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Gosto de compartilhar pensamentos e vivências, porque ao retirá-los de mim posso enxergá-los melhor.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Preparativos

       - Já fez as malas? - perguntou-me com um brilho característico nos olhos.

        - Separei algumas roupas e documentos.

        - Quanto tempo ficará fora?

        - Um mês, não mais.

       Enquanto eu terminava de escrever a lista de coisas que tinha para fazer antes da viagem, pausadamente me lançava perguntas. Até que afirmou:

       - Ainda não nos separamos por tanto tempo, não é mesmo?

      Aquela era a frase que eu temia ouvir. Havia passado os dias resolvendo problemas, organizando roteiros, delegando funções, tudo para não precisar deparar-me com aquela pergunta.

      - É verdade - respondi dissimulando despreocupação.

     - Vou sentir a tua falta.

     Aquilo era demais para meu coração. Eu também sentiria sua falta, mas precisava ir. Esta viagem estava além das expectativas turísticas, seria o meu grande retorno ao lar, às minha origens. Consistiria na busca de um eu nostálgico, de um passado que não havia vivido. Seria o divisor de águas entre o ontem da minha vida e o amanhã. Eu precisava ir.

      Sentou-se ao meu lado, pegou minha mão e a beijou. Senti-me anciã, a velha avó cujo neto pede bênção. E um nó em minha garganta se formou. Levantei seu rosto e olhando em seus olhos grandes como duas jabuticabas, lhe disse:

       - Você sabe o quanto é importante para mim, não sabe? Algumas pessoas são importantes porque marcam um momento da nossa história. São nossos amigos da escola, da igreja, de algum curso que fazemos. Outros até são nossos amigos virtuais. Algumas pessoas marcaram a nossa vida porque nos fizeram rir, nos amaram por um momento, nos ofereceram seu ombro quando precisamos. Outras marcam a nossa vida por terem feito justamente o contrário disso tudo. E, em algum momento nos recordaremos delas.

       Ouvia-me com a mesma atenção de sempre. Então continuei:

       - Há pessoas que conseguem muito mais do que marcar momentos importantes, elas se tornam importantes em nossa vida. Estas não são esquecidas, mesmo que estejamos longe, mesmo que fiquemos tempos sem nos encontrar. Quando nossos irmãos crescem e saem de casa, ficamos tempos sem vê-los, mas nunca nos esquecemos de que temos irmãos. Algumas pessoas são assim, você é assim para mim.

        - Então você se lembrará de mim? Perguntou em tom mais alegre.

       - Eu não precisarei me lembrar de você, justamente porque não é possível te esquecer.

      E com seus bracinhos de criança e o coração inocente, me abraçou como me abençoando.
      

      

      

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Vitória

           O que significa exatamente vitória? Ganhar é um verbo bastante almejado. Costumamos dizer que seria bom ganhar um aumento de salário, ganhar na loteria, ganhar um presente, ganhar um abraço, ganhar no bingo, na rifa, no jogo de bicho ou ganhar uma discussão.

           Não sou do tipo que memoriza citações bíblicas ou pensamentos, mas sei que em algum lugar há uma frase mais ou menos assim: "De que adianta o homem ganhar todas as riquezas do mundo se perder a sua alma?" Nem sempre estamos prontos para compreender tais afirmações. Nesta altura de minha vida, que não é tão cedo e nem tão tarde, o sentido desta expressão é tão profundo que não posso, pois não consigo explicá-la.

          Nunca fui uma pessoa competitiva ou desejosa de ganhar. Por vezes me considerei fraca e covarde por isto. Às poucas vezes que ganhei, me perguntei qual deveria ser minha reação, ou o que deveria sentir. O desconforto de ver alguém perder, não me permitia festejar o que ganhara. Vai entender...

         Parece que ganhar está vinculado ao desejo de ser notado, de ser reconhecido e admirado. Sim, sempre desejei tais coisas, mas não desta maneira. Queria ser, antes de mais nada, uma pessoa a ser ouvida. Então, desde sempre amei a palavra. Sua força, sua capacidade de atingir as mentes e os corações. Passei a pedir à vida a palavra certa nos momentos certos. Mas antes a vida me deu os momentos certos, para que só depois de vivê-los eu pudesse pronunciá-los. Porque a força da palavra não está em si mesma, e sim, em tudo aquilo que ela reconta, recria, redimensiona e redireciona.

