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Gosto de compartilhar pensamentos e vivências, porque ao retirá-los de mim posso enxergá-los melhor.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

As paredes

        Não é a primeira vez que pinto um cômodo. Já pintei casas inteiras e nunca demorei tanto. Pintar meu quarto tem sido mais do que passar tinta nas paredes, tem sido um processo interior. A terceira parede está pintada somente pela metade, pois preciso que esta parte seque para nela colocar os móveis e pintar o resto. Se fosse em outras épocas, talvez tivesse colocado todos os móveis no centro e pintado ao redor. Mas desta vez meu tempo é outro.
 
        Estou mais lenta, não tenho vontade de atitudes exuberantes ou radicais. Quero mover o menos possível, não quero mais me machucar com atitudes bruscas. Além de pintar tenho separado aquilo que preciso e o que não preciso mais. Desfazer-me dos supérfluos ou do pouco útil, fazer uma limpeza nas gavetas e portas.
 
        Assim, aos poucos, penso em minha vida, refaço planos e construo sonhos. Reorganizo a vida, os pensamentos e os sentimentos, talvez eu nem mude muito, mas não quero ser sempre a mesma. Algumas situações ainda me amedrontam, mas o medo vai passar, a insegurança se diluirá e o coração aflito encontrará novamente a paz, pois as paredes um dia terminam.
 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Minha menina

        Não pensei que eu ficaria tão deslocada sem a tua presença. Não é fácil escrever sobre isto, minha menina, é assim que penso em você, minha menina. Perdoe-me o possessivo, sei que não é meu por direito, mas o é por apropriação devida, devida a nosso laço construido.
 
        Estou desconcertadamente estranha, sentindo falta da nossa rotina. Dos abraços de bom dia, dos cúmplices olhares, das risadas, da companhia na hora do almoço. Sinto falta até do teu cheirinho de bebê, do teu jeito de andar saltitando, das tuas gozações. Estou estranhamente desconcertada.
 
        Você me ensinou a criar vínculos, a acreditar que posso ser importante para alguém, apenas pelo que sou. E agora eu não sei o que fazer. Tudo está diferente, tudo está em ordem, certinho demais, frio demais.
 
        Sem que eu me dê conta subo a rampa olhando para a tua sala, mas você não está lá. Vou até a porta na esperança de ver um sorriso, mas ele não vem. Novos rostos, assustados, amedrontados que me tratam como se eu fosse a polícia. Tenho medo de parar de rir, de não ter mais brilho nos olhos. Tenho medo de voltar ao casulo.
 
        Quanto egoísmo o meu, sabendo que para você este tempo de espera é aflitivo, é angustiante, eu queria poder fazer algo, mas não sei o que fazer, a não ser torcer para que tua alegria não seja abatida e dizer que estou aqui. Que você encontre sentido nos teus dias e não perca a certeza do quanto você é boa em tudo o que faz.
 
        Estou desconcertada, pois nunca assumi para uma pessoa o quanto ela me faz falta. Aprendi a camuflar meus sentimentos para não sofrer ainda mais. E desta vez me pego como uma criança assustada, com as emoções à flor da pele, debulhando neste espaço o que não tenho como compartilhar.  Obrigada por me ensinar a entregar meu coração, para que ele seja livre e não se entregue às amarras do medo e da insegurança. Vai passar...e logo deixaremos nossas estranhezas nos mostrar novos caminhos.
 
 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Há dias

        Há dias em que tudo nos faz falta, mas pior é o dia em que nos falta afeto. Nem dinheiro, nem carro, nem casa, nem roupa, nem jóias são suficientes para sanar a falta de afeto.
 
        Resisto insistentemente, porque se há de sobreviver às suas próprias mazelas, mas há dias em que tudo fica mais pesado. Há dias em que eu apenas queria um abraço apertado, deitar no colo e ter a cabeça acariciada. Há dias em que eu não queria ser mulher, mas apenas uma menina no colo do pai, ou da mãe, que nunca tive. Não me lembro do afeto positivo de meu pai. Somente do afeto sufocante  e pesado de minha mãe.
 
        É possível sobreviver, desde que não se arrisque a amar novamente e sem que se movam as águas paradas. Águas paradas são águas turvas que quando remexidas exalam odores desagradáveis e nem sempre há quem deseje te ajudar a filtrá-las.
 
        Há dias em que eu só queria um ombro ou dormir de conchinha. Há dias em que o choro trava na garganta sem que eu possa fazer algo. Há dias em que não é possível dizer que está tudo bem sem que a voz engasgue. Há dias em que a flor da emoção aflora, e eu penso que são os hormônios e que amanhã vai passar.
 
