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Gosto de compartilhar pensamentos e vivências, porque ao retirá-los de mim posso enxergá-los melhor.

domingo, 3 de março de 2013

Laço fraterno

        "Finge que tá mortaaaa", disse o personagem zumbi do terceiro filme que assistimos. O cinema todo riu e nós também. Já estávamos na segunda pipoca e suco, além de termos almoçado no shopping. Eu havia aceitado seu convite para uma maratona de filmes, já que tínhamos direito à meia entrada iríamos aproveitar e assitir logo três.
 
        O primeiro foi sobre dois irmãos que caçavam bruxas, o segundo sobre uma bruxa que ao fazer dezesseis anos precisava decidir de que lado ficar, da luz ou das trevas; e, o terceiro de zumbi. Praticamente nada muito interessante para mim, mas o fato de haver sido convidada por minha irmã na frente de meu namorado envaideceu-me. Ela queria a minha companhia e isto me alegrou bastante.
 
        Não saíamos juntas sozinhas há um bom tempo e partindo dela o convite, isto significava que ela realmente queria sair comigo, pois companhia nunca lhe falta. Chegamos a comprar copos promocionais, como as crianças, mas os esquecemos no balcão ao pagar o estacionamento.
 
        Alguns irmãos são amigos natos, por vezes companheiros para toda a vida. Alguns apenas co-existem na mesma família e outros, infelizmente, se tornam nossos inimigos. Não temos como saber. A vida nos mostra. Nossas travessuras juntos, o compartilhar de roupas, a preocupação na doença, o desespero nas tragédias, nos mostram o quanto nossos irmãos nos amam ou não, mesmo que estejamos longe.
 
        Estou contente por nosso passeio, apesar de não manifestarmos nosso afeto intensamente, somos cúmplices na alma, e sei, pois seus amigos já me contaram, que ela me respeita como a uma mãe. São as compensações que a vida me dá pela ausência do que eu sempre tive medo de ter.
 
        Ser a irmã mais velha não é nada fácil. Temos mais responsabilidades, nos sentimos mais cobrados, queremos cuidar dos outros ou nos pedem para cuidá-los. Nos tornamos uma espécie de espelho e nossos pais são mais severos e inseguros conosco. Mesmo assim torço para que todos possam ter uma irmã ou um irmão, mesmo que não seja de sangue, pois o laço que mais se mantém durante nossas vidas é o laço fraterno.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A centésima

        A centésima publicação. Uma ainda não tive coragem de publicar por ser essencialmente agressiva. Mesmo que somente eu leia minhas erupções raivosas, considerarei esta a centésima publicação, pois tudo concorre para que este dia seja um marco.
 
        Há menos de um ano uma vontade imensa de manejar as palavras me invadiu e a coragem humilde e simples encontrou lugar entre minhas mãos, mente e coração. Recomecei o que há tempos deixara passar e a marca desta nova etapa foram as alegrias vividas. Antes o que me motivava a escrever eram fatos tristes e angustiantes, os quais eu não sabia administrar. O papel assumia a forma de terapeuta e as teclas da máquina de escrever gemiam com meus golpes. Era uma catarse.
 
        Poucas foram as publicações angustiadas e desesperadas e por isto agradeço, pois uma nova fase se iniciou. Ainda não sei exatamente o quanto caminhei, mas sei que não estou mais no mesmo ponto, na mesma estrada. Há pouco menos de um ano e tantos textos. Pequenos e humildes, mas sinceros e desejosos de profundidade e sentido.
 
        Dois grandes fatos marcam esta centésima publicação: o voo de duas águias. A águia-menina que virou mulher e a águia-mulher que deseja passar pelo processo de renovação. São águias do meu céu, que habitam a minha existência, ora passiva ora conflitiva. Eu lhes digo: voem o mais alto que puderem, porque eu quero voar também e não quero estar sozinha.
 
        Voe águia-menina, o mais alto que conseguir e sem ferir tua natureza. Apure teu olhar sobre as situações e abra bem tuas asas. Mantenha a envergadura necessária para não se quebrar e continue dobrando os joelhos para que teu impulso seja cada vez mais forte e certeiro.
 