        Passei a ganhar ouvintes, jovens ouvintes com seus ouvidos atentos às minhas experiências, às minhas dores e alegrias. E como é bom poder usar a palavra para atingir mentes e ganhar corações. Não para que me admirem, mas para que admirem a si mesmos, às suas capacidades. Admirem seus sonhos e desejos mais puros. Tantas são as palavras que me calo e olho profundamente, no desejo de que meus olhos falem por mim. Pois, por incrível que pareça, a palavra também desfaz se não for bem talhada. São vários os cuidados, os discernimentos para que a palavra não seja proferida em vão. E, a palavra em vão, tenha também um objetivo.

       Ganhei sem saber, a oportunidade de treinar e aprimorar o uso da palavra pelo olhar, a partir de tudo o que já vivi. Porque há sentimentos, ideias e realidades impossíveis de caber em palavras. E, hoje, tão gratuitamente, ouvi: "Tem uma ponte em teus olhos." Confesso que tais palavras me pegaram de surpresa, pois a ponte é uma das metáforas mais expressivas, uma das que mais preenche minha visão sobre as etapas da vida. Ganhei meu diploma, me graduei, selaram a certeza de que o mais profundo de nós mesmos, de nossa alma se revela pelos olhos. Não ganhei muitos bens durante minha vida, mas, certamente, não perdi a minha alma.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Minha flor

             Há dois anos descobri uma flor em meu jardim. Ela já estava ali a mais tempo, porém somente a percebi há pouco. Passei a me sentir como o Pequeno Príncipe e até o reli para encontrar-me nas entrelinhas de sua história. Assim como El Principito amava a sua rosa eu amo minha flor. Sua presença é tão cativante que não consigo deixar de olhá-la quando ando pelo jardim. Sagradamente, todas as manhãs, para que meu dia inicie bem preciso vê-la, sentir seu aroma.

             Esta flor bastante rara e que ainda permanece em botão propiciou-me um lento e saboroso desabrochar. Sim, eu que ainda não conhecia algumas partes de mim mesma, alguns sentimentos tão fraternamente maternais, descobri-me admirando-a, como numa espécie de reflexo do vir-a-ser. Não sei se me explico, mas é que as palavras não cabem, não dão conta.

            Pudera eu dizer que voltei a viver o passado que não tive. A adolescência feminina que não expressei. A essência mulher que deixara arquivada para um-dia-quem-sabe. Sorrir à toa, falar sozinha, emocionar-me com uma música ou um filme, ler várias vezes a mesma mensagem, olhar por minutos a fio uma fotografia, desejar abraçar e beijar a todos que encontrar. Estes são apenas alguns sintomas de seu efeito sobre mim.  

            Como o Pequeno Príncipe via sua rosa, a vejo também, tão forte e tão frágil ao mesmo tempo, à mesma hora, na mesma cena. Como se fosse duas. Esta dualidade típica da flor no ponto de desabrochar, me provoca a ser mais, a ampliar-me, a mover-me, a expandir-me. Meus horizontes cresceram, olho-me no espelho e me vejo, me reconheço e me interpreto. Ao vê-la aprendi e me ver de uma maneira nova, autêntica e sem medos ou receios.

           Está quase na hora de eu viajar e conhecer outros mundos. Terei que deixar minha flor em nosso planeta-jardim. Meu coração se amedronta, porque será a primeira vez que nos separaremos tão demoradamente. A deixarei por encargo de si mesma, sei que é forte o bastante para sobreviver aos ventos e tempestades desta época. Sei também que cultivará as lembranças das nossas manhãs. Mas não posso deixar de sentir, pois foi exatamente o que ela me fez: abriu o baú onde repousavam os meus mais nobres sentimentos.

         

          


segunda-feira, 18 de junho de 2012

A morte chegou de mansinho

              Pela primeira vez em quarenta anos quero agradecer à morte por sua leveza para comigo, por seu carinho. Pela primeira vez a recebo pacificamente, sem revoltas, sem perguntas, sem querer saber o que fizera eu para merecer tantas perdas brutas. Pela primeira vez deixo ir alguém que de forma tão especial marcou minha vida: minha bisavó.

              Partilhávamos o mesmo dia de aniversário e sempre tive uma ponta de orgulho por ser sua primeira bisneta, de tantas outras e outros. Sempre que posso conto sua história de haver tido por sogra uma escrava, a quem devo minhas canelas finas, minha bunda grande, meu fascínio pelos atabaques e, meu anseio por liberdade e justiça.