 
 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Perguntas

        Hoje fui visitar minha possível futura residência. Gostei do ambiente, um apartamento com três quartos pequenos, sala de estar, uma cozinha razoável para os padrões atuais e duas varandinhas, todas as janelas de frente para a rua. Pensei em minha velhice, onde estarei daqui a uns anos?
 
        Estes pensamentos me atormentam, pois mesmo após ter vivido mais da metade de minha vida útil, ainda não tenho as certezas que eu gostaria de ter. Não sei se fiz as escolhas certas, se escolhi o caminho adequado, se não me arrependerei das decisões que tomei. Será que todas as pessoas sentem o mesmo que eu?

        Como faço para ter mais certezas? Como faço para sentir que minha vida tem sentido e que os dias não são vazios por serem repetitivos? Tenho a sensação de andar, andar e não sair do lugar. Queria conseguir enxergar o que fui e o que sou. Algumas fotografias revelam o envelhecer de meu rosto.

        O que eu ainda desejo? O que me move? Quais são os meus ideais? O que ainda quero viver? Tantas perguntas para poucas e vagas respostas. Passam os anos e este incômodo não passa, serei eu uma premiada do destino ou será esta uma angústia comum a todos os seres mortais?

        Estou cansada de perguntar...quero dormir e acordar com o coração cheio de esperança e vontade, pelo menos para viver mais um dia.


 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

As paredes

        A luz me incomodou um pouco. "Vai dormir na cama", escutei. "Não", respondi balbuciando. Não era possível, minha cama estava repleta de objetos. Meu quarto estava passando por um processo de transformação. Por sete anos suas paredes permaneceram verdes. Eu precisava mudá-las, meu quarto ainda era o único lugar não alterado desde meu divórcio.
 
        "O quarto é o lugar do afeto", me disse uma vez minha terapeuta. Eu havia reformado todos os cômodos, até o poço, mas meu quarto continuava da mesma maneira. Há meses eu pensava no porquê desta negligência, já que o afeto era o que eu mais precisava mudar. A rotina me havia engolido numa espiral de compromissos de trabalho e meu quarto se transformara num depósito, depósito daquilo que eu deixava para depois. As paredes começaram a reclamar reforma, a cortina já não as ocultava mais.
 
        Chegou o dia, pensei. E foi justamente após o baile. Levantei-me disposta a enfrentar esta mudança, comecei pela área de trabalho e pela parede com buracos, logo abaixo da janela. Descasquei-a sem medo, retirando toda a sujeira e areia solta. Preparei uma massa e com uma colher de pedreiro cobri os buracos. As paredes de meu quarto não são tratadas com massa fina, são rústicas e para os padrões atuais de construção são feias. Mas elas têm história, mais história do que qualquer parede nova.
 
        Não é possível pintá-las com rolo, é preciso usar um pincel, o que demanda mais trabalho e dedicação. Escolhi a cor laranja, eu havia ganhado dois presentes com esta cor, pensei ser a cor do meu momento de vida. Primeiro lixei-as, passei uma demão de branco e depois duas de laranja. Ficou agradável e alegre.
 
        Faltam duas paredes e é preciso mover alguns móveis pesados para pintá-las, por isto é possível ver no mesmo ambiente o novo e o velho. É possível apreciar a transformação. Creio que assim somos nós quando desejamos mudar. É pouco a pouco, movendo tudo o que temos e construimos em nossa alma, reorganizando, atribuindo novos sentidos, reestruturando. Eu não acredito em mudanças radicais, em pessoas que se dizem outra da noite para o dia. A mudança radical só é possível para quem está vazio e não tem nada para mover.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

O baile

        Coloquei meus sapatos debaixo da mesa e voltei para a pista, a mesma pista que eu pisara entre meus treze e dezessete anos. A mesma pista onde eu dançara rock in roll, lambada, rock nacional e algumas poucas lentas, nas raras vezes em que me tiraram para dançar. Uma dança lenta significava um beijo. Poucos eram os garotos que nos tiravam para dançar e não nos beijavam.
 
        Voltei para a pista. Foram praticamente cinco horas dançando, rindo, desfrutando de sorrisos jovens e esperançosos. Era o meu baile de formatura, o baile dos bailes que não tive. A vida - após tanta história - resolveu me dar de presente um momento mágico. Talvez, se eu houvesse tido uma formatura, ela teria algum fato ou nota triste que a marcasse. A ausência de algum ente querido ou mesmo a presença de algum ente não querido. A insatisfação de algum convidado ou mesmo alguma inimizade na turma.
 