        Voe águia-mulher, o quanto você ainda conseguir, para que eu possa voar também e sem remorsos seguir meu caminho.  

 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

As paredes

        Não é a primeira vez que pinto um cômodo. Já pintei casas inteiras e nunca demorei tanto. Pintar meu quarto tem sido mais do que passar tinta nas paredes, tem sido um processo interior. A terceira parede está pintada somente pela metade, pois preciso que esta parte seque para nela colocar os móveis e pintar o resto. Se fosse em outras épocas, talvez tivesse colocado todos os móveis no centro e pintado ao redor. Mas desta vez meu tempo é outro.
 
        Estou mais lenta, não tenho vontade de atitudes exuberantes ou radicais. Quero mover o menos possível, não quero mais me machucar com atitudes bruscas. Além de pintar tenho separado aquilo que preciso e o que não preciso mais. Desfazer-me dos supérfluos ou do pouco útil, fazer uma limpeza nas gavetas e portas.
 
        Assim, aos poucos, penso em minha vida, refaço planos e construo sonhos. Reorganizo a vida, os pensamentos e os sentimentos, talvez eu nem mude muito, mas não quero ser sempre a mesma. Algumas situações ainda me amedrontam, mas o medo vai passar, a insegurança se diluirá e o coração aflito encontrará novamente a paz, pois as paredes um dia terminam.
 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Minha menina

        Não pensei que eu ficaria tão deslocada sem a tua presença. Não é fácil escrever sobre isto, minha menina, é assim que penso em você, minha menina. Perdoe-me o possessivo, sei que não é meu por direito, mas o é por apropriação devida, devida a nosso laço construido.
 
        Estou desconcertadamente estranha, sentindo falta da nossa rotina. Dos abraços de bom dia, dos cúmplices olhares, das risadas, da companhia na hora do almoço. Sinto falta até do teu cheirinho de bebê, do teu jeito de andar saltitando, das tuas gozações. Estou estranhamente desconcertada.
 
        Você me ensinou a criar vínculos, a acreditar que posso ser importante para alguém, apenas pelo que sou. E agora eu não sei o que fazer. Tudo está diferente, tudo está em ordem, certinho demais, frio demais.
 
        Sem que eu me dê conta subo a rampa olhando para a tua sala, mas você não está lá. Vou até a porta na esperança de ver um sorriso, mas ele não vem. Novos rostos, assustados, amedrontados que me tratam como se eu fosse a polícia. Tenho medo de parar de rir, de não ter mais brilho nos olhos. Tenho medo de voltar ao casulo.
 
        Quanto egoísmo o meu, sabendo que para você este tempo de espera é aflitivo, é angustiante, eu queria poder fazer algo, mas não sei o que fazer, a não ser torcer para que tua alegria não seja abatida e dizer que estou aqui. Que você encontre sentido nos teus dias e não perca a certeza do quanto você é boa em tudo o que faz.
 
        Estou desconcertada, pois nunca assumi para uma pessoa o quanto ela me faz falta. Aprendi a camuflar meus sentimentos para não sofrer ainda mais. E desta vez me pego como uma criança assustada, com as emoções à flor da pele, debulhando neste espaço o que não tenho como compartilhar.  Obrigada por me ensinar a entregar meu coração, para que ele seja livre e não se entregue às amarras do medo e da insegurança. Vai passar...e logo deixaremos nossas estranhezas nos mostrar novos caminhos.
 
 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Há dias

        Há dias em que tudo nos faz falta, mas pior é o dia em que nos falta afeto. Nem dinheiro, nem carro, nem casa, nem roupa, nem jóias são suficientes para sanar a falta de afeto.
 
        Resisto insistentemente, porque se há de sobreviver às suas próprias mazelas, mas há dias em que tudo fica mais pesado. Há dias em que eu apenas queria um abraço apertado, deitar no colo e ter a cabeça acariciada. Há dias em que eu não queria ser mulher, mas apenas uma menina no colo do pai, ou da mãe, que nunca tive. Não me lembro do afeto positivo de meu pai. Somente do afeto sufocante  e pesado de minha mãe.
 