             Partilhávamos o sonho de morar no interior. Sem pensar duas vezes eu teria ido com ela. Quantas vezes dormimos na mesma cama e ela me contou histórias de saci-pererê, acreditava piamente nestas coisas. O gosto do seu feijão, o sonho, a maneira como segurava meu rosto e me beijava e que, hoje, timidamente tento reproduzir com os jovens que me cercam, porque esta é para mim sua maior referência: como beijar um jovem o mais maternal e amorosamente possível, sempre olhando em seus olhos. Não tenho seus lindos olhos claros, mas tento ter a sua mesma intensidade.

           Foram 101 anos! Muitos devem ter sido os seus pecados, mas engraçado, por mais que eu os soubesse, nunca alteraram meus sentimentos e minhas lembranças. Não que eu fosse uma bisneta presente, principalmente nos últimos anos. Não sei se devo me arrepender de não tê-la visitado neste último aniversário. Seria fácil jogar a culpa nos compromissos, na falta de tempo, mas a verdade é que eu tinha medo. Medo de que ela não me reconhecesse, mas, principalmente, medo dela me reconhecer e sorrir largamente e segurar meu rosto e beijá-lo várias vezes como sempre fazia. Eu me sentiria pequena demais, inútil demais...

          Siga em paz vó. E por favor, junte-se a todos os outros e outras que olham por mim. Ainda hoje, eu disse a uma garotinha muito especial que nossa única certeza é a de que vamos morrer. Eu gostaria muito de ter mais uma certeza: a de que um dia voltaremos a nos encontrar.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O sonho

        Outro dia tive um sonho. No imaginário popular sonhos são revelações divinas, o meio pelo qual Deus se comunica. Sendo eu tão exigentemente racional, não levei a questão para este viés, mas não posso negar que tenha sido um tanto revelador.

         Sonhei que era um feto dentro de um grande ventre e que me movia livremente, nadava naquela bolsa d´agua quente e aconchegante. Dormia quando queria, acordava quando achava por bem, me alimentava e me sentia confortável. De repente, sem que eu me desse conta, senti algo me puxar. Não era uma força qualquer, era forte e por mais que eu lutasse contra, não podia resistir. Um clarão ofuscou meus olhos e eu acordei. Era a luz do radio relógio me avisando que havia terminado meu tempo de descanso.

         Como sou lenta para levantar, coloquei uma mão sobre os olhos para acender a luz. Estiquei a outra para trás buscando o interruptor que, todas as manhãs, insiste em se esconder detrás da cabeceira da cama. Finalmente acendi a luz. Virei-me de lado, desliguei o radio relógio, que gritava alguma desgraça alheia e retirei os cobertores de cima de meu corpo ainda cansado; sentei-me na cama admirando as portas fora de prumo de meu guarda-roupa e lembrei-me de que havia sonhado algo. Não sabia exatamente o quê, mas havia sido um sonho um tanto estranho.

        Calcei os chinelos velhos e macios e quando buscava forças para impulsionar meu corpo para a saída final, ao deslocar o olhar, os vi sentados aos pés da cama, uma criança e um ancião. A paz e o amor que emanavam de seus olhos eram tanta que não tive medo e nem qualquer tipo de reação. Sentia-me como se os conhecesse de outra vida, como se fizessem parte de minha família, como se sempre estivessem ali.

        Ficamos assim, olhando-nos. Eles a mim e eu a eles. Esbocei um sorriso, daqueles que misturam alegria contida com admiração. Ambos com seus sorrisos largos levantaram-se, estenderam-me a mão e disseram: "Estamos aqui para te ensinar  a andar". Levantei-me quase como num gesto reflexivo e tentei dar um passo, foi então que compreendi: havia nascido de novo.

       

         

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O vagalume

           Realmente acho engraçado quando minha avó pergunta indignada: "Por que os bichos falavam no tempo em que Deus andava pela terra e agora não falam mais?" Sinceramente nunca sei o que dizer. Apenas a olho fixamente tentando decifrar o que se passa em sua mente.

          De certa forma também acredito que os animais falem, não com voz humana, mas com a voz da metáfora que só o ouvido do coração pode escutar.