        Sim, era o meu baile, a minha formatura. Agora sim, posso dizer que sou formada, que sou uma professora. Meu curso durou cinco anos e nos dois últimos fiz estágio com uma turma maravilhosa que me ensinou a enxergar o lugar do afeto na relação professor-aluno, que me mostrou a importância do importar-se. Tive excelentes professoras, claro que uma delas foi a mais exigente, a mais presente e que me cobrava mais. Essa me fez virar do avesso, me obrigou a praticar as teorias que conhecia e me acompanhou de perto, literalmente.
 
        Dancei como uma adolescente que se forma no ensino médio. Passeei pelo salão buscando a todos, eu queria abraçar a todos, dançar com todos, comemorar, eu estava me formando. Girei em roda como uma criança e suei de cansaço, de bom cansaço. Bebi três cervejas, o que ultrapassa meu limite e provei de todos os petiscos. Eu tinha direito, era minha formatura, tudo preparado carinhosamente para mim.
 
        Que emoção, minha professora de afetologia estava lá, linda como sempre. Logo no início veio até minha mesa, me cumprimentou e depois por diversas vezes dançou ao meu lado, me fazendo sentir parte de sua vida. Nada para reclamar, nenhuma lembrança negativa ou chateação, se isto não é um presente de Deus então foi um sonho.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Conceição

        Sai da terapia um pouco mais tarde, muitos foram os assuntos, todos girando no mesmo ponto. Particularmente não me sentia bem, o excesso de calor baixou minha pressão e o divã com as almofadas me convidavam para me deitar e dormir.
 
        Deixei o consultório decidida a chegar em casa o mais rápido possível, desejando que o trânsito não me fosse tão cruel. Atravessei a rua, abri e carro e entrei. Uma senhora fez sinal para que eu abrisse o vidro, exitei mas abri. "Posso te pedir uma coisa?" - perguntou quase chorando. Logo imaginei que quisesse dinheiro e já me preparava para dizer um não bem redondo - pois mesmo que eu tenha não dou dinheiro na rua - quando resolvi perguntar: "O que a senhora deseja? "Eu sai de casa cedo, estou andando pelos hospitais para conseguir pomada para as minhas pernas e ninguém tem. Eu tô com fome e passei mal, não consigo mais andar". "A senhora quer uma carona, é isso?" Balaçou a cabeça afirmativamente.
 
        Olhei ao redor para ver se alguém se escondia e só estivesse esperando que eu lhe abrisse a porta para me roubar, não percebi ninguém. Contudo, minha percepção para tais malícias é quase nula. Arrisquei e ela abriu a porta. Imediatamente vi suas pernas cheias de varizes, como as pernas de minha avó. Com dificuldades ela entrou e um cheiro forte de urina invadiu meu carro. "Onde a senhora mora?". "Na rua Peri, mas eu quero ir no hospital porque eu estou passando mal". "A senhora sabe me explicar onde fica o hospital?". "Sei, fica na Goiás". Recordei-me que era o mesmo hospital para onde me levaram no dia em que passei mal no trabalho.
 
        Sem muita conversa segui. "Como você se chama?", "Luciana. E a senhora?", "Conceição". Sabe Lú, eu sofro muito com as minhas pernas, doem demais". Fiquei espantada com o grau de intimidade com que me tratou com apenas cinco minutos de convivência. "Imagino, minha avó também tem as pernas assim". "E ela diz que dói?", "Diz sim, diz que dói muito". "Eu não posso operar, os médicos dizem que não sabem o que fazer", "Por que a senhora não pode operar?", "Por causa do coração, Lú. Eu tenho problema de coração e nas costas, olha o meu ombro". Desviei o olhar do volante em direção ao seu ombro, mas não vi nada diferente.
 
        Dois, três faróis e um pensamento: Será que fiz certo em colocar uma pessoa estranha em meu carro?, "Lú, você é muito bonita.", "Obrigada". "Vira a próxima à direita". "Pronto, chegamos." Ela saiu do carro com muita dificuldade e antes de fechar a porta me disse: "Posso te pedir mais uma coisa?", "Depende do que for", "Eu não tenho nada para cozinhar em casa, você poderia me ajudar com alguma coisa?", "Eu não tenho dinheiro, gastei tudo com o cartão do estacionamento". Sua expressão foi de desapontamento. "A senhora vai encontrar uma pessoa boa que lhe ajude." Bateu a porta e se foi.