A noite chegou e eu precisava dormir, minha rotina voltaria ao normal no dia seguinte, mas o sono teimava em ocultar-se em terras distantes. Ocorreu-me que eu não teria mais o teu bom dia, nem o teu caloroso abraço e muito menos te veria correr ao meu encontro e pular em meu pescoço como uma criança feliz. Uma pontada de dor se manifestou em meu estômago e percebi que estava ansiosa. Duas, três vezes me levantei durante a noite até que o despertador soou.
Eu não sabia como me sentiria. Não queria sentir tristeza ou qualquer tipo de sentimento egoísta. Cheguei e quase tudo estava igual, menos o clima entre as pessoas que agora parecia mais leve. Agi como num dia qualquer e não tive vontade de observar quem chegava, apenas esperei que o som da obrigação marcasse o momento de começar.
Muitos rostos novos, alguns familiares e deslocados no novo contexto. Olhei para cima, num gesto inconsciente de te buscar entre eles. Não senti tristeza e nem pesar, eu sabia que ali não era mais o teu lugar, que agora você pertence a outras terras e mares, que o teu barco navega em direção às águas profundas.
O tempo passou sem que eu percebesse e a rotina voltou às minhas veias como um vício retomado. Senti que por você não estar mais, ali não continuaria a ser o centro de minha motivação e eu poderia me dedicar às práticas laboriosas que também me dão prazer e alegria.
Já me preparava para a refeição do meio-dia quando o telefone tocou. Não me ocorreu que você estivesse ali, como de costume, à minha espera. Pensei que tão somente quisesse saber como fora meu dia sem tua presença. Uma alegria serena tocou meu coração e ao ver-te tive a certeza de que ali não era mais o teu lugar. Você cresceu e estou feliz por isso. Diante de meus olhos, dia a dia, você cresceu. Terei que exercitar ver-te algumas vezes, pois você nem sempre estará com teu barco ancorado em águas rasas. Usarei binóculos para te acompanhar e estarei à tua espera quando de mim precisar.
Vi em teus olhos um profundo desejo que ficar mais, de permanecer ao meu lado, de reviver, pois a incerteza dos fatos te amedronta. Vi em teus olhos um pedido de colo, de abraço, de aconchego. Mas, sabemos que nosso elo vai além, se completa no espírito e mesmo que eu deseje ardentemente, nem sempre poderei dar-te este consolo. Isto me causa um profundo pesar, mas é necessário, para que você continue crescendo e navegando.

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