         Estava eu sentada em meu sofá próximo à janela quando percebi uma luzinha verde piscar. Um vagalume! Há quanto tempo não via um. Pensava até que havia desaparecido da natureza. O vagalume tem o poder de provocar nossos sentidos, pois nos seduz para nos aproximarmos e assim que nos achegamos, ele pisca em outro lugar, motivando-nos a mudar de direção.

          Decidi que o pegaria, simplesmente para vê-lo piscar entre meus dedos, não o machucaria. Então uma verdadeira maratona deu início. Primeiro tive que sair de minha zona de conforto, meu querido sofá. Sair para o quintal onde estava mais frio e andar cuidadosamente sem perder o foco da luzinha verde.

          Como estava escuro precisava redobrar a atenção, mesmo conhecendo o terreno, na escuridão as coisas ficam misteriosamente desconhecidas. Aproximei-me e abaixei, via-o piscar entre as orquídeas que agora estavam abertas e que pela correria do dia a dia não havia percebido. Estiquei vagarosamente minhas mãos em forma de concha e quando pensava estar próxima o suficiente, ele apagou, deixando-me desorientada. Olhei ao redor e o vi piscar em outro lugar.

         "Danadinho" - pensei. Vou até você. Levantei-me, executei alguns malabarismos para não escorregar na grama molhada pelo sereno da noite e com os olhos fixos naquela fascinante luz, retomei minha caçada. Desta vez o vagalume estava próximo  ao pé de maracujá, aliás, havia me esquecido de tê-lo plantado. Como estava vistoso e grandinho. Agora pegaria o danado. Estiquei as mãos vagarosamente e quando quase o alcançava, apagou, voltando a piscar mais ao longe. Assim passei, quem sabe, uma hora ou mais. Até que me rendi.

        Sentei-me e finalmente pude ouvir a sua voz enquanto piscava quase a meu lado. Dizia-me que luzes, sem importar a quantidade ou a intensidade, mesmo a de um vagalume, nos indicam caminhos, rotas novas. Obrigam-nos a ver mesmo sob a escuridão mais densa. Assim são algumas pessoas em nossas vidas. Não precisam ser candeeiros e nem holofotes, bastam ser um vagalume para nos retirar de nossa zona de conforto e nos revelar lugares e experiências novas.  

        

terça-feira, 5 de junho de 2012

Matrix

       Há tempos em que são tantas as palavras que perpassam nossa mente que nem sabemos exatamente quais expressá-las. É como o momento do estado de choque. Como quando algo está em movimento extremo, e a sensação que temos é de que está parado. Assim estou eu.

       Sem que eu esperasse, desejasse ou intuísse, o vendaval chegou. Assim como o sopro do lobo mau sobre a casa dos três porquinhos, o vento do mar soprou sobre mim, impiedosamente. Tentou novamente arrancar meu chão, ou melhor, o meu teto. Avaliou-me, mediu-me, julgou-me e condenou-me a iniciar esta nova fase da minha vida sob o jugo das histórias antigas, do passado amargo e sem perspectiva.

      Tentou vestir-me com as antigas vestes, do medo, da insegurança, do abandono, da culpa e da responsabilidade alheia. Tentou deixar-me sem teto, sem chão, sem eira, nem beira. Como o advogado do diabo, tentou confundir meus sentidos, meu discernimento e meu coração. Provocou e invocou a fera que existe em mim, pelo simples prazer de me ver sofrer para me controlar e manipular.

      Eu ri e chorei ao mesmo tempo, numa convulsão de sensações e iluminação. Sim! Finalmente havia compreendido, finalmente havia enxergado o que não tinha coragem de ver, o que teimava em não aceitar. Eu pude compreender sem rodeios, sem floreios. Assim como alguém arranca de uma vez a casca da ferida que precisa ser limpa; assim como quem puxa um esparadrapo largo de sobre seus pelos; assim como quem sai na luz após viver nas trevas.

      Minha vida se passou diante dos meus olhos como um raio e vi várias pessoas com a mesma face, a face do vento do mar. Apontando o dedo para mim e me condenando por existir, por não desistir, por teimar em não enlouquecer. Eram dedos que giravam ao meu redor, palavras que se transformavam em punhal e vinham em minha direção.

      Lembrei-me de minha amiga artista, que acredita que todos nós vivemos num mundo Matrix e cada um está num universo paralelo. Senti algo me puxar pelas costas como se quisesse sugar-me. Como se de agora em diante eu pertencesse a outro mundo.