        É possível sobreviver, desde que não se arrisque a amar novamente e sem que se movam as águas paradas. Águas paradas são águas turvas que quando remexidas exalam odores desagradáveis e nem sempre há quem deseje te ajudar a filtrá-las.
 
        Há dias em que eu só queria um ombro ou dormir de conchinha. Há dias em que o choro trava na garganta sem que eu possa fazer algo. Há dias em que não é possível dizer que está tudo bem sem que a voz engasgue. Há dias em que a flor da emoção aflora, e eu penso que são os hormônios e que amanhã vai passar.
 
 
 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Perguntas

        Hoje fui visitar minha possível futura residência. Gostei do ambiente, um apartamento com três quartos pequenos, sala de estar, uma cozinha razoável para os padrões atuais e duas varandinhas, todas as janelas de frente para a rua. Pensei em minha velhice, onde estarei daqui a uns anos?
 
        Estes pensamentos me atormentam, pois mesmo após ter vivido mais da metade de minha vida útil, ainda não tenho as certezas que eu gostaria de ter. Não sei se fiz as escolhas certas, se escolhi o caminho adequado, se não me arrependerei das decisões que tomei. Será que todas as pessoas sentem o mesmo que eu?

        Como faço para ter mais certezas? Como faço para sentir que minha vida tem sentido e que os dias não são vazios por serem repetitivos? Tenho a sensação de andar, andar e não sair do lugar. Queria conseguir enxergar o que fui e o que sou. Algumas fotografias revelam o envelhecer de meu rosto.

        O que eu ainda desejo? O que me move? Quais são os meus ideais? O que ainda quero viver? Tantas perguntas para poucas e vagas respostas. Passam os anos e este incômodo não passa, serei eu uma premiada do destino ou será esta uma angústia comum a todos os seres mortais?

        Estou cansada de perguntar...quero dormir e acordar com o coração cheio de esperança e vontade, pelo menos para viver mais um dia.


 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

As paredes

        A luz me incomodou um pouco. "Vai dormir na cama", escutei. "Não", respondi balbuciando. Não era possível, minha cama estava repleta de objetos. Meu quarto estava passando por um processo de transformação. Por sete anos suas paredes permaneceram verdes. Eu precisava mudá-las, meu quarto ainda era o único lugar não alterado desde meu divórcio.
 
        "O quarto é o lugar do afeto", me disse uma vez minha terapeuta. Eu havia reformado todos os cômodos, até o poço, mas meu quarto continuava da mesma maneira. Há meses eu pensava no porquê desta negligência, já que o afeto era o que eu mais precisava mudar. A rotina me havia engolido numa espiral de compromissos de trabalho e meu quarto se transformara num depósito, depósito daquilo que eu deixava para depois. As paredes começaram a reclamar reforma, a cortina já não as ocultava mais.
 
        Chegou o dia, pensei. E foi justamente após o baile. Levantei-me disposta a enfrentar esta mudança, comecei pela área de trabalho e pela parede com buracos, logo abaixo da janela. Descasquei-a sem medo, retirando toda a sujeira e areia solta. Preparei uma massa e com uma colher de pedreiro cobri os buracos. As paredes de meu quarto não são tratadas com massa fina, são rústicas e para os padrões atuais de construção são feias. Mas elas têm história, mais história do que qualquer parede nova.
 
        Não é possível pintá-las com rolo, é preciso usar um pincel, o que demanda mais trabalho e dedicação. Escolhi a cor laranja, eu havia ganhado dois presentes com esta cor, pensei ser a cor do meu momento de vida. Primeiro lixei-as, passei uma demão de branco e depois duas de laranja. Ficou agradável e alegre.
 
        Faltam duas paredes e é preciso mover alguns móveis pesados para pintá-las, por isto é possível ver no mesmo ambiente o novo e o velho. É possível apreciar a transformação. Creio que assim somos nós quando desejamos mudar. É pouco a pouco, movendo tudo o que temos e construimos em nossa alma, reorganizando, atribuindo novos sentidos, reestruturando. Eu não acredito em mudanças radicais, em pessoas que se dizem outra da noite para o dia. A mudança radical só é possível para quem está vazio e não tem nada para mover.