato parecia de outro mundo.

        Não me lembro se disse algo - naquela época eu tinha medo até de falar - mas me lembro muito bem das expressões de sofrimento nos gritos de sua mãe que se lançava implorando que não se fosse. Até ontem vivi com a certeza de que eu era a pior das pessoas, a mais covarde, incapaz de dizer àquela menina: "Não vá. É tudo ilusão. Uma mentira. Você será mal tratada. Elas te sorrirão e como sereias cantarão docemente até que possam te levar para a região mais profunda e obscura do fundo do mar". Mas eu não podia. Vivia como se estivesse hipnotizada, pelo medo, pela certeza de que eu era fraca por isto fracassava tanto. Na certeza de que minha fé era pequena, por isto passava por tantas provocações. E num profundo gesto de covardia coloquei suas malas no carro e a levei, creio que sem dizer uma única palavra.

        Quantos anos se passaram? Creio que uns vinte. Vinte longos anos de remorso arquivado, guardado na memória e que vez por outra saltava diante de mim e ria assustadoramente, me fazendo sentir-me pequena e acuada.

        Como creio que os traumas têm data para acabar. Este ano a vida me deu de presente um reencontro, breve mas profundo. E eu pude ver a menina meiga, inteligente e educada que sequestrei, transformada numa grande mulher. Que na plenitude de sua vida fez escolhas e as assumiu. Sempre admirei sua inteligência, mas nada conhecia de seus sentimentos. Por isto a dúvida sobre como ela se sentira naquele dia, pairou sobre minha cabeça estes longos anos. E, como um presente, um mimo da vida, na noite de ontem ela me respondeu e me mostrou o lado da história que eu não conhecia; os seus sentimentos mais secretos, as suas dificuldades e angústias.

        Não que as coisas tenham mudado dentro de mim como num passe de mágica, mas sei que agora elas mudarão. Pois o galho morto que pesava sobre o tronco foi podado. Posso dizer que me vi em muitas das suas angústias e é por isto que sei que as superará e encontrará respostas para todas. Passei a admirá-la ainda mais e se antes eu não tive a coragem de pedir-lhe desculpas, o faço agora, porque a única certeza que tenho hoje é de que o medo só pode ser positivo enquanto nos proteger do perigo, do contrário, deverá ser enfrentado antes que nos aprisione.